Sem perder o bom humor, o veterano, que é a história viva da TV no Brasil, fala sobre oportunidades de trabalho na Globo e no cinema e estilo de vida solitário em um sítio de São Paulo

Muitos não sabem, mas Lima Duarte estava na exibição do primeiro programa de televisão da América Latina. "Foi em 1950, no dia 18 de setembro, na Tupi de São Paulo. No estúdio tinha umas 28 pessoas para a inauguração. Eu sou o único vivo", contou ele ao iG durante o lançamento de seu mais novo trabalho na telinha, o telefilme “Didi e o Segredo dos Anjos”, no ar na Globo dia 21 de dezembro.

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Um pouco de conta básica é suficiente para ver que Lima é a história viva da TV no País. Ele tem 43 anos de Globo e faz questão de se manter fiel ao que o fez ator: o homem do campo. Ele mesmo é de origem rural. Foi do interior de Minas Gerais, onde nasceu, para a capital paulista em um caminhão de manga, e fez da vida seu processo.

Neste ano, Lima, que hoje está com 85 anos, chegou a declarar em entrevista seu descontentamento com a emissora carioca e a falta de convites bons para as novelas. A verdade é que, agora, ele aponta o dedo para o que quer. E o faz como quer. “Assim tenho procurado proceder hoje. Faço o que quiser fazer, o que me der prazer. O que eu quiser fazer não será nunca uma besteira. A gente está cansado de ver nas novelas o dia inteiro. Será uma coisa elaborada com profundidade e com brasilidade”, disse.

No telefilme especial para o fim de ano, Lima vive um caboclo metido a sábio e diz que usou o Alzheimer como objeto de estudo para criar a personalidade deste homem. Se divertiu gravando o “híbrido”, como chamou, entre cinema e TV. “Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”, falou. Mas ficou satisfeito com o clipe que assistiu no lançamento do projeto. O convite, ele diz, surgiu de forma engraçada. “Tudo comigo é uma grande história (risos). Se não for, eu faço ficar”, brincou. Quer ver? É só acompanhar a conversa abaixo:

iG: Você é um homem da TV?
Lima Duarte: Do campo (risos). Eu sou, na elite dos atores brasileiros, se você me permite a modéstia, o único de formação rural. Eu conheço atores que são advogados, médicos… Até dentista eu já conheci. Mas nenhum é caboclo que virou ator. E eu tenho trabalhado muito para permanecer fiel ao que me gerou. É para mostrar que não é um idiota, é alguém que sabe, que lê, que aprende, que estuda. E que pode ser, inclusive, um velho companheiro, um pai, um tio, um avô, ou um velho contador de história. É isso. Fui claro? Não muito, né? Mas tudo bem (risos).

iG: Você está com quantos anos de profissão?
Lima Duarte : Eu fiz o primeiro programa de televisão na América Latina, em 1950, no dia 18 de setembro, na Tupi de São Paulo. No estúdio tinham umas 28 pessoas para a inauguração. Eu sou o único vivo.

iG: E como surgiu o convite para participar desse telefilme?
Lima Duarte : Ah, isso aqui… Você sabe, tudo comigo é uma grande história (risos). Se não for, eu faço ficar. E o Boni é muito meu amigo. Muito, muito. Eu admiro demais o Boni, ele que me trouxe para a Globo. E quando foi Carnaval, ele foi convidado para ser samba-enredo (da Beija-Flor). Ele me chamou (para desfilar no carro de amigos). Pensei: ‘putz, eu não tenho nada a ver com Carnaval’. Mas eu não digo não ao Boni e não direi nunca. Quando cheguei lá, como é aquela sala cheia de champanhe que a gente fica?

Eu falei para o Renato: 'é isso mesmo, passou. Até a Xuxa eles mandaram embora, não serve mais, né? Imagina nós! Já acabamos'.

iG: O camarote?
Lima Duarte: Ah, o camarote. Tinha umas 360 garrafas de champanhe. Eu sou um caboclo, fiquei achando que era tudo cenográfico (risos). E não podia beber, porque ia desfilar 6h da manhã e se bebesse ia cair do carro. Nem a champanhe eu aproveitei (risos). Estavam sentados comigo Tarcísio Meira , Moacyr Franco , eu e o Renato Aragão . Com aquela festa toda, nós ficamos muito amargos, pensando ‘poxa, não pertencemos mais a esse universo, eu tenho 85 anos, o que estou fazendo aqui?’. O Renato era o mais amargo de todos. Daí eu falei 'para com isso, nosso tempo passou, virão outros por aí'. Somos atores, e ator não acaba nunca. Morre em cena, sendo o mundo o que é para nós, um grande teatro. Eu falei para o Renato: 'é isso mesmo, passou. Até a Xuxa eles mandaram embora, não serve mais, né? Imagina nós! Já acabamos'.

iG: Você acha que já acabou mesmo?
Lima Duarte : Ah, para eles, o comércio, para o espetáculo de hoje. O espetáculo de hoje é uma coisa tão estranha, né? Mas para mim, terá lugar sempre enquanto eu permanecer fiel ao caboclo que virou ator.

iG: E o Renato falou o quê?
Lima Duarte : Eu estava falando para eles ‘para com isso, nós vamos fazer outras coisas’. Daí, na semana seguinte, o Renato ficou doente e eu pensei ‘puta merda, matei o Renato. Lá atrás, o Cassiano Gabus Mendes , diretor da primeira televisão, um dia me chamou e disse: ‘essa baianada sabe fazer programa de humor, hein?! Vai para o Norte/Nordeste e contrata tudo que você achar de engraçado’. Pois, eu fiquei sabendo de um tal de Renato Aragão e fui para Fortaleza contratá-lo. Ele ficou no Rio trabalhando na Tupi e eu me tornei responsável por ele. Quando aconteceu isso (o problema cardíaco do Renato), pensei: ‘que sacanagem com o Renato, por que é que eu falo tanto? Por que sou tão idiota? Deixa a verdade para lá, finge que está tudo lindo’. Aí me convidaram para esse especial e eu aceitei. Vim trabalhar, vim falar para o Renato ‘viu, óh nós aqui trabalhando’. Por isso que estou participando dessa aventura que resulta interessante, me parece. É bem bonita.

iG: Durante a coletiva, quando o Renato estava falando das crianças do elenco que “estão começando”, você falou baixinho para o Dedé Santana “e nós que estamos acabando”. Por quê?
Lima Duarte: Está na hora, né? Já falei muito, já fiz muita coisa. Mas “no hard feelings”, entendeu? Tudo bem. Isso que eu acho legal comigo. Eu me coloco à disposição assim: eu procuro personagens em que atores são seus processos. O meu processo é baseado no caboclo que eu fui, no meu pai, no meu avô, no meu tio. Eu sou retirante, cheguei em São Paulo num caminhão de manga. De manga! O meu processo é baseado nisso e vivo criando personagens assim.

iG: Você, então, escuta os convites que te fazem para novelas?
Lima Duarte: Eles querem que eu faça novela. Eu vou e ouço. E penso ‘esse personagem aí eu vou transformar nesse que tenho aqui’ (risos). E vou entortando, entortando, entortando e acaba sendo o que eu quero. Foi assim com Zeca Diabo (“O Bem Amado”), Sinhozinho Malta (“Roque Santeiro”), Sassá Mutema (“O Salvador da Pátria”), Sargento Getúlio (filme de 1983)... Assim tenho procurado proceder hoje. Faço o que quiser fazer, o que me der prazer. O que eu quiser fazer não será nunca uma besteira. A gente está cansado de ver nas novelas o dia inteiro. Será uma coisa elaborada com profundidade e com brasilidade.

iG: Esse ano você teve convites para novelas?
Lima Duarte : Tive dois. Um para fazer ‘Meu Pedacinho de Chão’, mas aí teve um problema meio escabroso lá e eu saí fora (o personagem de Lima ficou com Osmar Prado). E ‘Boogie Oogie’. Éramos eu e a Porcina. Era para brincar um pouquinho com Sinhozinho Malta velho. Mas aí a Regina ( Duarte ) não quis fazer, então também saí.

iG: Mas o cinema tem te chamado bastante, né?
Lima Duarte : Ah, tem. Tenho sempre filme para lançar (rodou recentemente “O Crime da Cabra”), e ainda tenho uns cinco para ver se faço ou não.

iG: Então não está acabando mesmo, Lima.
Lima Duarte : Não. Mas não podia perder a piada, né? Todo mundo está pensando isso mesmo. ‘Esse velho está aí ainda?’ (risos).

iG: A idade não é problema na profissão?
Lima Duarte : Ao contrário. Tem pouco velho que está em pé ainda, né? Eu estou (risos). 

iG: Você continua contratado da Globo? Até quando?
Lima Duarte : Continuo. Sou funcionário, não sei mais como é meu regime com a Globo.

iG: E você mora aonde?
Lima Duarte: Num sítio, no interior de São Paulo. É em Indaiatuba, perto de Campinas. Eu adoro viver sozinho. Todo mundo diz que estou bem para 85 anos. Eu não fumo, não bebo, não cheiro cocaína, não fumo maconha, não como carne vermelha e fico so-zi-nho num sítio. Eu gosto de conviver comigo mesmo, com minhas memórias, com minha proposta de vida, com meus propósitos. E, de quebra, meus cães e meus cavalos. Fiz até um cineminha, com oito lugares nomeados. Tem a poltrona José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, poltrona Cassiano Gabus Mendes...

iG: Não dá medo ficar sozinho?
Lima Duarte : Nenhum! Que isso, é um prazer! Já estou querendo que isso aqui (a entrevista) acabe logo (risos). E como estou sozinho, se estou lá com minha mãe, meu pai, o meu processo?

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