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Com 16 personagens às voltas com suas histórias, "Outros Tempos - Velhos" busca debater temas que circundam a vida e a morte, em especial na velhice

As marcas no rosto não escondem que, para eles, o tempo passou. As histórias se acumulam e a vida chega a escorrer entre os dedos de tão volumosas que ficam. Apesar de percorrerem trajetórias diferentes, o destino final é o mesmo para todos: a velhice. É nesse contexto que a nova série do Canal MAX “ Outros Tempos - Velhos ” surge para falar sobre um assunto que muitas vezes é ignorado na sociedade : o envelhecer.

Regina Guerreiro é uma das personagens retratadas na série
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Regina Guerreiro é uma das personagens retratadas na série "Outros Tempos - Velhos"


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Com a estreia programada para o dia 4 de julho e indo ao ar todas as terças-feiras às 23h, a série que conta com oito episódios e revela a vida de 16 personagens distintos: uns em que os holofotes foram grandes companheiros durante alguns anos, como o músico Ney Matogrosso e a atriz Tânia Alves e outros em que o único brilho presente era o da própria vida. Apesar das diferenças, é possível enxergar que essas histórias se entrelaçam revelando o contexto de toda uma geração e que, envelhecer, nada mais é que possuir uma mente com asas e um corpo limitante.

O episódio de estreia, por sua vez, conta a história de duas mulheres que traçam caminhos completamente diferentes: a dançarina Lidia Serrano e a jornalista Regina Guerreiro. De um lado, uma artista que voltou as suas forças para a família e do outro, todo o glamour do universo da moda acompanhado de uma peculiar solidão. Entre mágoas e encantamentos, as duas relembram suas histórias e comentam a perspectiva de um futuro, que, para Regina, não existe: “o que tinha que fazer de grande já fiz”, comenta a profissional de 75 anos.

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Outras histórias que se cruzam neste seriado é a de Hélio Bicudo que enfrenta aos 93 anos estágio avançado do Alzheimer depois de se dedicar incansavelmente sua vida à Justiça. Além disso, há também a história da fotógrafa inglesa Maureen Bislliat que revela ter tido uma vida sem raízes em suas andanças pelo mundo. O artista de Santo Amaro da Purificação na Bahia, Emanoel Araújo, também ressurge no programa trazendo à tona a homossexualidade na velhice enquanto Samir El Hayek mostra como é chegar na terceira idade depois de ter traduzido cerca de 120 livros do islã para o português, graças à sua insatisfação com a imagem que era passada da religião no País.

Sem contar com um especialista sequer, a série busca trazer à tona a premissa de que a velhice é democrática e, portanto, chega para todo mundo.

Respeito

O músico Ney Matogrosso também é um dos personagens que é ouvido na nova série
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O músico Ney Matogrosso também é um dos personagens que é ouvido na nova série

O trabalho realizado pela Prodigo Films com apoio do canal MAX teve como intuito saborear narrativas muitas vezes deixadas à mercê do esquecimento. Como define o documentarista Eduardo Rajabally, a beleza do documentário é a de dar espaço para que, em uma sociedade onde o falar se sobressai, o exercício de ouvir seja realmente praticado.

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A produção do seriado revelou que o intuito era fazer uma série cuja premissa fosse baseada no respeito, ainda mais sob um contexto onde é frequente o preconceito e descaso com a terceira idade. Como define o roteirista Giuliano Cedroni, a escolha de dois personagens por episódios, o tempo de entrevista estendido e o enfoque somente às suas narrativas tornou o programa ainda mais fidedigno à sua proposta, trazendo histórias com diversos momentos marcantes e reviravoltas, como é a própria vida.

Entre uma reflexão e outra, em um debate promovido em São Paulo com os envolvidos na série e acompanhado pelo iG , o  Sr. Fernando de 102 anos de idade, um dos entrevistados para a série, afirma que já não enxerga nem ouve direito, mas não deixa de refletir sobre como lidar com essa tal velhice: “aproveitar ao máximo a vida que sobra”, comenta. “A morte é uma fatalidade do gênero humano. Envelhecer faz parte”, completa.