Mário Gomes: “A cenoura não me matou”

Em entrevista exclusiva ao iG, ator fala sobre a paixão que teve por Betty Faria e o boato que quase acaba com sua carreira.

Luisa Girão iG Rio de Janeiro |

Na década de 70, um jovem de olhos azuis surgiu na novela “Gabriela” e chamou a atenção da crítica e do público – principalmente das mulheres. O sucesso de seu personagem fez com que, em pouco tempo, o ator Mário Gomes fosse alçado ao posto de novo galã da TV Globo. Viveu a partir daí dias de glória. “Eles podiam fazer qualquer coisa comigo. Podia entrar até mudo que quem estivesse envolvido ia encher a burra de dinheiro. Pô, eu era um ídolo absoluto, um sucesso inacreditável”, afirma ele.

Selmy Yassuda
Mário Gomes

Prêmios, papéis centrais em novela no horário nobre e muitas mulheres aos seus pés. Tudo corria conforme o planejado. Até que um furacão – como o próprio ator descreve – entrou em sua vida. Em 1976, ele se envolveu com Betty Faria, sua companheira de elenco na novela “Duas Vidas”. Na época, a atriz era casada com um dos diretores da novela, Daniel Filho, a quem Mário Gomes só se refere como o “Salieri”, fazendo referência ao compositor italiano Antonio Salieri, suposto inimigo do gênio austríaco Mozart que teria dito a frase: “Eu Matei Mozart”. Foi a partir desse affair, segundo Mário Gomes, que sua vida teria mudado. “Até hoje me pergunto se fiz algo errado, mas não vejo como abrir mão de uma relação pura. Estava com a mulher porque estava a fim dela e ela de mim. Não tenho culpa”.

Um ano depois o ator foi alvo de um boato que o persegue até hoje: a notícia de que teria dado entrada em um hospital com uma cenoura no ânus. “A história da cenoura, bem ou mal, foi uma tentativa de assassinato. Mas ela não me matou. É como Nietzsche diz: ‘o que não mata, nos fortalece’”, afirmou o ator ao iG. Para Mário Gomes, desde seu envolvimento com Betty Faria, a TV Globo teria deixado que “Salieri” acabasse com a sua carreira. Sua demissão da emissora em 1984 teria ocorrido devido a alegações de mau comportamento, que ele nega: “Nunca faltei a uma gravação”. Desempregado, montou uma fábrica de jeans - a qual considera o maior erro da vida e pela qual até hoje responde a processos.

Acervo pessoal
Detalhe de matérias, críticas e prêmios da vida de Mário Gomes

Mário Gomes acabaria por retornar à TV Globo em 1988 e a partir deste ano, participou de várias novelas e minisséries durante 20 anos, até 2008, quando fez a novela “A Favorita”. Mesmo com todos estes anos trabalhados para a emissora, o ator ainda alega que foi perseguido e demonstra mágoa: “Eles me mantiveram da maneira mais indigna. Eu não podia fazer sucesso”. Hoje o ator faz parte do elenco da TV Record.

Essa e outras histórias serão contadas em uma biografia escrita pelo próprio, em parceria com o autor Romero da Costa Machado. Mário recebeu a reportagem do iG Gente, em sua casa na Joatinga, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde mora com sua mulher, a arquiteta Raquel Palma e seus filhos, João e Catarina, de cinco e dois anos. Leia abaixo os principais trechos da conversa:

SUCESSO: “A Globo cresceu na década de 70 e 80 também por minha causa. É o Neymar que faz o futebol. Não é o dono do time. Quem faz a diferença é o Neymar, o Pelé, o Alain Delon, a Julia Roberts, o Mário Gomes. É o carisma do ator. O autor vai escrever em cima das suas características. E é essa química que vai dar os 98 pontos de audiência”.

A PRIMEIRA NOVELA (1975): “O Walter Avancini me viu na peça ‘Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá’ e me chamou para fazer Gabriela. Era para fazer um personagem que iria aparecer em 18 capítulos. Um retirante que viria do Nordeste com a Sônia Braga. Mas como eu tinha olhos azuis, ia ficar esquisito. Aí, o próprio Salieri sugeriu que eu fizesse o filho do Coronel Amâncio, o Berto Leal, e foi um sucesso absurdo. Até fazia um sotaque baiano e, como sou muito perfeccionista, fazia com muita precisão. O personagem se destacou. O Artur da Távola escreveu em uma crítica que eu era o melhor de toda “Gabriela”. A Globo percebeu e falou: ‘Opa, vamos levantar esse moleque, que ele será o galã da casa’”.

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Em 1976, Mário Gomes interpretou Dino César na novela "Duas Vidas"

RELACIONAMENTO COM BETTY FARIA (1976): “Muita gente acha que me envolvi com a Betty para me promover ou qualquer coisa que seja. Pô, eu tinha prêmio no teatro, tinha uma carreira. Nada disso. Me envolvi porque era uma pessoa muito despreparada, tanto afetivamente como sexualmente. Eu via na Betty aquele furacão. Jamais tomaria a iniciativa porque era extremamente apático. As mulheres sempre me comiam e me cantavam. Porque eu era muito bonito e tímido. Eu achava que ela ia me ensinar sexualmente. Tinha essa ilusão. ‘Com ela vou aprender, ia me desabrochar’. "A Betty usou o texto da novela,escrita pela Janete Clair, para me cantar. Eu levei um susto. Imagina? Tinha 23 anos. Era um bobão com aquele mulherão. Ela era amiga do Chico Buarque, da Marieta Severo, parceira da Leila Diniz... Fiquei deslumbrado. E a gente se envolveu. Aí começa uma pressão absurda da parte do senhor Salieri. Ele ligava para a autora e falava que eu não estava segurando a onda. A Betty me contava tudo. Aquilo me dava uma angústia porque eu não sabia o que fazer. O cara não podia fazer isso comigo! Como a pessoa mexe no trabalho dos outros? Eu sempre fui uma pessoa extremamente ética. Aquilo era inadmissível para mim. Porque ele falava com ela e eles mudavam o personagem. Descaracterizando o personagem. Aquilo me violentava porque não foi que combinamos fazer inicialmente”.

Salieri chegou, botou a mão no meu cangote, me olhou forte, e me jurou de morte.”

PAIXÃO POR BETTY:  “Até hoje me pergunto se fiz errado, mas não vejo como abrir mão de uma relação pura. Estava com a mulher porque estava a fim dela e ela de mim. Não tenho culpa. O que posso fazer? Ela me chamou para sair e eu não saberia dizer não. Principalmente para ela. Imagina recusar um convite da Betty Faria? A filha do general. Ela tinha um glamour de gata, de vedete. Tinha todo um jeitão. Eu sinceramente não teria tomado a iniciativa, mas, como ela tomou, me apaixonei completamente. Na primeira vez que saímos, fiquei esperando ela do lado de fora da Herbert Richers (estúdio de gravação no Rio de Janeiro). Ela vinha saindo, mas o Salieri a colocou no carro dele e ficou meia hora descendo o sarrafo nela. Depois pegamos o meu carro e fomos para Ipanema. Ela me convidou para ir na casa dela no dia seguinte, que era Natal. Já na varanda o senhor Salieri chegou, botou a mão no meu cangote, me olhou forte, e me jurou de morte. Como eu digo no meu livro: ali, eu não tinha noção do que poderia acontecer. Para mim era a coisa mais normal do mundo a mulher estar a fim de mim e eu dela. Tinha 23 anos, era inocente. De repente se meu pai estivesse vivo ele teria falado para eu cair fora, mas me sentiria extremamente covarde se não ficasse com ela. O Salieri não era meu amigo. Na minha cabeça, eu não tinha razão nenhuma para não me envolver com ela”.

Acervo pessoal
Mário Gomes como Berto Leal da novela "Gabriela". Seu primeiro papel na TV

CENOURA (1977): “A história da cenoura, bem ou mal, foi uma tentativa de assassinato. Mas não me matou. É como Nietzsche diz: ‘o que não mata, nos fortalece’. As pessoas podem dizer: ‘Ah, esse cara está maluco’. Se elas entenderem a maneira que foi feita, vão se sentir indignadas. O Salieri queria apagar o chifre. E o Imperial (o diretor e jornalista Carlos Imperial) queria relançar um filme, que era um absurdo. Então, eles inventaram uma matéria na Revista Amiga, que desonrava meu pai. E, ao mesmo tempo, inventam e soltam a história da cenoura no jornal Luta Democrática. As duas estarão transcritas no meu livro. Eles achavam que iam me atrair para uma emboscada, pra honrar meu pai. Queriam que eu reagisse porque fui criado com a família Gracie. Tínhamos uma história de que amigo nosso não levava nem trote. Mas eu não tinha condições de reagir, fiquei completamente abatido com a história do meu pai. Da cenoura só fiquei sabendo três dias depois. E eles se enganaram, sempre fui avesso à irracionalidade da violência física. Que maricas, me jogando contra o público, em vez de falar na minha cara".

RELAÇÃO COM “SALIERI”: “Eu fui torturado por este sujeito a minha vida toda. Até hoje, sonho com ele. Acordo falando com ele. Discuto com ele no carro. Falo com ele em tudo quanto é lugar. Ele me tirou meus colegas de trabalho, amigos, minha vida, meu trabalho. Esse cara nunca fez um quinto do sucesso que fiz. Ele veio na minha cola e aproveitaram o meu sucesso para darem a ele uma chance. Paradoxal, né? Olha que coisa dolorosa. O meu sucesso deu a ele a chance de se tornar quem ele é. Eu era o Neymar da Globo. Quem tinha de ter saído era o Salieri, que prejudicou a Globo, com a cultura do pessoal e não do mérito. O Jorge Fernando e o Guel Arraes foram extremamente injustos, aliciados do senhor Salieri. Me passaram pra traz, combinamos coisas, como disse o Guel: ‘você veio com a gente, mas nós não fomos com você.’ Bom, eles sumiram e mudaram a minha vida (no livro será melhor explicado) e se aproveitaram da minha onda para ascender e depois virarem os melhores amigos do Salieri. O Salieri falava para todo mundo que eu era veado, principalmente pra Betty, que eu era babaca, falou pra Maria Zilda. Preconceito. Eu sempre me senti muito mal. Imagina um cara com aquele poder falando para todo mundo que eu era um babaca? Eu me afastei dos meus colegas para não prejudicá-los. Ele fez uma festa no Copacabana Palace e fez com que o Chico Buarque e o Roberto Carlos cantassem para ele, tratou mal o Nuno Leal Maia que era meu amigo e, desavisado, foi parar na tal festança. Todo mundo que colou nele e puxou o saco dele se deu bem. Inclusive, ele, né? Ele manda na Globo até hoje. Faz o papel que quer”.

Em busca do tempo perdido perdi a mão na tênue relação com o público. Ele conseguiu o que queria: me destruir por dentro”

DEMISSÃO DA GLOBO: “Quando termina ‘Vereda Tropical’, em 1984, no auge dos meus 98 pontos de audiência, só tinha a Globo, o Boni se sentiu encorajado a passar a bola. Dando a bandeja para o senhor Salieri colocar minha cabeça. Dá ao amigo a chance da vingança. E acha que não vai mexer com a estrutura global. A audiência estava lá no alto enquanto as outras emissoras estavam fechando. Mas se deu mal. Eles queriam que eu fosse uma peça qualquer, mas não sou. Eles achavam que a Globo era uma fábrica de sabonete. Aquilo ali é uma fábrica de sensibilidade. Mas não adianta. Ele ascende o nosso Salieri para o posto máximo de comandante da arte no Brasil. E nosso vilão, em detrimento do mérito, prioriza o pessoal. Por isso que ele e a Globo caem para 35 pontos em sete anos no JN. E é quando eu sou chamado de volta, mas, aí, eu havia me envolvido com uma fábrica que jamais imaginei, uma mulher que eu não amava, e ela ficou grávida. E em busca do tempo perdido perdi a mão na tênue relação com o público. Ele conseguiu o que queria: me destruir por dentro".

Selmy Yassuda
Mário Gomes

DESCULPA DE MAU COMPORTAMENTO: “Eles disseram que me demitiram pelo meu mau comportamento. Isso é conversa fiada. Nunca faltei a uma gravação. Quem se comportou de mal a pior, indignamente, naturalmente foi o Sr: Salieri. Que àquela época, prejudicou, e de forma definitiva, a própria Globo. Eles dizem que eu mesmo assumi que tinha mau comportamento. Isso é conversa fiada, é malandragem. Porque a coisa mais fácil do mundo é conversar comigo”.

IDA PARA A RECORD: “A partir da ‘Favorita’, eu entendi que não dava para mim. Estava batendo em ponta de faca. Eu tentava trabalhar na Globo, mas existia um pacto pra me controlar. Ele pode fazer novelas espaçadas e não pode crescer o personagem. Liguei para a Record e falei que queria trabalhar lá. A Globo é essa turminha de meia dúzia, dos amigos do Salieri. Hoje estou muito feliz na Record".

PROCESSO CONTRA GLOBO: “Hoje estou na justiça com um processo de assédio moral e trabalhista contra a emissora. O moral é devido a toda a perseguição. A Globo foi me achatando de tal maneira. Deixou que o Salieri acabasse com a minha carreira e vida. Já o trabalhista é porque trabalhei quarenta anos lá e não recebi nada. Nem um tchau. Nada de fundo de garantia. Me obrigavam a ser firma. A Globo é obrigada a reconhecer o meu vínculo com ela. Quanto aos tais 40 milhões de reais seria pouco pelo que passei e deixei de ganhar".

LIVRO: “O livro é a minha alma. Preciso disso. Demorei 30 anos para entender o porquê fui tão sacaneado. O que fiz a essa gente? Sucesso? Muito Sucesso? Talvez isso tenha incomodado. Só pode ser isso. Acho que o cara não deve abrir mão dos seus sentimentos ou do que pensa para puxar o saco de ninguém. Essa é minha política. Posso até estar errado, mas não sei ser diferente. Não sei me calar, não é a minha. Nunca me calarei. Sofri, foi muito bullying. O senhor Salieri queria ser ator, virou carrasco, mas mesmo assim não desejo a ele o que fez comigo, afinal eu tive, tenho, e sempre terei alma de artista".

Leia a íntegra da entrevista do ator Mário Gomes ao iG Gente

Mário Gomes e sua filha Catarina na fazendinha que mantém em sua casa. Foto: Selmy YassudaMário Gomes e Catarina, de dois anos. Foto: Selmy YassudaMário Gomes tem 59 anos. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes: "Pareço com o Chico Buarque? Que bom!". Foto: Selmy YassudaNa década de 70, Mário Gomes era um dos maiores galãs da TV Globo. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes. Foto: Selmy YassudaMário Gomes e Sônia Braga na década de 70. Foto: Acervo pessoal


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