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Projeto do Think Olga ganha formato audiovisual após dados alarmantes sobre o assédio sexual no espaço público brasileiro e o iG Gente falou com as mulheres responsáveis por ampliar esse debate com um documentário

Calçadas vazias, ruas mal iluminadas, mãos estranhas no transporte público e a sensação de ter o corpo vulnerável. Mesmo que seja direito da mulher ocupar o espaço público, essas são questões que ainda perpassam a sua vivência em sociedade. Em pesquisa realizada em 2014 para a campanha “Chega de Fiu Fiu” do Think Olga , 99,6% das mulheres afirmaram já terem sofrido assédio sexual .

Cena de Chega de Fiu Fiu, que ganhará circuito itinerante a partir desta terça-feira (15) pelo País
Divulgação
Cena de Chega de Fiu Fiu, que ganhará circuito itinerante a partir desta terça-feira (15) pelo País

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O dado alarmante, entretanto, não parou por aí.  81% das entrevistadas revelaram já terem deixado de realizar alguma atividade por medo de assédio nas ruas. Agora, as estatísticas ganharam rostos e histórias com o documentário “ Chega de Fiu Fiu ”, que está em tour de lançamento pelo Brasil trazendo à tona a questão.

“Nós começamos a falar de assédio de rua, essa questão do assovio e conseguimos colocar ele nesse ciclo da cultura do estupro. Como que a partir desse assédio a mulher é excluída da sociedade”, comenta a idealizadora do Think Olga, Juliana de Faria.

O projeto foi resultado de um financiamento coletivo que bateu um recorde na plataforma catarse: arrecadou R$ 20 mil em menos de 24 horas. Para a diretora Fernanda Frazão, que co-dirige o longa com a jornalista Amanda Kamanchek, o feito trouxe a tona uma necessidade de debate que ainda não estava tão em evidência.

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“A ideia inicial era fazer um curta, jamais esperaríamos essa resposta, mas sentimos uma necessidade”, conta a cineasta. Por conta dessa demanda em grande volume, as idealizadoras optaram por ir mais além. “A grana era curta, mas nos arriscamos em fazer um longa”, relembra a diretora.

O projeto havia começado quando Kamanchek e Frazão entraram em contato com os dados divulgados pelo Think Olga e resolveram adentrar na questão. “Na época eu trabalhava com a temática do direito à cidade e via que não tinha essa perspectiva de gênero tanto no âmbito global quanto nacional”, comenta Kamancheck.

Como ideia inicial, as duas documentaristas pensavam em registrar esses momentos em que a violência ocorre por meio de um óculos com micro câmeras. Mas, com o andamento do trabalho, o projeto acabou ganhando novos rumos.

Um problema nacional

Cena do documentário Chega de Fiu Fiu
Divulgação
Cena do documentário Chega de Fiu Fiu

“Chega de Fiu Fiu” nasceu então na forma documentário trazendo à tona as vozes de personagens e especialistas sobre o tema que se mostra ir além de qualquer fronteira. “Tínhamos um desafio de contemplar uma diversidade regional, de gênero, de classe social, de raça e de identidade”, explica Kamancheck.

As narrativas que tecem o documentário são expostas por Teresa, de São Paulo, Rosa de Cachoeira (BA) e Raquel, da região de Brasília. A preocupação das diretoras, por sua vez, era debater as políticas públicas com seus avanços e retrocessos e, tendo em mente que, de acordo com os dados a respeito da questão, as mulheres negras continuavam com os piores resultados.

Segundo o Dossiê Violência Contra as Mulheres publicado pela Agência Patrícia Galvão, das mulheres mortas por agressão, 68,8% são negras e entre 2003 e 2013 houve um aumento de homicídio contra negras de 54,2% enquanto de mulheres brancas teve uma queda de 9,8%.

Além disso, são elas também a maioria das vítimas de estupro no Estado do Rio de Janeiro, de acordo com levantamento estadual, representando 56,8% dos casos. “Para nós era fundamental a questão de gênero e raça no Brasil”, explica Kamancheck.

Revivendo a violência

Cena do documentário Chega de Fiu Fiu
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Cena do documentário Chega de Fiu Fiu

Abordar a temática, entretanto, não foi uma tarefa fácil. Ainda na época em que a campanha “Chega de Fiu Fiu” não tinha ganhado o seu formato audiovisual, Juliana de Faria chegou a sofrer ameaças online por parte de pessoas que não queriam colocar o tema em debate público.

Entretanto, não foi apenas no início do projeto que as mulheres tiveram que enfrentar agressões. “O filme retrata violências que a gente vive e a gente viveu as violências enquanto fazia o filme”, comenta Kamancheck.

Frazão, por sua vez, relembra que o teste que fez com o uso dos óculos com micro câmeras a fez enfrentar o assédio das ruas de uma forma diferente. “Sabemos como lidamos com isso, mas quando eu me coloquei no espaço público tentando pegar esses episódios consciente, eu comecei a perceber de outra forma”, relembra a diretora.

“A hora que eu estou ali, sem andar com cabeça baixada e na defensiva me mostrou como estamos vulneráveis neste espaço. É uma dificuldade íntima e dolorosa e acho que é comum a todo mundo”, completa.

Entretanto, observar o assédio sexual diante das câmeras fez com que novas ideias emergissem para as realizadoras. Segundo Kamancheck, foi uma oportunidade de entender melhor o que era o assédio, suas causas e as possibilidades de atuação diante do problema.

“Foi também uma oportunidade de cura para nós mulheres fazer esse filme e ver ele sendo exibido. Uma possibilidade de voltar a falar com meninas adolescentes para que elas também se conheçam e entendam desde cedo o que significa esse tipo de violência”, comenta a jornalista.

Por que falar sobre assédio com o "Chega de Fiu Fiu"?

As diretoras Amanda_Kamanchek e Fernanda_Frazao
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As diretoras Amanda_Kamanchek e Fernanda_Frazao

Apesar das dificuldades enfrentadas durante a execução do longa-metragem, as ativistas defendem a importância de se falar sobre o assunto.  “Somos comunicadoras, as plataformas que pudermos usar, nós vamos usar”, comenta Juliana de Faria sobre trazer o tema no formato audiovisual.

“O documentário é uma ferramenta de educação e vai ser muito acessível tanto por ser disponibilizado online quanto por trazer o tema de maneira palpável para uma conversa”, complementa a jornalista.

O pensamento vai ao encontro com o de Frazão, que defende que o lançamento do longa é uma forma de criar atalhos para assuntos mais complexos. “A linguagem do cinema possibilita que expliquemos e cutuquemos o pensamento, questionando o preconceito. O documentário é capaz de traduzir esses grandes conflitos no nível do sentir, então damos ao espectador a perspectiva através da emoção”, comenta a diretora

“As imagens contam muito, despertam sentimentos. Quando você vê uma rua escura, isso remete ao assédio. Foi uma preocupação nossa de poder explorar essa possibilidade estética no filme”, complementa Frazão.

Kamancheck, por sua vez, ressalta que o longa-metragem chega em um momento cujo debate sobre o assédio sexual ganha formato também no âmbito legislativo. No início de março, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 5452/2016 que, dentre outros aspectos, tipifica o assédio como um crime: o de importunação sexual.

Na atual legislação, a importunação sexual está relacionada à prática de ato libidinoso na presença de alguém sem sua concordância e é classificado com contravenção penal punindo apenas com multa. O projeto atualmente tramita no Senado e, se aprovado, pode trazer a reclusão como punição ao infrator.

“Ainda tem um debate a ser feito sobre a implementação das leis não só de resposta, mas uma mudança cultural de prevenção. Então nosso objetivo é ser uma ferramenta educativa”, comenta a jornalista.

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E os homens?

Quando questões sobre a vivência da mulher em sociedade emanam no debate público, é comum que se questione a posição dos homens diante dos problemas. A temática, inclusive, chegou a ser abordada no documentário “Chega de Fiu Fiu” por escolha das próprias diretoras.

“Até o ultimo momento não sabíamos como inseri-los nesse debate, pois estávamos com o pensamento de mulheres protagonistas e agentes das mudanças. Mas entendemos que a violência de gênero é uma violência relacional”, explica Kamancheck.

A diretora Amanda Kamanchek
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A diretora Amanda Kamanchek

No longa, o professor Rolf Malungo da Universidade Federal Fluminense é o responsável por mediar uma roda de conversa sobre a temática, abrindo um espaço de reflexão sobre a masculinidade com homens de diferentes vivências.

“Às vezes fica um pouco a responsabilidade de nós educarmos os homens, que são os próprios que violentam e isso pode ser até uma segunda violência. Como eu vou pedir para uma vítima de estupro educar estupradores?”, questiona de Faria. “Quem precisa educar os homens são os próprios homens”, complementa a jornalista.

Para Frazão, o documentário traz a temática de uma forma complexa exibindo as mais diversas camadas do tema da violência contra a mulher. “É uma linha enorme cheia de nuances e a gente tenta se localizar nesse problema. Conseguimos fazer isso com o recorte pouco explorado que é o do espaço público”, explica.

Chega de Fiu Fiu ” estreia em São Paulo na próxima terça-feira (15); em Cachoeira  na Bahia no próximo dia 20; em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Florianópolis no dia 22 e em Brasília no dia 27.

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