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Recurso amplamente utilizado se aproveita de estereótipos ligados à magia oriental para criar personagens, mas gera críticas por ser muito enviesado

Fonte recorrente de inspiração para criação de universos ficcionais, a cultura oriental é utilizada há muitos anos como um baú de tesouros para desenvolver histórias e personagens que orbitam em torno da magia, misticismo, espiritualidade, segredos, lendas e artes marciais – e é essa origem em comum para seus poderes que une Doutor Estranho e Punho de Ferro, ambos da Marvel, em uma mesma categoria de super-herói. Os dois personagens buscam desvendar os mistérios do universo através de uma longa jornada pelos mistérios da sabedoria asiática.

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História de ''Punho de Ferro'' utiliza recursos culturais do oriente com estereótipos misticos do local
Divulgação/Netflix
História de ''Punho de Ferro'' utiliza recursos culturais do oriente com estereótipos misticos do local


Não são poucos os personagens de histórias em quadrinhos que, em alguma medida, beberam na “fonte mítica” que envolve algumas características da cultura oriental: além dos já citados Doutor Estranho e Punho de Ferro , outros como Ozymandias , da série “ Watchmen ”, Doutor Destino e Katana , de " Esquadrão Suicída " também compartilham essa parcela de suas histórias. Nenhum deles nasceu com poderes, mas se tornaram super-heróis a partir de eventos que os levaram em uma viagem sem volta para dentro desse universo que, na visão ocidental, é tão obscuro e desconhecido.

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Katana, do ''Esquadrão Suicída'' utiliza espada possuida para matar seus inimigos
Reprodução/Marvel
Katana, do ''Esquadrão Suicída'' utiliza espada possuida para matar seus inimigos

Todos eles, em alguma medida, entram em contato com esse lado mágico do oriente como desfecho de suas vidas. Doutor Estranho descobre a filosofia do Ancião Antigo e domina seus poderes, Punho de Ferro para por um intenso treinamento de artes marciais e sabedoria para conquistar sua verdadeira força, Ozymandias tem revelações místicas ao ter contato com uma civilização oriental, Doutor Destino é possuído por um antigo faraó e Katana extrai sua motivação de uma espada possuída pela alma de seu marido falecido. Outro ponto comum de suas histórias é o passado trágico – seriam, então, mistérios do oriental um escape para uma espiritualidade esquecida pelo ocidente?

Reforçando um clichê?

O apelo desse tipo de história é indiscutível – e o sucesso desses personagens com o público comprova a ideia de que, sim, as pessoas gostam e estão dispostas a ver essa abordagem. O filme “Doutor Estranho” faturou mais de US$ 677 milhões em todo o mundo e foi indicado em uma categoria do Oscar, ou seja, o espaço para as narrativas que se aproveitam desse misticismo está aberto.

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''Doutor Estranho'' foi sucesso de público e mostra força narrativa da apropriação de elementos da cultura asiática
Divulgação
''Doutor Estranho'' foi sucesso de público e mostra força narrativa da apropriação de elementos da cultura asiática

Entretanto, nem todos são tão entusiastas dessas histórias: o jornal americano Los Angeles Times em um editorial criticou esse viés reducionista que a cultura pop se apropria para vender uma imagem “exótica” da Ásia . A autora do texto Noah Berlatsky apontou a falta de protagonistas orientais e que toda uma cultura é utilizada apenas como depósito de magias é um problema que assombra esses personagens – que apenas “usam e descartam” o local. Um exemplo para mostrar essa discrepância são os “ Power Rangers ” que, ao invés de se apoiarem no misticismo, focam em aspectos urbanos e tecnológicos do Japão.

Onde estão os personagens orientais?

Poderosa e temida, Lady Shiva ainda não tem destaque nem espaço merecido nas histórias
Reprodução/DC Comics
Poderosa e temida, Lady Shiva ainda não tem destaque nem espaço merecido nas histórias

Eles ainda são meio tímidos e somente os fãs mais fanáticos conhecem suas histórias, mas as editoras de quadrinhos estão começando a diversificar mais sua gama de super-heróis: os “ X-Men ” recentemente ganharam a adição de uma nova mutante, a afegã Sooraya, vinda diretamente do Oriente Médio. Quando o olhar amplia-se para China, Japão e Vietnã a variedade de heróis é ainda maior, porém quase todos são secundários ou não são reconhecidos, como, por exemplo, Lady Shiva , uma das assassinas mais temidas da DC Comics , mas que não passa de coadjuvante do Batman. Será que está na hora de investir menos em personagens como o Punho de Ferro e começar a descobrir a real face da cultura oriental ?