Tamanho do texto

Histórias que não funcionaram, desserviço social, bons atores mal aproveitados e tramas sem pé nem cabeça marcaram a novela das 21h, que se despede com uma das audiências mais alvissareiras do horário

“O Outro Lado do Paraíso” chega nessa sexta-feira (11) ao seu último capítulo com um saldo negativo. A novela, que até manteve uma boa audiência, falhou em sua história, apresentou núcleos em excesso, sem contar os inúmeros desserviços que prestou ao tentar fazer merchandising social sem o devido cuidado.

Divulgação/TV Globo
"O Outro Lado do Paraíso" chega ao fim com saldo negativo. Personagens foram rasos e bidimensionais

A novela recebeu, ao longo dos oito meses que ficou no ar, diversas críticas de instituições ao retratar acontecimentos de maneira incorreta. Desde a Associação Brasileira de Psiquiatria, que questionou a maneira como “ O Outro Lado do Paraís o” mostrou o tratamento de esquizofrenia, até associações ligadas a amamentação, foram inúmeras as queixas.

Leia também: Vergonha alheia! As piores histórias de “O Outro Lado do Paraíso”

Isso mostra que, apesar da intenção de fazer merchandising social, o conteúdo foi explorado de qualquer forma, sem o cuidado de passar a informação correta, ou cumprir com a função de educar.

Os temas de “O Outro Lado do Paraíso”

Desde o começo, a novela se propôs a explorar muitos temas polêmicos : relacionamentos abusivos, homossexualidade, racismo e nanismo eram os principais. O último se resumiu apenas em uma filha insultada pela mãe. A mesma filha que ficará ao lado de sua progenitora quando todos se afastarem.

Quanto ao relacionamento abusivo, a saída para o violento Gael (Sérgio Guizé) foi transformá-lo em um homem bom e arrependido que, no final, não precisou realmente pagar pela sua violência.

Quanto ao casal homossexual, poucas vezes uma novela fez um retrato tão ruim do tema. Walcyr Carrasco fez personagens caricatos e, ao invés de explorar o preconceito, como acontece, fez do núcleo com Samuel (Eriberto Leão) e Cido (Rafael Zulu) motivo de piada, atrelando mais uma vez sua existência a algo risível para a sociedade.

Por fim, o racismo foi explorado por meio de Nádia (Eliane Giardini), que além de ser preconceituosa era corrupta. Pois a personagem não pagou por nenhum de seus crimes, e acabou ganhando uma “redenção” na etapa final.

Leia também: Cinco vezes que "O Outro Lado do Paraíso" foi criticada por sua trama

Lendas da TV com papeis nada lendários

Glória Pires está pouco inspirada em
Divulgação/TV Globo
Glória Pires está pouco inspirada em "O Outro Lado do Paraíso" e, com o texto ruim, tem um dos piores momentos da carreira

Glória Pires, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Laura Cardoso e Marcello Novaes são alguns dos grandes nomes que completam o elenco da novela das 21h. Com atores tão relevantes, era de se esperar grandes atuações. Mas, na prática, não foi isso que se viu.

O papel de Glória Pires, uma das protagonistas, foi mal desenvolvido e, nem uma atriz de seu escalão conseguiu aguentar os péssimos diálogos.

Lima Duarte foi relegado ao “vovô fofo e sofrido” e Marcello Novaes foi de amante vingativo a aliado amoroso num personagem que tem zero personalidade. Cardoso e Montenegro se sustentem melhor em suas personagens, o que não significa que seus núcleos são bons. Mas, enquanto Laura faz parte do núcleo do bordel, com algumas histórias menores interessantes, Fernanda interpreta Mercedes, que tem poderes sobrenaturais.

O que leva a mais uma trama que não funcionou: ao criar uma personagem mística, a ideia era uma mulher sensitiva, que conseguia fazer pequenas previsões do futuro e usava seus “poderes” para ajudar as pessoas.

Na prática, ela virou uma milagreira a quem todos recorrem, e que realiza feitos como levitar pessoas e fazê-las voltar a andar, como fez com Raquel (Erika Januza) e até mudar as pessoas de lugar, como fez com Zé Victor (Rafael Losso) que foi teletransportado depois de quase mata-la.

Miscelânea de vilões

Habilidades de Mercedes foram se tornando mais estranhas e seu ultimo feito foi fazer Zé Victor sangras e ser teletransportado
Divulgação/TV Globo
Habilidades de Mercedes foram se tornando mais estranhas e seu ultimo feito foi fazer Zé Victor sangras e ser teletransportado

Sophia (Marieta Severo) é a vilã principal. Mas aí, Gael surgiu como um tipo de vilão. Depois, Lívia (Grazi Massafera) seria vilã e roubaria o filho de Clara ( Bianca Bin ). Enquanto isso, Renato (Rafael Cardoso) era apaixonado por Clara. Mas, na verdade, ele queria roubar sua fortuna e trabalha com Fabiana (Fernanda Rodrigues), outra vilã gananciosa.

O juiz Gustavo (Luis Mello) é corrupto, Natanael (Juca Oliveira) tentou se livrar da nora, Jô (Bárbara Paz) o ajudou. Vinícis (Flávio Tolezani) era pedófilo, Tônia (Patrícia Elizardo) tentou dar o golpe da barriga e Lorena (Sandra Corveloni) não acreditou na filha quando ela disse que havia sido abusada pelo padrasto.

Metade do elenco cometeu diversas atrocidades, e ainda assim, com exceção de Sophia, nenhum deles é marcante. Sophia, aliás, não é das melhores vilãs, e acaba caindo naqueles personagens irreais que acabam matando todo mundo.

Leia também: Tratar de vingança em novelas atende demanda do público por catarse

Mesmo sendo uma vilã “clássica”, cheia de maldades, ela só corroborou com o maniqueísmo da novela, impedindo histórias mais complexas e bem desenvolvidas.

Folhetim clássico

Walcyr Carrasco havia prometido um folhetim clássico com “ O Outro Lado do Paraíso ”. Como resultado, acertou apenas em personagens bidimensionais. Sem profundidade, a maioria dos personagens e histórias são simplórios e os diálogos são fracos. No clássico mesmo, Carrasco só acertou na mocinha sem sal.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.