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Dark Ballet é estrelado por um rapper negro, transgênero e soropositivo caracterizado como Joana D´arc. Novo álbum será lançado nesta semana

Em quatro décadas de carreira, não foram raras as vezes que Madonna usou a música pop para fazer provocações à religião e dar visibilidade aos desfavorecidos. Em 2019, essa característica não dá sinal de desgaste. Basta olhar para o clipe de Dark Ballet , lançado semana passada. A faixa integra seu 14º álbum, "Madame X", que será lançado na próxima sexta (14). 

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Dark Bullet
Reprodução/Youtube
Madonna no clipe Dark Ballet

Iconográfico e repleto de referências religiosas (e a outras obras de Madonna ), o vídeo de seis minutos retrata o momento em que Joana D'arc — a heroína francesa considerada herege por cometer os "crimes" de receber "visões demoníacas" e se vestir como homem — é queimada viva. Na versão da popstar, a guerreira do século XV é interpretada por Mykki Blanco, rapper americano, negro, ativista, transgênero e soropositivo.

A escolha por escalar o artista, claro, não é aleatória. Mesmo extintas as fogueiras em praças públicas, pessoas que fogem ao padrão ainda são castigadas apenas por serem o que são. Madonna considerou que as experiências pessoais de Blanco funcionavam como uma analogia moderna de Joana D'arc, conforme explicou o rapper à revista Billboard .


Ostentando uma fotografia cinematográfica, o clipe de Dark ballet (balé sombrio, em tradução livre) traz imagens simbólicas. Uma delas acontece no momento em que Joana D'arc é queimada. Um bispo negro observa a execução enquanto uma lágrima escorre de seu olho. A cena nos remete ao clipe de Like a prayer (1989), condenado pelo Vaticano por usar iconografias cristãs. Naquele vídeo, uma lágrima cai da estátua de um santo negro, muito parecido com um homem detido equivocadamente pela polícia por bater numa mulher momentos antes. Em ambos os clipes, nos quais paira no ar um constante sentimento de injustiça, o lamento faz aceno ao versículo da Bíblia que diz "Jesus chorou".

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Outras referências de Dark ballet são mais diretas. O vídeo abre com uma citação de Joana D'arc: "Tudo o que temos é a nossa vida, e a vivemos como acreditamos que devamos vivê-la. Mas renunciar ao que se é e viver sem acreditar em nada é mais terrível do que morrer". É uma mensagem de encorajamento que contratasta com o sofrimento de Mykki/Joana aguardando sua execução ("Posso me vestir como um menino ou menina", canta Madonna nessa parte). Ou quando ele(a) se vê num círculo de padres que gargalham diante de seu desespero.

Mas há uma reviravolta em Dark Ballet que soa quase como uma vingança contra o conservadorismo. "Não vou denunciar as coisas que eu disse / Não vou renunciar à minha fé no meu doce Senhor", canta Madonna na segunda metade da música, enquanto Mykki/Joana assume uma postura imponente e de orgulho. O clipe termina com uma frase do rapper: "Caminhei nessa terra, negro, queer e HIV positivo, mas nenhuma transgressão contra mim foi mais poderosa do que a esperança dentro de mim". Madonna celebra a resiliência das pessoas negras e LGBT, historicamente vítimas de violência física e psicológica.

Dark Bullet
Divulgação
Cena de Dark Bullet, novo clipe de Madonna

O clipe, que até a noite desta segunda-feira (10) colecionava 1,6 milhão de visualizações no YouTube, foi descrito pela imprensa como sombrio, macabro e melancólico. Mas basta ler os inúmeros agradecimentos dos fãs para ver que a mensagem de esperança foi assimilada. "Como é triste lembrar que a Inquisição foi um acontecimento nunca mencionado pelos sacerdores em seus discursos. Obrigado, Madonna, por lembrar", diz o comentário mais curtido na plataforma. 

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Em comunicado enviado à imprensa, Madonna resume o sentimento que a inspirou: "( Joana D'arc ) lutou contra os ingleses e venceu, mas os franceses não ficaram felizes. Julgaram-na mesmo assim. Disseram que ela era um homem, uma lésbica, uma bruxa. No fim, queimaram-na, e ela não temeu nada. Eu admiro isso."