Juan Paiva comemora compra de casa
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Juan Paiva comemora compra de casa

É tarde de uma sexta-feira, e Juan Paiva desce o agitado Morro do Vidigal, onde mora, pilotando sua moto Honda Biz, de capacete e usando chinelo, bermuda e camiseta branca. O ator carrega uma mochila com um tênis e camisa, que seria uma outra opção de roupa para usar na foto desta reportagem. À sua espera estão repórter, fotógrafo e dois assessores de imprensa que ele acabou de contratar para cuidar de suas demandas profissionais, que são muitas desde que ganhou os holofotes ao interpretar o elogiado Ravi de “Um lugar ao sol”.

Após algumas fotos na comunidade onde nasceu e foi criado, ele sugere posar também na Praia do Leblon, ali embaixo, e um dos lugares que ele gosta de frequentar quando não está gravando. É lá, de costas para o Vidigal, que o ator reflete sobre onde chegou e todo o caminho que percorreu até o sucesso. “Acho que nunca vou estar preparado. Vou vivendo um dia de cada vez, mas estou muito feliz com a novela e toda essa repercussão”, diz, aos 23 anos.

“Tento manter o meu pé no chão, e isso vem da minha essência, do Vidigal. Lá não existe um deslumbramento e todo mundo sabe da realidade, de como a vida é corrida... Isso parte, também, muito da minha família, que me cobrou ter humildade e simplicidade. Se um dia eu voar demais, a minha cabeça for para um lugar muito distante da minha realidade, com certeza eles vão me cobrar”, completa.

Juan chegou ao horário nobre após batalhar bastante pelo seu lugar ao sol. Iniciou na carreira de ator aos 8 anos, fazendo parte do famoso “Nós do Morro”, grupo de teatro da sua comunidade que revelou talentos como Thiago Martins, Babu Santana, Roberta Rodrigues e tantos outros.

Reforma na casa dos pais

O ator já carrega no currículo duas novelas de sucesso, “Malhação, viva a diferença” e “Totalmente demais”, quatro filmes (sendo um deles “5 x Favela”, em que atuou como um dos protagonistas com 10 anos de idade), uma ida ao Festival de Cannes, na França (sua primeira viagem internacional por conta da sua atuação em “Sem seu sangue”), e muitas realizações pessoais: foi pai aos 16 anos, ajudou a família e conseguiu comprar sua tão sonhada casa própria, para onde vai se mudar em breve, ali mesmo no Vidigal.

"Comprei uma casa do lado da da minha mãe. Ainda não é a casa dos meus sonhos, mas é uma casa que consigo dar um conforto para minha filha e esposa. Não tem piscina, mas vai ter chuveirão para um churrasco e vista para São Conrado”, comemora ele, revelando que não pensa em deixar o morro: “Sempre me perguntei por que eu nunca quis sair do Vidigal. Me sinto muito à vontade lá. Aqui (aponta para o Leblon), é bonito, mas não é muito a minha vibe. Talvez um dia, quando estiver mais velho e queira uma tranquilidade, eu pense em sair”.

Mais velho dos três filhos do garçom Celso e da doméstica Jacira, Juan conseguiu também realizar um dos maiores sonhos dos pais: “Com o dinheiro da novela ‘Totalmente demais’, reformei a casa da minha mãe. Sonhava comprar minha moto, mas, com o meu planejamento, veio primeiro a reforma da casa dos meus pais, depois, minha casa, e, por último, a minha moto”.

Pai aos 16 anos

Antes de concluir o ensino médio em uma escola público do Leblon, o ator estudou numa escola particular na própria comunidade graças ao padrinho, que pagava as mensalidades. É lá onde a filha de Juan, Analice, de 7 anos, estuda. “Hoje eu posso pagar”, festeja Juan, refletindo sobre o mundo ideal que gostaria para a menina no futuro:

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"Desejo que ela seja uma pessoa forte, poque ela tem toda uma questão de ser mulher, favelada e preta. Quero que ela me veja como uma referência positiva, uma pessoa que ela se orgulhe de verdade. E sempre que ela tiver momentos de fragilidade, ela possa olhar uma foto minha e da mãe dela e pense que a vida é mais que aquilo. Infelizmente, sei que ela ainda vai passar por muito preconceito. Todo o pai sonha que o mundo seja melhor para o seu filho".

A menina é fruto do relacionamento com a recepcionista Luana Souza, com quem o ator possui união estável há oito anos. Os dois foram pais muito cedo. “No início, claro, é desesperador. Mas, mesmo novos, a gente falou: ‘vamos encarar sem fugir do problema’. Aluguei uma casa e fomos morar juntos”, lembra.

Da infância humilde na favela, ele guarda na memória os momentos de lazer, como jogar bola e brincar de pique-esconde nos becos do morro, e lembra bem dos cuidados que a mãe tinha para criá-lo.

“Mesmo sem recurso, meus pais sempre me apoiaram e acreditaram em mim. Onde eu morava, sofria muito de asma e bronquite, porque minha casa não tinha uma estrutura boa, e isso me motivou a querer melhorar de vida. Nunca tive vergonha de onde moro. Pelo contrário, é necessário nascerem artistas ou alguém que ascenda e mostre que a favela não é só violência”.

Juan se orgulha de ser uma representação também para si mesmo por retratar na TV a realidade do “negro, favelado e de família humilde”. Apesar das coincidências, ele diz que é bem diferente do personagem Ravi: “Me identifico com a sensibilidade dele. Também sou sensível. Injustiças, por exemplo, me fazem chorar”.

A sensibilidade aflora também quando ele começa enumerar os momentos mais felizes da sua vida e recorda os mais simples e especiais vividos ao lado dos pais:

“Sou feliz com todas as minhas conquistas, mas o que me deixa mais realizado é proporcionar aos meus pais o que eles não tiveram. Lembro da primeira vez que levei minha mãe ao Outback (restaurante), ou presentei meu pai com uma camisa do Botafogo”, conta, com os olhos cheios de lágrimas: "Isso, sim, me deixa sensível e feliz pra caramba".

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