Banda Mulamba
Divulgação/Fábio Setti
Banda Mulamba

Criada em 2015 sem a pretensão de se tornar o que é hoje, a banda Mulamba celebra sete anos de história, transformando dor e alegria em poesia, e dando voz para a luta feminina. Formado por seis mulheres, o grupo será responsável por abrir o palco Budweiser no segundo dia do festival Lollapalooza. 

O que começou com um tributo para a ícone da MBP Cassia Eller, hoje já conquistou o próprio espaço na música popular brasileira. Com os hits "P.U.T.A", "Interestelar" e "Mulamba", que ultrapassam 1 milhão de views no YouTube, a banda curitibana se consagrou com composições autorais e a voz política em prol da luta feminina.


Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão) são as protagonistas da reviravolta.

Muito além de mulheres

Embora o grupo seja diferenciado pela presença total de figuras femininas, a vocalista Cacau aponta ser algo além da discussão de gênero, apesar dela ser presente no projeto. Individualidade e vivências são as precursoras do trabalho.

"São corpos e cada uma na sua busca. A gente nasceu assim biologicamente e já estávamos falando das problemáticas desses corpos na vida e você falar sobre esse recorte é natural. Não estávamos nem ligadas que nós estávamos começando em uma onda feminista", confessa.

Na convergência das particularidades da vivência como mulher numa sociedade estruturalmente machista, a Banda Mulamba ilustra cenários que fazem parte do cotidiano. A luta por igualdade, direitos garantidos, respeito, liberdade de escolha e sexual une milhares de mulheres diariamente desrespeitadas e violentadas pelo sistema.

"A sociedade machista ao ver seis corpos nascidos biologicamente femininos juntos um palco [classifica] 'é um grupo feminista'. A gente ganhou esse rótulo e não tem nem como lutar contra, não tem o porquê. Com todas as diferenças do feminismo da mulher branca, o feminismo da mulher negra, esses recortes, não tem porque você lutar contra uma parada que também te abarca, mas [a banda] não nasceu com esse intuito".

Voz política

Inspiração para a formação da banda, Cassia Éller já enfrentava uma sociedade que tentava ceifar a vontade e liberdade das mulheres. Naturalmente, a artista também se tornou uma referência para outras mulheres que estavam por vir. 

Há 30 anos, Cassia Eller enchia o peito para se revelar uma 'menina má', que não estava a espera de um 'príncipe chato' e reafirmava ser dona de si com os versos de 1º de julho. "Se a tirania é lei, a revolução é uma ordem", reflete a vocalista Cacau.

Em "P.U.T.A", música de maior views da banda, elas ilustram um cenário desesperador e comum na realidade brasileira. "Deus, que não seja hoje o meu dia", diz o verso, seguido do relato de abuso sexual. 

Segundo o Atlas da Violência, publicado pelo IPEA, estima-se que ocorram no Brasil 822 mil casos de estupro por ano. Desse total, mais de 80% de mulheres são as vítimas.

"Quando se junta com a força dessas verdades, a gente chega num lugar de 'Isso está aqui na nossa garganta'. Cada uma, do seu jeito, tem essas verdades entaladas, porque não aproveitar já que o espaço está aberto e o microfone está na mão? A gente tinha necessidade de falar coisas a partir das vivências, a partir dos olhares, a partir do entendimento de sociedade que ainda é tudo bagunçado".

E como toda rebeldia revolucionária, o sistema tenta achar meios para impedir a contestação. Cacau, Fer Koppe e Caro Pisco revelam que contratantes já tentaram barrar a performance de "P.U.T.A" durante uma apresentação pública.

A banda, que optou por tocar somente o instrumental na ocasião da censura, foi surpreendida com o coro da plateia dando voz ao discurso. 

Pandemia e dificuldades

O setor de eventos foi um dos primeiros afetados com as normas de segurança para conter o avanço do coronavírus. Com isso, a banda Mulamba se viu deixando os palcos dos festivais e shows, onde ganhava a renda. 

"Às vezes, a gente encontra pessoas no meio da rua que falavam 'Achei que [a banda] tinha acabado'. É muito difícil, porque a gente estava no rolê e de repente a gente saiu, porque já não conseguiu acompanhar", reflete Caro Pisco, diante dos desdobramentos da pandemia da covid-19.

Sem shows e sem renda, a banda se reinventou de diversas formas para angariar fundos para concretizar um novo projeto. Foi por uma rifa online que a Banda Mulamba conseguiu se reorganizar e com isso gerar o segundo álbum do grupo. 

Lollapalooza e esperança

Em 2023, shows e festivais já voltaram para a normalidade após quase dois anos de restrições. No entanto, para artistas menores, a situação é lenta e escâncara a discrepância de oportunidades e desvalorização da cultura.

"Está começando a voltar, mas, para a gente, para essa banda aqui que é muito de palco, ainda não está começando a normalizar e não sabemos o que será", lamentam as integrantes, revelando ser uma batalha diária para garantir o sustento do grupo.

No sábado (25), a Banda Mulamba será a responsável por abrir o palco Budweiser, local onde Tássia Reis, Ludmilla e Twenty One Pilots se apresentarão depois.

"É uma oportunidade super massa, que qualquer artista gostaria de estar num lugar desses na vida, de emoção, de experiência de palco, de troca com outros artistas em um festival desse tamanho".

"O Lolla é consequência do nosso trabalho, e que venha um showzão desse naipe, na rua, aberto, para todo mundo e o ingresso seja extremamente acessível a todos, é o que eu busco. Esses grandes eventos são grandes vitrines, mas eles também mostram muito sobre as desigualdades", completa a vocalista Cacau.




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