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A conexão entre o Brasil e a América Latina está cada vez mais evidente com os hits que emplacam nas rádios. Mas, o que está por trás dessas parcerias?

Nos últimos anos, diversos artistas populares brasileiros despontaram na mídia fazendo conexões internacionais com artistas vizinhos ou com um idioma muito próximo do português, o espanhol. Luan Santana estourou nas rádios com sua parceria com Enrique Iglesias e os cubanos Gente de Zona e Descemer Bueno no hit Bailando , que chegou até a ser trilha sonora de novela; o sertanejo de Lucas Lucco flertou com reggaeton da Colômbia ao trazer Maluma para participação especial na música Princesinha ; e Anitta presenteou os fãs com dois hits do gênero, Sim ou Não  ao lado do colombiano e Ginza  com o icônico J Balvin.

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Reprodução
"Sim ou Não" é parceria de Anitta com Maluma e foi um grande hit de 2016



Apesar de estar entrando em evidência atualmente, a parceria entre artistas brasileiros e latinos não é uma prática nova. Para Marcelo Costa, crítico e editor do site musical Scream & Yell , esse cenário é algo que ocorre há bastante tempo. “O mercado brasileiro é bastante representativo para o artista latino. Com raríssimas exceções, o artista latino não consegue entrar no mercado brasileiro, então é uma das maneiras de tentar apresentar estes artistas para o público brasileiro e vice-versa, ainda que os artistas brasileiros sejam muito mais reconhecidos na América Latina como um todo”, afirma o jornalista.

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Esse reconhecimento dos brasileiros mundo afora rende muitas oportunidades para quem faz música no Brasil, como foi o caso de Paula Fernandes com o espanhol Pablo Lopez. “Disseram que ele conhecia meu trabalho e eu fiquei super sem jeito, pois não conhecia nada dele. Ele cantarolou Não Precisa , do Victor e Leo, e vi então que ele estava bem inteirado”, afirmou a cantora em entrevista ao iG .  “Entrei em contato com o presidente da Universal América Latina, e o Pablo mesmo, quando conversamos, já tinha sugerido fazer uma parceria de uma música minha em espanhol. Só não imaginava que ia acontecer tão rápido. Ele me mandou um áudio cantando a minha música A Paz Desse Amor e eu chorei, fiquei emocionadíssima”, completou a cantora. Os dois se encontraram recentemente no Brasil para gravar o clipe da música Dos Palabras , parceria entre os artistas.


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Derrubando muros

O desconhecimento de Paula Fernandes a respeito do trabalho do espanhol Pablo Lopez pode ser explicado por uma tendência cultural e mercadológica brasileira quando o assunto é cultura. Como explica o crítico musical Marcelo Costa, os brasileiros foram acostumados a se distanciar da cultura latina, embora também sejam produtores neste cenário. “No auge do mercado fonográfico brasileiro, nos anos 1970 e 1980, as gravadoras trabalharam muito massivamente artistas estrangeiros. Então Fito Páez [cantor argentino] nos anos 1980 não teve o mesmo trabalho de divulgação que o U2 tinha. Talvez o brasileiro não entenda inglês e não entenda espanhol, mas ouve mais música anglo-saxã porque tá acostumado a isso. Eu acho que foi um trabalho de rádios, foi uma estratégia de gravadoras de focar em determinados mercados que deixou outros de lado”, reflete.

Para Paula Fernandes, atualmente com a velocidade da informação há uma maior facilidade de entrar em contato com esses artistas que estão mais escondidos no Brasil. “A música não tem fronteira. Com a globalização e a internet, as pessoas estão se unindo, mostrando estilos consagrados de seu país a outros países”, revela a cantora.

Um denominador comum

Os estilos musicais que ganharam notoriedade no circuito comercial remetem a artistas de dois estilos muito populares no Brasil: o funk e o sertanejo. “O mercado do sertanejo e do funk no Brasil está um pouco saturado, não tem mais para onde ir. Então é natural que esses artistas, que já conquistaram praticamente tudo no Brasil pois estão em um nível de aparecer em grandes canais de televisão, em rádio, de ganhar prêmios - internacionais inclusive, estejam procurando novas fronteiras. É um método tradicional na indústria fonográfica”, explica Marcelo. “A busca por novas praças é uma maneira do artista se recriar”, completa.

Uma história de parceiros

Cena do clipe de Dos Palavras, parceria entre Paula Fernandes e Pablo López
Divulgação
Cena do clipe de Dos Palavras, parceria entre Paula Fernandes e Pablo López

Apesar do atual cenário, vários artistas da MBP, como Caetano Veloso e Gilberto Gil se consagraram no continente realizando turnês pela América e sendo reconhecidos pelo trabalho de anos.

Entretanto, para Marcelo, o Paralamas do Sucesso tem um histórico de conexão com a América Latina muito profunda. “O Paralamas talvez tenha sido a banda que mais desbravou a América Latina, estendendo turnês por todo o continente. Eles fizeram parceria com Fito Paéz, Charly Garcia, produziram músicas latinas como Trac Trac ...Foi uma maneira deles se recriarem e isso foi surtindo efeito, como o fato do Fito Paéz começar a aparecer no país, por exemplo”, relembra o jornalista. “A gente tem um contato muito complicado com essa música, tem artistas com Julieta Venegas que vão entrando no mercado brasileiro através da música brasileira. Então cada artista brasileiro que grava com um artista latino está ajudando a abaixar esse muro que existe entre a língua portuguesa brasileira e a língua latina”, completa.

 * Com reportagem de Jonathan Pereira

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