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Com extensa carreira, cineasta nunca foi reconhecido como diretor no Oscar. Seu novo filme, “Infiltrado na Klan”, pode ser sua primeira oportunidade

Spike Lee tem uma carreira consistente no cinema desde os anos 1980, entregando ótimos filmes como “Faça a Coisa Certa”, “Malcolm X”, “A Última Noite” e o recente “Chi-Raq”. Tendo a temática racial como seu principal norte, o diretor nascido em Atlanta há anos tem seu nome entre os grandes de Hollywood.

Spike Lee dirige cena com John David Washington em
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Spike Lee dirige cena com John David Washington em "Infiltrado na Klan"

Ainda assim, ao longo das últimas três décadas, a Academia o esnobou constantemente, e Spike Lee nunca foi indicado ao Oscar como melhor diretor. Denzel Washington chegou a ser indicado como Melhor Ator por “Malcom X” e o próprio Lee foi contemplado por Roteiro Original com “Faça a Coisa Certa”, mas na direção ele seguiu sendo esnobado. Até agora.

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Lee finalmente tem a chance de receber sua primeira indicação (que já está mais do que na hora, e será mais do que merecida) por “ Infiltrado na Klan ”. Nos EUA de Trump, ele retorna ao passado para contar a história de Ron Stallworth (John David Washington), primeiro policial negro da pequena cidade de Colorado Springs, que consegue se infiltrar na Ku Klux Klan.

Enquanto o verdadeiro Stallworth conversa ao telefone com David Duke (Topher Grace), um dos principais nomes do movimento supremacista branco, o policial Flip Zimmerman (Adam Driver) assume sua identidade como membro da KKK.

Spike Lee
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Spike Lee

Embora se passe nos anos 1970, é impossível não traçar paralelos com os dias atuais, seja pelo fato de David Duke seguir ativo, ou pela retomada da força do movimento nos últimos anos nos EUA. Lee sabe disso, e por esse motivo decidiu adaptar a história de Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso.

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Mas entre um “make America great again” aqui e ali, ele não se limita só a retratar a violência e preconceito da KKK, como também analisar a violência policial em relação aos negros, de dentro e de fora da força.

Esse não é um dos melhores filmes de Lee só por que tem relações com o presente e uma história que parece impossível. É um dos melhores por que é resultado direto da carreira do diretor até aqui. Além de Washington (filho de Denzel) e Driver, todo o elenco se destaca, não importa quão pequeno seja o papel.

Além disso, Jordan Peele, responsável por uma das melhores surpresas de 2017 com “Corra!”, é produtor do filme e foi o responsável por fazer a ponte entre Stallworth e Lee.

Não que o filme seja a prova de críticas. O diretor Boots Riley (“Sorry To Bother You”) foi um dos que avaliou mal a produção. Fã assumido de Lee, ele apontou como negativa a maneira como o filme coloca a força policial como “heróis”, enquanto nos dias de hoje pouco mudou na maneira racista como as autoridades lidam com a população negra.

Spike Lee, Topher Grace e Adam Driver
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Spike Lee, Topher Grace e Adam Driver

Lee evitou falar sobre os comentários de Riley, mas ele falou ao The Times que ao longo de sua carreira sempre criticou a maneira como a polícia trata os negros. “Mas, por outro lado, eu não vou dizer que todos os policiais são corruptos e que odeiam pessoas negras”.

E de fato, em “Infiltrado na Klan” as ações da polícia não são impunes. Ao tornar Ron Stallworth o “bom policial”, ele não está declarando que a força é sempre heroica, mas que essa ação específica desse grupo de policiais é. A própria presença de Stallworth da polícia local leva a diversas demonstrações de intolerância.

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Spike Lee dosou sua narrativa principal com muitos exemplos, de diferentes lugares, em relação ao racismo, que existia na época e perdura até hoje. Mas o fez sem querer cumprir uma agenda, e entregando um filme digno de um diretor consagrado. E é isso que deve, na próxima terça-feira (22) colocá-lo entre os melhores diretores quando os indicados ao Oscar forem anunciados.

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