O iG Gente atua no debate promovido pelo filme que está em circuito itinerante pelo Brasil e oferta duas críticas do documentário idealizado a partir do projeto do Think Olga. Uma com a perspectiva feminina, também publicada nesta quarta-feira (16), e essa com o olhar masculino

O cinema é um palco vivo e transformador para debates em curso na sociedade e não é à toa que movimentos como o #metoo e o Time´s up, ainda que desordenadamente, surjam e irradiem novas tendências a partir do universo do cinema. Mas fazer filmes também pode ser uma ferramenta valiosa de promoção de conscientização e reflexão e é essa a aposta das diretoras Amanda Kamancheck e Fernanda Frazão com o filme “Chega de Fiu Fiu”.

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Cena do documentário Chega de Fiu Fiu
Divulgação
Cena do documentário Chega de Fiu Fiu

Produzido e lançado de maneira independente, o longa deriva de um projeto nascido na ONG feminista Think Olga e se capitalizou por meio de uma campanha de arrecadação de fundos online. “Chega de Fiu Fiu” não esconde sua militância , nem deveria, mas não se assenta sobre ela. É um filme com ponto de vista, sim, mas cioso de apresentar uma reflexão tão necessária quanto multifacetada.

Frazão e Kamancheck elegem três mulheres que já sofreram diferentes e variados tipos de assédio, uma violência tão esmagadora quanto intransigente, para serem coautoras de seu filme. Oportunamente elas pensam o espaço público como um elemento de opressão à mulher, desde a ocupação ao planejamento e ensejam um raciocínio urbanístico para um problema social e cultural. É um viés pouco experimentado e que na razão das personagens, mas adensado por estatísticas frequentemente alarmantes, ganha relevo e conotação histórica.

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Fator humano

As diretoras Amanda_Kamanchek e Fernanda_Frazao
Divulgação
As diretoras Amanda_Kamanchek e Fernanda_Frazao

Mas um filme com a proposta de “Chega de Fiu Fiu” não poderia descolar-se do fator humano e isso não acontece. Analisadas, militantes e corajosas, as três personagens que oxigenam o filme contribuem para a confecção de um painel que se tange desolador, mas ao qual se observa com otimismo.

O filme abre com depoimentos esparsos de mulheres que jamais vemos os rostos, como tantas vítimas de assédio e violência sexual no Brasil. A ideia de problematizar a cultura do estupro não é nova e outros filmes de vieses feministas o fizeram com diferentes cotas de êxito, mas “Chega de Fiu Fiu” antes de ser cinema é um projeto que enxerga no cinema uma ferramenta valiosa para ampliar o debate e essa percepção está embrenhada na narrativa e na linguagem.

As opções estéticas de Frazão e Kamancheck corroboram essa análise. A ideia de apresentar uma transmulher capaz de expor e analisar sua experiência como homem e depois de ter transacionado logo no início já coloca o espectador em suspensão. Ao trazer um grupo de homens para confrontar a noção de assédio deles e delas, o filme desmonta expectativas e afigura sua vocação primária: promover um debate franco e conscientizador.

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“Chega de Fiu Fiu” é um filme inteligente na maneira como lida com suas limitações orçamentárias e com as limitações de um debate que ainda é pautado por muito preconceito, frustração e resistência.

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