Nando Reis relata batalha contra álcool e cocaína: 'Comecei aos 13'
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Nando Reis relata batalha contra álcool e cocaína: 'Comecei aos 13'

A reunião com os integrantes do Titãs traz um sentimento especial para cantor Nando Reis. Em relato publicado, o artista detalha minuciosamente a batalha contra o vício em drogas e álcool. Sóbrio há quase 7 anos, ele revela que a dependência quase destruiu a amizade com os integrantes do Titãs, o casamento e relação com os filhos.

Publicado na Revista Piauí nesta sexta-feira (28), Nando Reis escreve abertamente a trajetória que o levou a ser viciado em álcool e cocaína.

"Comecei a beber aos 13 anos de idade e só parei aos 53. Foram décadas de consumo pesado e, com o passar do tempo, associado à cocaína. Estou há quase sete anos sóbrio, mas não deixei de ser alcoólatra: consigo sentir a compulsão dentro de mim", entrega.

Nascido em uma família abastada da capital paulistana, Nando Reis teve a primeira interação com o álcool dentro de casa. "Tenho a lembrança de ver meu pai tomando uísque, um cowboyzinho, antes de sair para jantar com a minha mãe. Eu achava aquilo bonito e elegante. Morávamos no Butantã e, aos 13 anos, ia com minha mãe comprar pão, queijo camembert e uma garrafa de vinho na Praça Panamericana. Tomávamos um aperitivo no fim da tarde com a minha avó. Até então, o álcool estava vinculado apenas a momentos de comunhão, prazer e alegria"

Na adolescência, durante viagens com amigos para a casa de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, Nando Reis teve experiências mais fortes com o consumo alcoólico, ele lembra ter ficado completamente embriagado a ponto de darem banho nele.

Aos 19 anos, quando fundou a banda Titãs o álcool já era uma presença consolidada no meio. "Gostava de ficar bêbado, a embriaguez era um estado que me agradava".

O cantor relata também ter experimentado maconha pela primeira vez aos 11 anos. "Fumei dos 15 aos 19 até que comecei a ficar paranoico e tive que parar", confessa.

Atualmente, o cantor tem noção de que o consumo alcoólico ultrapassava os âmbitos sociais. "Cometi o erro primário de vincular a bebida ao meu processo de criação artística. Na minha cabeça, o álcool estava associado à minha atuação como músico e compositor, então era indistinto para mim beber durante a semana ou no final de semana. Eu bebia sempre".

Cocaína

Aos 27 anos, Nando Reis foi apresentado à cocaína. A droga sintética, em pouco tempo, faria com que ele desenvolvesse uma dependência. "Eu não me importava de ficar bêbado e cheirado, ao contrário: achava graça nisso. Me divertia sendo o mais doido, o que cheirava a maior carreira, o que bebia todas. Me tornei a figura folclórica, o cara que virava cinco noites sem dormir e fazia shows nesse estado". 

A dependência cruzada em álcool e cocaína fez com que o abuso das duas substâncias virasse rotina. 

Lúcido atualmente, Nando Reis aponta que o efeito da droga e da bebida camuflavam a insegurança e a timidez, sentimento e característica rejeitados pela indústria musical.

"O estímulo advindo da ingestão de álcool e do consumo de drogas me levava a pegar o violão e compor. Virava a noite com o violão, uma garrafa de vodca ou de uísque, papel, caneta e cocaína. Eu bebia, cheirava, me sentia culpado por isso e falava: “Tudo bem, eu cheirei, mas agora, para compensar, tenho que fazer uma música".

Declínio e fundo do poço

Já com alguns anos entre os famosos, Nando Reis admite que ficou deslumbrado com o sucesso. Foi a carreira artística que também culminou no fim de seu casamento com Vânia, com quem ele está, entre idas e vindas, desde os 15 anos. 

"A separação ocorreu após um período de profunda dor e tristeza. Eu havia sofrido dois golpes duríssimos: a morte do Marcelo Fromer em junho de 2001 e a da Cássia Eller, seis meses depois. A forma como a minha vida estava estruturada do ponto de vista profissional sofreu uma alteração drástica com esses acontecimentos", relata.

Marcelo era o elo que unia Nando Reis ao Titãs, naquela época em que ela já estava tendo problemas com a banda e com os vícios. Cássia Eller estava sendo a companhia de ouro do cantor, o alavancando para a carreira solo.

Ao deixar a família para ir morar sozinho, o álcool e a droga tiveram ainda mais espaço na rotina. O vício começou a afetar o desempenho nos palcos."Na carreira que escolhi, não adianta só fazer composições bacanas no quarto de hotel, eu me propus a me apresentar em público. Fiz coisas horrorosas, como cantar completamente embriagado e cair no palco".

A vida familiar piorou e a relação com os filhos ficou afetada pela ausência da responsabilidade paterna. "Muitas vezes eu estava fisicamente com eles, mas completamente distante ao mesmo tempo. Eles iam para a minha casa e eu os deixava vendo televisão com a babá enquanto ficava no quarto cheirando. Fui irresponsável e os expus a riscos. Tenho a sorte de não ter matado ninguém nem sofrido nenhum acidente grave porque eu dirigia bêbado com eles no banco de trás".

Para o cantor, o fundo do poço foi em 2016, quando o abuso com o álcool chegou ao ponto de causar pensamento suicidas. Nando Reis revela que percebeu o nível do vício ao acordar do sono devido à compulsão por bebidas.

"Não tinha a menor condição de subir no palco e cumprir meus compromissos. Pensei: 'Fudeu, vou me matar'", relembra, contando que realmente planejou a própria morte. "Não tive coragem de ir até o fim", adiciona.

A partir de 2016, Nando Reis procurou ajuda da ex-mulher e de familiares para se tratar da compulsão. O cantor entrou para o grupo de Alcoólatras Anônimos, onde segue desde então.

Neste ano, Nando Reis e os integrantes do Titãs se reuniram para uma turnê comemorativa. "Reencontrar meus amigos para uma turnê agora, após quase sete anos limpo, é uma experiência inédita e significativa. Esse processo da recuperação da sobriedade e, consequentemente, da lucidez é uma espécie de despertar para mim".

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