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"Branca como a Neve", novo longa-metragem de Anne Fontaine, se apropria dos arquétipos da fábula e os subverte em um filme muito charmoso

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Divulgação/A2 Filmes
Lou de Laâge e Isabelle Huppert em cena de Branca como a Neve, que estreia nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e outras capitais

O feminino está no centro do cinema de Anne Fontaine, que sempre confrontou o desejo da mulher com a percepção social dele. Filmes como “Nathalie X” (2003), “A Garota de Mônaco” (2008) e “Amor Sem Pecado” (2013) se enveredam por esse caminho, enquanto que o feminismo mais cristalino é divagado em produções como “Coco Antes de Chanel” (2009) e “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” (2014). “Branca como a Neve” é, de uma forma dramaticamente sofisticada, ainda que narrativamente simples, a síntese dessa obra.

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“Branca como a Neve” dispensa um olhar moderno à fábula da Branca de Neve, mas com uma bússola muitíssimo bem definida. Claire (a espetacular Lou de Laâge, que já havia trabalhado com a cineasta em “Agnus Dei”) desperta o ciúme em sua madrasta, vivida com a acertada cota de desprezo pela sempre inebriante Isabelle Huppert , que percebe seu amante perdidamente apaixonado pela enteada. Ela então encomenda seu assassinato.

À medida que avança, o novo filme de Anne Fontaine vai estabelecendo paralelos, uns mais sutis que os outros, com Branca de Neve, mas a figura dos sete anões aqui e o salvamento que perpetram de Branca de Neve são subversivos. Fontaine adentra os arquétipos e imagina a descoberta sexual da personagem como um caminho para a real liberdade e felicidade. O empoderamento vem em camadas.

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Divulgação/A2 Filmes
Branca como a Neve subverte os arquétipos do popular conto de fadas

É uma mensagem deverás poderosa e encampada com muita criatividade e sensualidade pelo filme, que tem no erotismo incontido de Laâge em oposição à rigidez frígida de Huppert um de seus maiores trunfos.

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“Branca como a Neve” aborda à sexualidade feminina com gosto e sem freios e pode ser tido até como sensacionalista nessa abordagem, mas essa análise é viciada. Fontaine redesenha arquétipos desenvolvidos sob um olhar masculino e se apropria desses códigos para arejar uma obra que sempre perseguiu um olhar mais plural e complexo sobre o feminino.