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"Cativeiro sem Fim", do jornalista investigativo Eduardo Reina, joga luz sobre período obscuro do Brasil cuja memória vive questionamentos inesperados

O tema Ditadura Militar nunca esteve tão em alta como nos últimos anos. Em meio ao debate social e político instaurado sobre se a ditatura existiu ou não no Brasil, o livro “Cativeiro sem fim” (Alameda Casa Editorial) do autor Eduardo Reina chega para acalorar ainda mais os ânimos.  

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Imagem da época da Ditadura no Brasil
Arquivo Brasil Nunca Mais
ditadura

A Ditadura civil-militar brasileira (1964 – 1985) foi um período cercado por histórias sombrias sobre torturas, perseguições e desaparecimentos de pessoas contrárias ao regime. E muitos desses casos nunca foram provados, ou esclarecidos, o que deixa uma brecha para se questionar se realmente existiram.

Se não bastasse a denúncia de um crime bárbaro como o sequestro, Eduardo Reina , jornalista investigativo, traz em seu livro 19 histórias de bebês, crianças e adolescentes que foram raptados durante a ditadura com a ajuda de militares, servidores públicos, funcionários de instituições e de cartórios. Desses 19 casos, 11 estão ligados diretamente à Guerrilha do Araguaia e outras oito no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Paraná e no Mato Grosso.

Imagem do livro Cativeiro sem Fim
Reprodução
Cópia da reservista falsificada que Exército fez para José Vieira

Um dos personagens foi José Vieira, filho de um camponês da região do Araguaia, chamado Luís Vieira, que apoiava os guerrilheiros, e acabou sendo assassinado pelas forças armadas. Inicialmente José foi levado para o quartel general do exército em Belém do Pará e quando foi transferido de quartel, os militares falsificaram seu certificado de reservista para que ele tivesse idade para servir as forças armadas.

Atualmente, José Vieira vive na mesma cidade em que a missionária Dorothy Stang (missionária norte-americana famosa por defender grupos extrativistas) foi assassinada em 2005.  Além de relatar todo o sequestro que sofreu, Vieira fala sobre outros 5 sequestros e diz ainda que recebeu um diploma de Honra ao Mérito.

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Desde 2015 Reina percorreu mais de 20 mil quilômetros em busca das supostas vítimas e seus familiares, intensificou as pesquisas lendo livros escritos por militares, jornalistas, pesquisadores e personagens envolvidos com a ditadura, procurou as forças armadas brasileiras, pesquisou em canais oficiais do governo, além de realizar algumas dezenas de entrevistas.

A narrativa do encontro com esses personagens, a forma com que relatam suas lembranças são perturbadoras a quem lê, e ter isso registrado em livro, com provas, documentos, entrevistas das próprias vítimas, fica difícil questionar a veracidade de tudo isso. Inclusive tiveram casos, pasmem, que o sequestro ocorreu por engano!

Imagem do livro Cativeiro sem Fim
Reprodução
Certidão de Nascimento de Juracy

Juraci, por exemplo, foi sequestrado aos 8 anos por engano na região do Araguaia. Os militares achavam que ele era o filho do Osvaldão, um dos líderes da guerrilha da região. Mas a única coincidência ente Juraci e o verdadeiro filho do Osvaldo era o primeiro nome da mãe deles e cor dos olhos.

Juraci foi levado para Fortaleza e adotado por um Tenente do exército, mas ao registrar a criança cometeram um “pequeno” equívoco e o registraram com o nome da mãe biológica, o que facilitou provar o sequestro.

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“Cativeiro sem fim” é um importante livro em tempos de questionamento sobre o que aconteceu no período da Ditadura no Brasil. Com uma profunda pesquisa, a obra é resultado de uma parceria entre o autor e o Instituto Vladimir Herzog, que recebe o nome do jornalista assassinado em 1975 por agentes do Estado. Quem assina o prefácio é o renomado jornalista Caco Barcellos.