Selton Mello é um ator carismático, dedicado e eficaz, mas como cineasta é outra história. A boa impressão deixada por “Feliz Natal” (2008) deu lugar ao entusiasmo ensejado por “O Palhaço” (2011), que agora se configura em maravilhamento com “O Filme da Minha Vida”, terceiro longa-metragem do cada vez mais lapidado e robusto diretor.

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Johnny Massaro e Selton Mello em cena de O Filme da Minha Vida, que estreia na quinta-feira (3) nos cinemas brasileiros
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Johnny Massaro e Selton Mello em cena de O Filme da Minha Vida, que estreia na quinta-feira (3) nos cinemas brasileiros

Ambiciosamente estético e com uma narrativa que combina sutileza e potência, “O Filme da Minha Vida” preserva o componente de autoralidade que impregna a faceta de Mello como diretor. Há aspectos biográficos, há fragmentos de um cinema de outro tempo e há a disposição de falar de amor de uma maneira inusitada, abrasadora e iminentemente contundente.

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O jovem Tony Terranova ( Johnny Massaro , em grande momento) precisa lidar com a ausência repentina do pai, vivido por Vincent Cassel .  Ele sumiu sem deixar vestígios ou maiores explicações. Tony dá aulas de francês no colégio da cidade e nutre o desejo de ir à cidade grande para ir ao cinema e, quem sabe, ao bordel. Vê no solícito Paco (Selton Mello), um lastro da figura paterna desaparecida. Paco era amigo de seu pai e parece interessado em sua mãe. Ele está interessado nas irmãs Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes). Não sabe exatamente qual.

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Bruna Linzmeyer em cena de O Filme da Minha Vida

Essa é uma história de amadurecimento temperada pelas belezas da vida – o amor, a esperança, a solidariedade e o cinema. Ambientado nas serras gaúchas nos anos 60, tudo no filme evoca o passado. Da direção de arte impecável à trilha sonora com pitadas jazzísticas e perolas francesas, passando pela fotografia de paletas claras e polidas de Walter Carvalho. O cinema de Selton Mello aqui é clássico, memorialista e afetuoso. Os personagens brilham na tela e se transferem para a imaginação do público com graciosidade. É um feel good movie essencialista, do tipo que se ampara em uma boa história, mas atinge o público na alma. Não se fazem filmes como esse atualmente.

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Justamente por isso, o feito de Mello precisa ser devidamente apreciado. Dos subplots – repare no encantamento do arco do bordel com a prostituta Camélia (Martha Nowill) – às atuações – Vincent Cassel nunca esteve mais sutil – “O Filme da Minha Vida” é cinema de artesanato. Do tipo que resiste ao tempo pela qualidade dos detalhes no todo.

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