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Reportagem do iG assistiu aos sete primeiros episódios de "Luke Cage", personagem com pele impenetrável que reluta a se assumir como herói

A primeira cena de “Luke Cage”, série cujos 13 episódios da primeira temporada serão disponibilizados em todo o mundo nesta sexta-feira (30), é emblemática do que a nova produção da parceria entre Marvel e Netflix  objetiva ser enquanto produto cultural. Estamos em uma barbearia do Harlem, bairro negro de Nova York, e as figuras presentes fazem a tradicional resenha discutindo sobre os maiores nomes do basquete, um esporte de grande repercussão entre a população negra americana. Há menções ao filme “Scarface” e “um Dia de Cão”, excelentes thrillers urbanos ambientados no bairro e vemos ao fundo Luke Cage ( Mike Coulter ) varrendo o chão do salão.

Luke Cage tem a pele impenetrável. Personagem até faz piadinhas, mas no geral é um cara bem sério
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Luke Cage tem a pele impenetrável. Personagem até faz piadinhas, mas no geral é um cara bem sério

O iG assistiu aos sete primeiros episódios dessa temporada inicial de “Luke Cage” , personagem que já havia aparecido em “Jessica Jones”, lançada em novembro do ano passado. É seguro afirmar que a terceira série da parceria a ganhar vida – já tivemos duas temporadas de “Demolidor” e a referida primeira temporada de Jessica Jones – distingue-se de tudo o que já foi produzido até aqui.

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Se “Demolidor” é um drama urbano sobre vigilantismo e o conflito ensejado por este conceito com a noção de justiça do protagonista e “Jessica Jones” é uma história de detetive com ares de noir, “Luke Cage” é um thriller policial que evoca as melhores produções americanas dos anos 70.

Mike Colter trata seu personagem com desapego e o veste da relutância que caracteriza o registro dos super-heróis no mundo pós- Batman de Christopher Nolan. O tom taciturno aliado à estrutura de um filme de gangster fazem maravilhas pela série. Comandado por Cheo Hodari Cocker , o programa encampa a missão de ser a primeira produção pop estrelada por um super-herói negro a ganhar o mundo. Das músicas, parte fundamental e proeminente em todos os episódios, à cultura do Harlem e seus estigmas, a série transborda toda negritude que dela se espera e de um jeito bem cool.

 Trama climática

Cottonmouth, que não gosta de ser chamado por esse apelido das ruas, em seu clube: sofisticação e violência
Divulgação
Cottonmouth, que não gosta de ser chamado por esse apelido das ruas, em seu clube: sofisticação e violência

A série começa com o protagonista se dividindo em dois empregos, na barbearia de Pop (Frankie Faison), uma espécie de mentor para a rapaziada pobre do bairro, e no clube de Cottonmouth (Mahershala Ali, de “House of Cards”), um gangster que tenta expandir seu império no bairro com a ajuda da prima Mariah (Alfre Woodard), vereadora em campanha de reeleição.

A bifurcação entre o crime e a política, pela espiral da corrupção, agrega uma atualidade visceral à série. Há, ainda, o flanco da corrupção policial, é claro, já aventada nas outras séries, mas aqui há mais sustância no arco representado por Misty Knight (Simone Missick) e Scarfe (Frank Whaley).

O ritmo é outro atrativo da série. Cocker está sempre empurrando o programa para fora do lugar-comum. Seja com a inesperada morte de personagens importantes ou com reviravoltas muito bem fundamentadas pelo roteiro.

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Entre o rap e o jazz

A música ocupa grande e importante espaço no show. Algo que já podia ser intuído pelo fato dos 13 episódios deste primeiro ano serem batizados com o nome de canções da dupla de rap Gang Starr . Do soul a jazz, passando por diversos nichos do hip hop, a música negra é uma força confluente na narrativa de “Luke Cage”.  Algo que ajuda a tornar a série ainda mais singular dentro da ramificação das produções audiovisuais com o selo Marvel. Há cenas que ganham contornos extraordinários em virtude da música. A paixão de Cottonmouth pela música legitima um recurso interessantíssimo que é colocar alguns (bons) cantores no programa. Trata-se dessa sutil elaboração da cultura negra tão intrínseca à essência do programa.


 Confira os nomes dos 13 episódios  

1."Moment of Truth"

2."Code of the Streets"

3."Who's Gonna Take the Weight?"

4."Step in the Arena"

5."Just to Geat a Rep"

6."Suckas Need Bodyguards"

7."Manifest"

8."Blowin' Up the Spot"

9."DWYCK"

10."Take it Personal"

11."Now You're Mine"

12."Soliloquy of Chaos"

13."You Know My Steez"

 Sonia Braga

O público brasileiro é agraciado com uma grata surpresa a partir do 5º episódio do programa. O retorno da personagem de Rosario Dowson, Claire, único elo até agora entre todas as séries Marvel/Netflix, apresenta Sonia Braga como sua mãe, Soledad. Braga tem poucas cenas na série, mas sua participação em uma série tão aguardada no mesmo ano do festejado “Aquarius” tem potencial de fazer maravilhas pela carreira da veterana atriz.

Never bring a gun to a Cage fight. #LukeCage #Netflix #Marvel

Um vídeo publicado por Luke Cage (@marvelslukecage) em

Let's see how bad he wants to wear the crown. #LukeCage #Netflix #Marvel

Uma foto publicada por Luke Cage (@marvelslukecage) em


Potência dramática

Não é o caso de dizer qual série é melhor do que qual, mas é realmente elogiável o fato da parceria entre Marvel e Netflix conseguir imprimir estilo, ritmo e estrutura diferentes para cada uma de suas crias. “Luke Cage” é mais visceral e dramática do que suas antecessoras e conta com uma sofisticação narrativa, nas referências múltiplas à cultura negra, que inexistiam em “Jessica Jones” e “Demolidor”. 

O grande legado de “Luke Cage” talvez seja ratificar a potência dramática do material que a parceria entre Marvel e Netflix dispõe. Com a devida curadoria e investimento, talvez nem mesmo o céu seja limite.