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Disco com 11 faixas inéditas foi gravado no estúdio da Deptone no Brooklyn e atesta o talento incomensurável da cantora, bem como se legitima como uma tenra e atemporal declaração de amor à música; leia a crítica

“É uma questão de tempo/ em breve teremos paz de espírito/ é uma questão de tempo/Nossos erros serão corrigidos/é uma questão de tempo/ estaremos todos unidos/ é uma questão de tempo/ essa é uma canção sobre paz”. Esses são alguns versos de Matter of Time , faixa que abre o sensacional “ Soul of a Woman ”, último disco de Sharon Jones, que a diva do soul gravou com seus habituais parceiros, os Dap-Kings , e que é lançado um ano após sua morte em decorrência de um câncer pancreático.

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Sharon Jones deixa claro porque Sharon Jones foi uma das grandes vozes do R&B com “Soul of a Woman”
Jacob Blickenstaff / Divulgação
Sharon Jones deixa claro porque Sharon Jones foi uma das grandes vozes do R&B com “Soul of a Woman”

Matter of Time é o prenúncio de um álbum potente, farto de grandes momentos e que cristaliza a força sonora de Sharon Jones . A agudeza da alma da cantora reverbera inconfundível em Just Give me Your Time . O jazz revive no ecoar dos instrumentos a reboque de uma voz de seda, apaixonada e apaixonante que nos diz que não precisa de nossas mentiras, mas só do nosso tempo.

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“Os últimos anos Sharon estava batalhando”, observa o baterista dos Dat-Kings Bosco Mann, que produziu o álbum, em material divulgado à imprensa. “Quando ela estava mais forte, era quando nós íamos ao estúdio. Nós só trabalhávamos quando ela realmente estava sentindo essa vibe”.

Essa vibe, essa energia transcendental pode ser sentida no disco e é, em parte, o que faz de “Soul of a Woman” uma experiência tão poderosa e que faz os amantes de música se conectarem com o disco em uma escala tão profunda.

Inicialmente o álbum focaria em baladas com sessões de cordas, mas a coisa foi mudando de figura. Muito em virtude do estado debilitado da cantora. O blues voltou ao protagonismo para explorar a maleabilidade funkeira da cantora. O disco, portanto, se resolveu como um sumário da obra e das capacidades da cantora. Com uma primeira parte mais crua, em carne viva, aguda e uma segunda parte mais melosa, côncava, orquestrada.

Reprodução
"Soul of a Woman" é o último álbum inédito de Sharon Jones

“Ela não podia realmente cantar algo se não se identificasse com aquilo e cantasse do coração”, recorda-se Mann. Então, quando ela canta “Se eu achasse o que eu estou procurando, eu poderia mover o mundo” em Searching for a New Day você realmente acredita em Sharon Jones. Essa habilidade de evocar uma via de mão dupla em termos de credibilidade não é um recurso que muitos cantores dispõem e que nós verificamos com mais proeminência na música negra americana e em seus expoentes do passado, como Nat King Cole, Ray Charles, entre outros.

Mann disse que “toda vez que Sharon subia ao palco, parecia que ela deixava tudo lá”. Essa sensação de total entrega, de arrebatamento permeia “Soul of a Woman”. Quantos discos suscitam esse tipo de sentimento?

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Trata-se de um disco esculpido para amantes da boa música, especialmente para letrados no soul, e que deve render novas indicações ao Grammy para a cantora. A primeira indicação ao Grammy veio tarde, em 2014 por “Give the People What They Want”. A própria carreira da diva começou tardiamente, somente aos 40. A Deptone com esse lançamento concorre para tornar seu legado mais perene e abrasador. É uma questão de tempo, canta a própria Sharon Jones que vive gloriosamente em sua música.

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