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Arco envolvendo pedofilia ganhou combustão nos últimos dias e atingiu o patamar de (bom) merchandising social pretendido pela trama de Walcyr Carrasco desde o princípio. No limiar, porém, o saldo é de desinformação

A novela "O Outro Lado do Paraíso" veio com a intenção de agitar as redes sociais com diversos temas polêmicos. Racismo, nanismo, violência doméstica e pedofilia sendo apenas os mais midiáticos e explosivos deles. Era natural que com tanto potencial incendiário muita coisa refugasse e a atenção do público se dispersasse. Apesar da sólida audiência conquistada na segunda fase da trama de Walcyr Carrasco , com números acima dos 45 pontos em São Paulo e Rio de Janeiro, nenhuma desses arcos pegou. Em parte pela velocidade do desenvolvimento dos conflitos, em parte pela ruindade do texto e pela pobreza com que as ideias são articuladas narrativamente.

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Flávio Tolezani ostenta a melhor atuação da novela
Divulgação / Globo
Flávio Tolezani ostenta a melhor atuação da novela "O Outro Lado do Paraíso"

No entanto, nas últimas semanas o arco sobre pedofilia ganhou combustão em "O Outro Lado do Paraíso" . O excelente trabalho do ator Flávio Tolezani como o delegado pedófilo Vinícius ajudou a desobstruir um argumento cheio de falhas e desnecessários contornos dramatúrgicos que deu viço à historia de Laura (Bella Piero), que depois de ser abusada pelo padrasto durante anos, criou aversão ao sexo. 

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Personagens de
Divulgação / Globo
Personagens de "O Outro Lado do Paraíso" passam por momento crítico na trama

Nos últimos capítulos, com a intensificação da vingança de Clara, que se volta para cada um de seus algozes, Vinícius e Laura passaram a ser os protagonistas e tiveram espaço para melhor dimensionar duas das melhores atuações da novela das 21h. 

Walcyr Carrasco gosta de um clichê e não há clichê mais eficiente dramaticamente do que cenas de julgamento, que remetem a um teatro. Depois de explorar fartamente esse cenário no julgamento de Duda/Bethe (Glória Pires), ele tornou a fazê-lo, com a mesma dose de vícios e inacuidade, com o caso de Vinícius. No dia seguinte à condenação do delegado, assassinou-o na prisão. Vínicius fora esfaqueado em uma cena que respondeu pelo clímax do capítulo desta quarta-feira (21). A cena, muito bem dirigida, entrega aquilo que Carrasco e o público tanto querem: um engajamento apaixonado e não necessariamente racional (ou produtivo). 

Mauro Mendonça Filho, diretor de O Outro Lado do Paraíso, dirige o elenco na cena de julgamento
Divulgação / Globo
Mauro Mendonça Filho, diretor de O Outro Lado do Paraíso, dirige o elenco na cena de julgamento

O arco de pedofilia, cheio de imperfeições e elaborações mal ajustadas, da retratação do trauma de Laura, passando pelo coaching, inquérito policial, julgamento e etc,  causa mais desinformação do que ajuda na conscientização do problema. Mas é inegável que para uma novela que objetivava "lacrar" com tantos assuntos importantes, a resposta do público e das redes sociais é para lá de positiva. Apesar dos números sólidos, a novela carecia de emplacar um tema de impacto, como sua antecessora "A Força do Querer" fizera com a transexualidade. De certo modo, o delegado pedófilo representou a redenção de "O Outro Lado do Paraíso".  

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