Como deve estar sendo a quarentena de um dos maiores cineastas da Espanha enquanto o coronavírus se alastra pelo país? Em uma extensa crônica escrita especialmente para o jornal El Diario , Pedro Almodóvar compartilhou detalhes de seu confinamento durante a pandemia de Covid-19, em sua casa, no Paseo del Pintor Rosales, uma sofisticada rua de Madri.

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Divulgação
Asier Etxeandia, Pedro Almodóvar e Antonio Banderas


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O texto, intitulado "A longa jornada pela noite", traz logo no começo um paralelo entre vida e ficção. "Parei de olhar para o relógio, só o consulto para saber quantos passos eu já andei pelo longo corredor lateral da minha casa, o corredor em que Julieta Serrano censurou Antonio Banderas por não ter sido um bom filho", escreve Pedro Almodóvar , referindo-se a "Dor e Glória", sua obra mais recente, que concorreu a dois Oscars este ano (melhor filme internacional e melhor ator).

Fechado em sua casa desde o dia 13 de março, o diretor confessa ter demorado nove dias até querer escrever uma linha sequer sobre o isolamento, talvez por ter descoberto que a situação atual em que se encontra não seja tão diferente daquela que vivencia em seu cotidiano. "Vivo como uma selvagem, no ritmo da luz que entra pelas janelas", define.

Em outro trecho, Almodóvar revela que não tem vontade, por agora, de escrever ficção, por mais que os dias o remetam mais a uma "ficção fantástica" do que a uma história realista. "A nova situação global e viral parece surgir de uma história de ficção científica da década de 1950, os anos da Guerra Fria. Filmes de terror contendo a mais cruel propaganda anticomunista", analisa o diretor, mencionando títulos como "O incrível homem que encolheu" (1957) e "Planeta proibido" (1956).

Ele também faz uma ponte entre estas produções alarmistas e o discurso político de Donald Trump, presidente dos EUA: "O mal sempre veio do exterior (comunistas, refugiados, marcianos) e serviu de argumento para os populismos mais grosseiros. De fato, Trump já está se certificando de que o que estamos sofrendo pareça um filme de terror dos anos 1950, chamando o vírus de 'vírus chinês'. Trump, outra das grandes doenças do nosso tempo".

Continuando sua jornada pela noite de quarentena, Almodóvar decide assistir a "007 contra Goldfinger" e relembra uma ligação recebida de Sean Connery, em 2002. O ator britânico havia acabado de sair de uma sessão de "Fale com ela" e queria elogiar o espanhol por seu trabalho.

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Em outra passagem mais emotiva, Pedro compartilha seu choro diante da morte da atriz italiana Lucia Bosè, que faleceu, aos 89 anos, no último dia 23, em Segóvia, a 100km de Madri, em decorrência de uma pneumonia. "Lucia me fascinou como atriz e como pessoa. Lembro-me dela em 'Crônica de um amor' de (Michelangelo) Antonioni, uma mulher de beleza inédita, rara na época, e aquela maneira de andar, andrógina e animal. Vou agendar o filme de Antonioni amanhã", promete o cineasta.

Mais à frente, Almodóvar diz estar conseguindo superar sua característica ansiedade graças à quarentena. Segundo ele, "a pressa se foi" e, apesar da incerteza além das janelas, ele não se vê angustiado. "Me apego a esse novo sentimento de superação do medo e da paranoia. Não penso na morte ou nos mortos", dispara. A depressão e a quarentena: Andrew Solomon dá conselhos sobre como enfrentar isolamento

De volta ao filme de James Bond, Almodóvar é interrompido por uma ligação de sua irmã, Chus, que diz estar vendo o cineasta pela TV, em um documentário sobre a cantora Chavela Vargas (1919-2012). Nascida na Costa Rica e radicada no México, Chavela foi um símbolo de resistência, com seu comportamento transgressor para a sociedade mexicana das décadas de 1940 e 50, sua luta contra o alcoolismo e seus romances lésbicos, dentre eles aquele com Frida Kahlo.

Após anos de ostracismo no país que escolheu viver, foi levada por um empresário a Madri, em 1993, quando conheceu Almodóvar, que se tornou amigo e padrinho, levando Chavela a se apresentar no Olympia, mais tradicional sala de espetáculos musicais de Paris. "O maldito machismo mexicano não lhe permitiu entrar em um teatro vestida com calças e poncho, porque se alguém se vestisse assim não seria uma mulher de verdade", desabafa o diretor em sua crônica.

Ele ainda relembra a ocasião em que foi visitar a amiga em Tezpotlán, no México, em 2007. Hospitalizada, Chavela havia basicamente obrigado a equipe médica a lhe conceder alta para receber o amigo, e demonstrar vitalidade. "Conversamos sobre doença e morte e ela me disse, como um bom xamã: 'Não tenho medo da morte, Pedro, xamãs não morrem, transcendemos'. Não havia dúvida em minha mente que ela estava certa", diz Almodóvar.

Encerrado o documentário sobre a querida amiga, o cineasta emenda em outro, agora sobre o artista plástico espanhol António Lopez Garcia e a relação da luz com sua obra.

Luz, aliás, que se aproxima do momento de adentrar as janelas da casa de Pedro Almodóvar enquanto ele chega à reta final de sua crônica. Mas antes de mais um dia de quarentena nascer, ele precisa arcar com um compromisso: "Não quero ficar mal com James Bond, não quero ir para a cama até Sean Connery frustrar os planos do maquiavélico e gordo Goldfinger, e nos salvar".

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