Levantar um festival de música, por si só, já é uma tarefa bastante difícil. Longe da capital, ainda por cima, a tarefa fica mais complexa - e é esse o desafio que o João Rock se propõe a quebrar. Desbravar terras dominadas pelo modão sertanejo com rock nacional pode parecer uma empreitada ingrata, mas a realidade talvez não seja assim tão sedimentada.

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Os Paralamas do Sucesso se apresentam no evento
Divulgação/João Rock
Os Paralamas do Sucesso se apresentam no evento


A primeira vista quem olha para o line-up do festival com nomes já tradicionais do rock brasileiro, como CPM22, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso, vai pensar que sediar esses shows no mesmo espaço onde acontece o Agrishow é, no mínimo, incoerente.

O cruzamento entre localização e gosto musical é bastante comum quando falamos em fronteiras culturais no Brasil, porém na prática a ideia acaba sendo falha, deixando de lado uma diversidade já intrínseca da nossa identidade musical. Ao abrir as portas para uma pluralidade que falta ser explorada saindo do eixo São Paulo/Rio de Janeiro, encontramos ramificações e sobreposições que agregam novos ares aos estereótipos. Ou, falando de uma forma mais simples, basicamente aquele mesmo público raiz de festa de peão talvez também curta um rock.

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Durante o festival, principalmente para quem é da capital e cativo de outros eventos do segmento, comparações eram inevitáveis. As metáforas utilizadas para descrever essas nuances eram, no mínimo, interessantes. Algo como "raiz x nutella" era bastante comum para traduzir as diferenças entre, por exemplo, o Lollapalooza e o João Rock - tipo aquele primo gourmet da família e o que cursou agronomia e vive de jeans manchado de terra.

Essa liberdade mais crua pode, inclusive, ser apontada como um fator bastante atrativo para o público que busca uma experiência mais rudimentar e menos produzida meticulosamente. Era comum, andando em qualquer espaço do João Rock, ver pessoas deitadas no chão direto na grama com tênis, roupas e toalhas empoeirados de terra vermelha que, devido ao calor e o tempo seco, formava uma verdadeira nuvem na região do palco principal.

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A música , é claro, está no primeiro plano do festival . Ninguém pagaria somente para isso, mas é inegável que as amarras da cidade ficam para trás e muita gente se dispõe a pegar horas de estrada para aproveitar uma vivência mais… Digamos que rústica.

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