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No primeiro dia de evento foram abordados temas como desastres em Mariana e Brumadinho, além de ameaça às terras indígenas

 "É preciso ler 'Os sertões' todos os dias para entender a perversidade do Brasil com os seus desvalidos". A frase dita pela crítica Walnice Nogueira Galvão na abertura da 19ª Flip ecoou também nas mesas mais animadas desta quinta-feira, 11.

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Aparecida Vilaça na abertura da Flip arrow-options
Reprodução/Instagram/@flip_se/Walter Craveiro
Aparecida Vilaça na abertura da Flip


No primeiro dia da Flip , temas como as tragédias de Mariana e Brumadinho e a ameaça às terras indígenas renderam conexões entre os problemas relatados por Euclides da Cunha (1866-1909), o homenageado da festa, e o de hoje. 

Na primeira mesa, "Bendegó", a antropóloga do Museu Nacional Aparecida Vilaça alertou sobre a situação dramática dos povos indígenas no Brasil, cujas terras, segundo ela, passaram a ficar ainda mais ameaçadas sob o governo do presidente Jair Bolsonaro. Segundo ela, mesmo sem mudanças na lei, a simples eleição do político tem incentivado invasões cada vez mais frequentes de terras indígenas.

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Em seu livro, "Paletó e eu", Aparecida relembra sua convivência com o povo Warí, que ela foi estudar nos anos 1980 no interior de Rondônia. Lá, ficou tão próxima de um indígena chamado Paletó que acabou sendo adotada por ele como filha, e a quem ela descreve no livro como um pensador e intelectual. Durantes anos, mantiveram contato, inclusive com várias idas de Paletó ao Rio de Janeiro, cidade onde Aparecida reside.

"A sensação é que eles ( indígenas ) viraram alvo novamente. Vivemos um momento de retrocesso absoluto, voltando aos anos 1960 e 1970", disse a antropóloga, lembrando que o povo Wari foi "dizimado" nos anos 1970. O próprio Paletó teve mulher e filha pequena assassinados a tiros de metralhadora.

Impactos da mineração no país

Na mesa Sincorá, o ensaísta e crítico literário José Miguel Wisnik buscou outro paralelo: os impactos da mineração na vida do país e na obra daquele que é um de nossos maiores poetas, Carlos Drummond de Andrade. 

O tema, que está em seu livro "Maquinação do mundo: Drummond e a mineração", ficou ainda mais atual após as tragédias nas cidades mineiras de Mariana e Brumadinho, em 2015 e 2018.

Wisnik foi à cidade natal de Drummond, Itabira, e acabou percebendo que a mineração também teve um impacto enorme na formação do futuro poeta. Drummond cresceu em uma casa cujas janelas davam para o Pico do Cauê, que após a mineração na região decresceu de 1385 metros de altura para apenas 150 metros — desaparecendo da vista de Itabira.

"A obra do poeta ganha transformação que eu não imaginava, ligada ao fato de que a devastação da mineração promoveu ao longo da segunda metade do seculo", disse Wisnik. "Se ela passou despercebida dos olhos do brasil, ela transbordou aos nossos olhos com Brumadinho e Mariana. Como dizia Nelson Rodrigues ao comentar o impacto de "Os sertões": "O Brasil só pode se mostrar com uma golfada hedionda".

Mas a devastação não passou despercebida por Drummond. Wisnik selecionou textos do poeta na imprensa em que ele criticava publicamente a Vale do Rio Doce por suas ações em Minas Gerais, e demonstrou como o impacto da atividade aparece em seus versos.

Mesa morna sobre 'Cat person'

A mesa com as americanas Kristen Roupenian e Sheila Reti foi morna. A primeira falou sobre “Cat person”, sua coletânea de contos cuja história-título viralizou na internet em 2017. A segunda abordou os dilemas de "Maternidade", uma autoficção em que questiona a necessidade de ter filhos. As duas autoras, porém, não conseguiram pontos de diálogo entre suas obras.

"Eu procurava essa pergunta ( sobre a validade de ter filhos ) em livros de filosofia, mas nunca a encontrava", disse Sheila.  Se os homens pudessem engravidar e se coubessem a eles a decisão, essa seria a pergunta fundamental da filosofia desde Platão.

Às 19h, a fotógrafa Maureen Bisilliat participou da mesa “Serra Grande”. Nascida na Inglaterra e radicada no Brasil desde 1957, Maureen subiu no palco de bengala e antes mesmo de se sentar deu um recado ao público:

— Tô mal da perna, mas muito feliz de estar aqui.

Maureen falou sobre sua relação com a literatura brasileira e dos livros que fez a partir das obras de escritores como Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto e Euclides da Cunha. Ela disse que seu interesse pela palavra por autores tão apegados à geografia brasileira é um reflexo de sua criação nômade. Filha de diplomata, ela rodou o mundo antes de se fixar em São Paulo.

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"A relação com a palavra começou muito cedo para mim. Aos 5, 6 anos, eu já tinha que conquistá-las, porque viajávamos por muitos países. Eu tinha que tentar pertencer a diversas realidades" afirmou. "Isso me deu uma característica camaleônica que me ajudou muito na fotografia, porque me ensinou a entrar e sair de ambientes. Mas foi difícil".