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Com novas esquetes, política e temas quentes, humorístico brasileiro busca se aproximar da fórmula que funciona nos EUA há mais de 40 anos

Dentre as mudanças ocorridas na Globo nos últimos anos para a dramaturgia, uma das que teve melhor resultado foi a criação de um núcleo de humor , comandado por Marcius Melhem. Com o “Tá no Ar: a TV na TV”, ele conseguiu fazer o que há tempos não acontecia com programas humorísticos da Globo : ter repercussão.

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Divulgação/Globo
Elenco 2019 do "Zorra"

Anos antes, quando “Casseta & Planeta” reinava, mas o Twitter não, o programa humorístico era comentado nas ruas e nas escolas. Em 2010 a atração chegou ao fim, mostrando a tendência do público de migrar para a internet em busca de novos conteúdos. O “CQC” mostrava um novo tipo de humor na Band, os stand-up estavam em alta, e o “Porta dos Fundos” mudaria o olhar sobre o gênero em 2011.

Assim, a emissora perdeu sua referência de humor, abrindo espaço para o YouTube. Mas como o casting humorístico da Globo é grande, o “Zorra Total”, que ocupava as noites de sábado, sempre foi mantido. Embora não tivesse mais o apelo de antes, o programa eventualmente tinha um quadro que viralizava, e nos últimos anos ajudou a revelar e alavancar carreiras como a de Rodrigo Sant’Anna e Thalita Carauta.

Entre 2014 e 2015, porém, o programa sofreu uma repaginada. O “Total” saiu e os temas abordados foram atualizados. A piada do “cara crachá” já não colava mais com o público, e Melhem percebeu isto, apostando em novos nomes, como Dani Calabresa. Aos poucos, a atração foi ganhando ares de “Saturday Night Live”.

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Divulgação/Globo
Esquete que bombou na web mostrava integrantes do "Zorra" como as Spice Girls

Seguindo os passos do “Tá no Ar”, o programa ganhou “temperatura” e incluiu temas do momento no roteiro. Os cenários deixaram o set e foram para ruas, praias e campos de futebol. Os temas ficaram mais ousados e abraçaram referências atuais, como heróis de filmes, sem perder a característica de representar o cotidiano brasileiro.

Deu certo e o “Zorra” teve audiência crescente desde a reformulação, em 2015, quebrando seu recorde a cada ano. Em 2017, a temporada encerrou cinco pontos acima da média que atingia quando o novo formato começou em 2015.

A partir de 2017, percebendo o bom resultado das mudanças, o programa mergulhou mais fundo nessas novas fórmulas, e ganhou sua maior característica de comparação ao “SNL”: os comentários políticos . Sempre satirizando personalidades, decisões governamentais, pronunciamentos, etc, e inovou nas esquetes. A música se tornou cada vez mais presente, dando fôlego aos quadros, muitas vezes bem curtos. E dessa forma, a atração tenta, aos poucos, se aproximar de um formato antigo, mas que segue dando certo nos EUA: o “Saturday Night Live”.

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Divulgação/Globo
"Zorra" fez despontar nomes como Rodrigo Sant'anna e Thalita Carauta, mas abandonou personagens fixos fora da política

O programa chefiado por Lorne Michaels sempre foi uma plataforma para novos talentos, e já descobriu estrelas como Adam Sandler, Bem Stiller, Tina Fey, Jimmy Fallon, Seth Meyers, Amy Poehler, Bill Murray e muitos outros. No ar por temporadas, a atração aposta em atores fixos para interpretar políticos. Foi assim com Fey, que viveu Sarah Palin por anos, e com Alec Baldwin, que segue sendo premiado por sua interpretação de Donald Trump.

No “Zorra”, Fernando Caruso viveu um Michel Temer vampiresco desde que o mesmo assumiu a presidência. Com a mudança de governo em 2019, o programa humorístico fez questão de atualizar o personagem e fez um “teste”, para ver quem ficaria com o papel. Quem acabou assumindo o posto foi o próprio Caruso.


Outra aproximação com o formato americano está na estética. Antes os quadros tinham uma dimensão, seguindo o conceito das novelas, em cenários montados. Saindo do set, os quadros ganham nova fotografia, imagens mais elaboradas e mais criatividade e uso de efeitos, como na esquete das Spice Girls.

No primeiro programa da temporada 2019, em abril, Dani Calabresa, Maria Clara Gueiros, Valentina Bandeira, Magda Gomes e Flavia Reis fazem versões das cantoras britânicas e transformam o hit Wannabe em um “resumo” dos primeiros 100 dias de governo Bolsonaro. Nem “Game of Thrones” passou batido, e a série ganhou uma esquete elaborada, com figurinos e cenários que lembram o original.

Os casos do cotidiano vão perdendo espaço para as notícias do cotidiano, sempre com um olhar crítico e debochado. Não à toa, o programa mudou seu slogan: “Tá difícil competir com a realidade, mas a gente tenta”.

Com isso, o que restava do antigo “Zorra Total” ficou no passado. Nem mesmo personagens recorrentes, como Valéria (Rodrigo Sant’anna), ficaram. Essa característica difere do programa americano, que aposta no ponto forte de alguns de seus humoristas e repete personagens para ganhar identificação com o público.

Humor atualizado

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Reprodução/Instagram/@supercaruso
Fernando Caruso de férias em NY, visitando cenário do "Saturday Night Live"

Existem mais diferenças do que semelhanças entre os programas humorísticos , mas o “Zorra” tenta estabelecer no Brasil o mesmo reconhecimento e prestígio que o “SNL” tem nos EUA. Sob o chapéu de Melhem, o programa conseguiu atualizar seu humor e, mais importante, produzir conteúdo que vai bem nas redes socais.