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Com muitos atores encerrando seus contratos com a Rede Globo, uma nova leva de artistas surge investindo em outros produtos, como séries

O que Wagner Moura, Rodrigo Santoro e Alice Braga têm em comum? Os três, além de uma carreira de sucesso no cinema, não são vinculados a Rede Globo. Braga nunca foi e Moura foi por pouco tempo. Santoro brilhou na emissora por anos antes de decidir sair, mas optou pela segunda opção para se dedicar ao cinema.

Stella Carvalho/ Reprodução
"Irmãos Freitas" é a primeira produção nacional do canal Space e o motivo de Daniel Rocha (dir.) encerrar seu contrato com a Globo

Antigamente, o principal sonho dos atores era poder ter um longo contrato com a Globo , como têm hoje alguns “dinossauros” da televisão, como Tony Ramos e Lima Duarte. Mas, os tempos são outros e as possibilidades também, o que tem feito com que muitos artistas prefiram não se prender a esse tipo de negociação.

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O boom de séries

O elenco da série da Netflix Samantha! Terceira produção nacional do streaming, conta com atores sem vínculo com a Globo
Divulgação
O elenco da série da Netflix Samantha! Terceira produção nacional do streaming, conta com atores sem vínculo com a Globo

Apesar da chegada da Netflix causar um boom de séries e mudar a maneira como as pessoas assistem esse produto, o Brasil não teve a mesma velocidade nessas produções. Mas, nos últimos anos o cenário tem mudado. Canais como Fox, Space e Universal começaram a desenvolver produtos nacionais e fomentar mais esse mercado.

Sendo assim, começam a surgir mais oportunidades para os atores na TV, sem que seja nas novelas da TV aberta. Tanto a onda de demissões e desligamentos da emissora como o boom de séries recentes contribuíram para que os rostos antes relegados a Globo agora comecem a aparecer em outros produtos.

É o caso de Daniel Rocha . Ele se destacou na Globo em 2012 como Roni em “Avenida Brasil” e, desde então, emendou um papel no outro, sempre com coadjuvantes.

As coisas mudaram de forma quando ele foi convidado para participar da série “Irmãos Freitas”, do Space. A produção contará a história do lutador Acelino Freitas, o Popó, papel de Rocha. Ele, então, encerrou seu contrato com a Globo. “Preferimos trabalhar em contrato por obra porque eu tenho a liberdade de escolher os meus projetos”, explica o ator.

Ele está gravando a produção há sete meses e aguarda a chamada para as gravações internacionais. Ele explica que, se a Globo o chamasse para um papel, ele não poderia se comprometer com as gravações da série.

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“Esse projeto que estou fazendo tem sido muito importante na minha vida”, comenta o ator. “Eu fiquei sete anos na Globo, fiz grandes personagens, trabalhei com muita gente boa, com personagens que me desafiaram e construíram o ator que eu sou hoje, mas faz alguns anos que eu tenho buscado novos desafios e personagens em lugares que eu não tinha experimentado e eu sentia que não estava tendo essa oportunidade dentro da Globo”, continua.

A série, desenvolvida por Sérgio Machado (“Cidade Baixa”) e Walter Salles (“Central do Brasil”, “Diários de Motocicleta”), está prevista para estrear em 2019.

Livre para escolher

Daniel Rocha não renovou com a Globo para ter mais liberdade de escolher papeis
Stella Carvalho/ Reprodução
Daniel Rocha não renovou com a Globo para ter mais liberdade de escolher papeis

Ter um contrato fixo com uma emissora significa garantia de trabalho, mas não necessariamente o trabalho desejado. Atores como Giovanna Antonelli, Cauã Reymond e Flávia Alessandra tem o luxo de poder escolher papeis, mas até eles precisam se comprometer com alguma produção.

Nomes menores e menos cotados não tem tanta oportunidade, e acabam participando de muitas produções, mas em papeis menos distintos e histórias menos relevantes. “(Não ter um contrato) dá liberdade de escolha para o ator e tempo livre para fazer outros projetos”, comenta Daniel. O ator acredita que, não só as possibilidades para as séries aumentaram, como as opções têm ficado mais tentadoras. 

Costumava ser no cinema onde esses artistas conseguiam explorar esses personagens “tentadores” e, com a dificuldade em fazer filme no Brasil, ficava mais fácil conciliar os dois trabalhos.

No caso das séries, a exigência é maior e o tempo dedicado ao projeto também. Além disso, o fato do trabalho poder ter mais de uma temporada afeta a agenda e a conciliação com uma novela, que também é longa e com gravações intensas. “Estar ‘preso’ com outra coisa tornaria quase impossível de fazer a série”, explica o ator.

Novo momento

Um dos nomes que causou maior surpresa ao se desvincular da Globo foi Marco Pigossi. Depois de concluir um trabalho de sucesso com “A Força do Querer” ele emendou um papel em “Onde Nascem os Fortes”, atualmente no ar. Sua participação na supersérie é pequena já que seu personagem  desaparece logo no primeiro capítulo e depois aparece morto, mas a trama gira toda em torno dele.

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E foi bem na época do lançamento da novela das 23h que foi anunciado o fim do seu vínculo com a Globo, que agora, assim como Daniel, será por obra. O movimento é corajoso e também faz sentido: permite a liberdade comentada por Daniel para escolher trabalhos que mais lhe convenha, seja no cinema, teatro ou na própria televisão.

No caso de Pigossi, ofereceu a liberdade para trabalhar em um projeto internacional. Ele assinou com a Netflix para participar de uma série australiana, “Tidelands”, com previsão de estreia ainda para este ano.

O poder da telinha

Sem espaço nas novelas da Globo desde 2009, Fiorella Mattheis assumiu a protagonista da primeira série nacional da TNT,
Ariela Bueno/TNT/divulgação
Sem espaço nas novelas da Globo desde 2009, Fiorella Mattheis assumiu a protagonista da primeira série nacional da TNT, "Rua Augusta"

É fato que são nas produções de TV que as histórias mais complexas e diferentes estão sendo feitas. Para citar alguns exemplos, Nicole Kidman, Amy Adams, Reese Witherspoon e Matthew McConaughhey são alguns dos nomes que migraram do cinema para a TV nos últimos anos.

A Netflix, por exemplo, anunciou recentemente sua quarta série nacional, desenvolvida sob a supervisão de Daniel Rezende. Embora as novelas sejam o produto mais tradicional e estabelecido da dramaturgia nacional, é possível que nos próximos anos as séries façam “concorrência”. E a própria Globo sabe disso, já que tem investido em produções com cara de série internacional, como é “Carcereiros”, por exemplo.

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Já fora da emissora, Marcos Winter e Simone Spoladore são dois nomes que deixaram as novelas nos últimos anos e, ainda na TV, se dedicam a série “Magnífica 70”, da HBO. Na TNT, Fiorella Mattheis, que já não fazia uma novela inteira desde 2009, se tornou protagonista de “Rua Augusta”, ao lado de Pathy Dejesus, que deixou as novelas em 2015. Ainda, Douglas Silva e Emanuelle Araújo estarão em “Samantha” na Netflix.

Esses atores seguiram a mesma linha: deixar uma estável, porém menor relevante carreira nas novelas, para tentar se destacar nas séries. Com isso, quem ganha é o público. A Globo não perderá sua força nas novelas e sempre terão novos talentos para se destacar no canal. Enquanto isso, vemos as séries nacionais crescerem em quantidade e qualidade, se tornando mais uma opção de entretenimento na televisão.

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