'Marighella': Seu Jorge e o diretor Wagner Moura no set
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'Marighella': Seu Jorge e o diretor Wagner Moura no set


"O homem coletivo sente a necessidade de lutar". Com os versos de Chico Science, a luta de guerrilha e o filme 'Marighella' começam. O filme, que tem estreia para quinta-feira (4), chega nas telas após uma série de polêmicas e acusações de censura contra a Ancine, Agência Nacional de Cinema. 

Estrelado por Seu Jorge, 'Marighella' é um filme que reconta passagens do guerrilheiro na época que comandava a 'Ação Libertadora Nacional', organização revolucionária que buscava enfrentar a ditadura militar no Brasil e realizar uma revolução comunista no país. Carlos Marighella fundou a ALN em fevereiro 1968 e foi morto por agentes do DOPS em 4 de novembro de 1969. 

Em entrevista coletiva, Wagner Moura contou que pretende mostrar o homem Marighella e quem ele era na luta, apesar do filme ser uma obra de ficção. "O homem Marighella e aquelas pessoas que estiveram ali foram pesquisados, tenho segurança do processo ético para que este balanço entre ficção e memória, fizemos com muita honestidade", disse. 

Tensão do filme pode ser cortada com uma faca

Wagner Moura conta a história de Marighella em três lugares: Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, de 1964, no começo da ditadura, até a morte do guerrilheiro, em 1969. É possível notar que os ambientes se transformam em personagens e mudam o percurso da história. 

Do começo ao fim, a direção de Wagner traz tensão às cenas, seja com a escolha de câmera, os diálogos ou a atuação do elenco. Mesmo nas cenas silenciosas e sem falas, a raiva e tensão dos atores é sentida no cinema. Cenas com câmera na mão, próxima dos personagens e a falas ditas de forma enérgica dão um choque nos espectadores.

Mesmo com a limitação de tempo, o filme de 2 horas e 40 minutos conta diversas histórias e dá explicações rápidas sobre a ditadura, a radicalização da esquerda no Brasil e como a oposição era dividida nos primeiros anos após o golpe militar. 

Elenco eleva a obra


Todo o elenco se destaca na obra, cada um a sua forma, trazendo uma face de Marighella. Bruno Gagliasso, que interpreta o delegado Lúcio, inspirado no delegado Fleury, consegue se distanciar dos heróis e mocinhos das novelas.

Gagliasso  comentou a dor de interpretar um policial racista . "Fiz um personagem racista e fascista. Tenho filhos negros e a maior dificuldade foi encontrar isso em mim porque eu não queria que fosse nada óbvio", disse. 

O delegado tem apenas um objetivo na obra: capturar Marighella e ser parte vital dos órgãos repressores da ditadura. Apesar de Gagliasso querer mostrar um "lado humano do monstro", Lúcio tem olhos vazios, focados em reprimir e longe do humano. 

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Adriana Esteves, que interpreta a viúva de Marighella, Clara Chafer , se destaca em poucos minutos de tela. Clara traz um dilema para o guerrilheiro na obra: 'viver com o amor da vida ou lutar por um Brasil melhor?'. Adriana traz tanta emoção às cenas que fica impossível não se emocionar com a dor de uma mulher ver a paixão escolher a luta armada contra a ditadura. 

Humberto Carrão, Bella Carnero, Luiz Carlos Vasconcellos, Jorge Paz e Ana Paula Bouzas também são destaques da obra. Apesar do filme ser limitado pelo tempo, Wagner Moura consegue contar a história dos personagens interpretados pelos atores, que representam uma minoria que lutava contra a ditadura. Estudantes, nordestinos, mulheres e jovens são muito bem representados pelos atores. 

Seu Jorge, que entrou para o elenco no lugar de Mano Brown, conseguiu resgatar a brasilidade que tanto procurava. Ele comentou que ao aceitar o papel, teve que se "reconectar com o Brasil". "Par fazer esse personagem, eu precisava me conectar com o Brasil e as causas do Brasil, que essencialmente são minhas causas e sempre foram. Em determinado momento, elas deixaram de ser porque eu entendia que a minha missão como brasileiro era promover o país da melhor forma possível", contou. 

O cantor e ator é a grande estrela do filme, que parece imprimir a famosa capa da Revista Veja denunciando Marighella. Na revista de novembro de 1968, se entende a dualidade do guerrilheiro: "Chefe comunista, crítico de futebol em Copacabana, fã de cantadores de feira, assaltante de bancos, guerrilheiro e grande apreciador de batidas de limão". 

Seu Jorge é — ao mesmo tempo — forte e humano. Ele apresenta as faces que um símbolo da luta contra a ditadura teve apagadas. Em alguns momentos, o artista quebra a tensão da cena com falas próximas da comédia e mostra a face humorista e descontraída do guerrilheiro. Mesmo assim, há a sensação de que o personagem é um manifesto em forma de gente, com muitas falas politizadas e enérgicas, como em um discurso. 

"E com quantos cadáveres uma situação se define?"

Filme é estrelado por Seu Jorge
Reprodução/Marighella
Filme é estrelado por Seu Jorge


Uma dúvida que paira ao assistir ao filme é: "se fosse lançado em 2019, como seria a recepção do público?". É inevitável comparar a situação do Brasil há dois anos e hoje, ainda mais após um ano e meio de pandemia, protestos, ameaças de golpe militar e radicalização de grupos de extrema-direita.

O filme, que está sendo exibido em diversos movimentos sociais, pode elevar o debate político. Depois de mais de 600 mil mortos, economia abaixo do esperado, repressão à imprensa e desdém do presidente com o povo, 'Marighella' é uma obra que consegue fazer um paralelo entre a energia de 1968 e a de 2021, pré-eleições presidenciais.

Em um dos diálogos mais intensos do filme, os personagens de Luiz Carlos Vasconcellos, Seu Jorge e Herson Capri discutem sobre os rumos da esquerda no Brasil. Herson, que interpreta um dono de jornal, pede cautela e esperar a situação da ditadura se definir. Almir, personagem de Vasconcellos, então pergunta: "E com quantos cadáveres uma situação se define?". A frase é dita em 1964, mas poderia ser dita em 2021. 

A intensidade das cenas, a energia de revolução que o filme traz e o debate entre lutar pelo Brasil e viver pelos que ama são pontos positivos do filme. Um problema que a obra tem é deixar claro que aquela história é fictícia e baseada no livro de Mário Magalhães. Para os que não conhecem a história de Marighella a fundo, é possível entender que a luta do guerrilheiro não fez sentido e o grupo dele era pequeno para revolucionar. 

Mártir, o mito ou maldito sonhador, Carlos Marighella tem a biografia respeitada na obra. O filme, além de trazer as mil faces do homem leal, também mostra os horrores da ditadura e conta a história dos que foram de aço nos anos de chumbo. 

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