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À sombra de cancelamentos recentes e com números abaixo do esperado no 1º trimestre, Netflix volta a enfrentar ceticismo, mas a palavra crise ainda é um termo precipitado para definir o momento sólido da empresa

Após uma sucessão de cancelamentos de séries pela Netflix, alguns inesperados, outros nem tanto, uma grande comoção na mídia se deu início. Analistas e indústria tentam entender o que isso significa e relativizam a justificativa do CEO da empresa, Reed Hastings de que a onda de cortes está só começando. Segundo Hastings, a taxa de sucesso das séries da Netflix é alta e justamente por isso houve poucos cancelamentos. “Temos que nos arriscar mais. Nós deveríamos ter uma taxa de cancelamento maior”, disse em entrevista a CNBC em maio.

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O elenco de
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O elenco de "Sense 8": a internet chiou o cancelamento, mas a audiência da série é muito baixa para justificar o alto investimento

O que inquieta a indústria, na verdade, não é nenhuma novidade. É a dúvida se o modelo de negócio da Netflix é viável. Essa questão parecia afastada mediante o investimento maciço na produção de conteúdo original e no aumento de assinantes em todo o mundo. No entanto, a notícia de que a empresa teve um resultado no 1º trimestre do ano inferior ao esperado – o que decepcionou analistas e mercado – trouxe essa velha dúvida à baila novamente.

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Especificidades x generalismos

Hastings, no entanto, fez um diagnóstico preciso. É preciso correr riscos e a Netflix já se mostrou confortável para fazê-lo. Por mais que o algoritmo da empresa seja afiado uma taxa de sucesso como a que a empresa ostenta é difícil de manter. É natural que séries deem errado, ainda mais na escala global e intensa com que estão sendo produzidas.

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"Gilrboss" foi vítima da nova política de pouca tolerância com produções originais que falham em capturar o público

Pegue “Girlboss”, por exemplo. O caso mais recente de cancelamento sumário. A série produzida por Charlize Theron tinha como alvo um público muito parecido com o de “13 Reasons Why” e foi lançada na mesma época . Além da protagonista pouco simpática – e Sophia Amoruso, cuja obra autobiográfica inspirou a série, criticou sua retratação – a série simplesmente tentava exasperadamente soar cool e hypada. Um primeiro ano ruim e pouco funcional. Valia  a pena insistir? Talvez, se você não tivesse um blockbuster do tamanho de “13 Reasons”, que por sua vez é um produto que conceitualmente dispensaria um 2º ano, mas ganhou.

Não se enganem, a Netflix é uma empresa que visa o lucro e é preciso trabalhar com estratégias que levem a este fim. Passa por aí o cancelamento de produções como “Marco Polo” e “The Get Down” . Duas produções caras, ostensivas, mas que não pescaram um grande público. Após o cancelamento de “The Get Down”, a série mais cara da plataforma até a data, o criador e diretor Baz Luhrmann saiu-se com essa: “A verdade é que eu faço filmes”. Ele deu a entender tanto que a série não era sua prioridade, como uma justificativa para o eventual fracasso.

Ted Sarandos, presidente de conteúdo da Netflix, traduziu aquilo que muitos ainda não conseguem compreender na esteira do cancelamento de “Sense 8”, uma série que fez barulho nas redes sociais, mas figurou entre as menos vistas da plataforma de streaming. “Uma série grande e cara para um público grande é ótimo. Uma série grande e cara para um público pequeno é difícil fazer durar muito tempo até mesmo no nosso modelo de negócios”.

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Cena de
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Cena de "Dark", primeira série alemã da Netflix

A afirmação de Sarandos ajuda a entender outro cancelamento ruidoso, o da série “Marco Polo”. A série do explorador italiano na Ásia foi uma tentativa de ter uma espécie de “Game of Thrones” que não deu certo. Mesmo dispendiosa, a Netflix bancou um segundo ano da série porque não tinha nada remotamente semelhante em seu portfólio – quadro diferente do de “Girlboss”, por exemplo.

Internacionalização

Apesar de adotar comportamentos típicos de canais tradicionais e de manter sigilosos os dados de audiência de suas produções –há dados não oficiais que colocam “Orange is The New Black” como a série original mais assistida -, a Netflix dá seguimento a sua estratégia de sofisticar e internacionalizar seu conteúdo. Além de ter produções sendo realizadas em países como México, Turquia, Argentina, Alemanha e Brasil, a empresa continua apostando em conteúdo adulto. Do tipo que grandes estúdios de cinema estão temerosos de investir.

Além de bem-vinda, a estratégia proporciona opções de qualidade ao público e está funcionando para a empresa. A despeito dos cancelamentos, a Netflix não vive uma crise em seu modelo de negócios. Ela só o está consolidando de vez.