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Plataforma de vídeos acolhe alguns dos maiores influenciadores digitais do Brasil. Veja o que os youtubers estão propondo com sua visibilidade

Você já deve ter visto por aí: uma pessoa mergulhada em uma banheira de Nutella, uma “trollagem” com algum parente, alguém tentando dar novos usos para uma ameba de brinquedo ou aceitando desafios como tacar fogo num formigueiro. De uns anos para cá, o número de youtubers cresceu exponencialmente, assim como a sua capacidade de inventar novas maneiras de ganhar seguidores.

Youtubers usam sua influência on-line para discutir temas relevantes, ampliar debates e derrubar tabus
Fernando Cycneiros / Reprodução Instagram
Youtubers usam sua influência on-line para discutir temas relevantes, ampliar debates e derrubar tabus

De acordo com uma pesquisa feita pelo Google com o Instituto Provoker, em 2017 das 10 personalidades mais influentes no Brasil, cinco foram youtubers . A ideia de falar ou fazer o que bem entender, sem filtros, usando um cenário simples e uma edição bem marcada acabou gerando uma longa lista de pessoas que decidiram colocar, literalmente, a cara na internet para dizer o que pensa.

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Essas pessoas foram acumulando seguidores, curtidas, fãs e se espalharam para outras mídias, publicando livros, participando de filmes e fazendo parceria com marcas para o lançamento de itens de moda e cosméticos.  Nesse meio, é possível destacar várias vertentes, como os que falam de temas específicos, como futebol, os comediantes, os que dedicam seu conteúdo para o público infantil, etc.

Dentro desse contexto, porém um novo grupo também ganhou destaque ao levantar temas relevantes que geram debates sociais. Em 2015 a publicitária carioca Julia Tolezano publicou um vídeo de oito minutos em seu canal no YouTube, “JoutJout Prazer”, onde falou sobre relacionamentos abusivos e como se livrar deles.

Em três anos o vídeo “Não Tira o Batom Vermelho” já tem mais de três milhões de visualizações e alçou Jout Jout a esse não tão seleto grupo de influenciadores. “Falar sobre os tabus da nossa sociedade é fundamental pra gente repensar nossas relações tóxicas”, explica Julia.

Nesse mesmo período, ela já publicou inúmeros vídeos falando sobre empoderamento feminino, masturbação, privilégio, além de tentar acabar com um dos maiores debates do século . “Na verdade eu levanto temas que as pessoas esqueceram, mas que é importante discutirmos sempre”, revela.

E foi assim que ela decidiu, em meio a um período eleitoral conturbado, iniciar uma série dedicada a entender política, chamada “Era Uma Vez um Voto”. “Eu sempre dizia que não discutia política. Até que não deu mais e eu precisei fazer alguma coisa a respeito e aprender como funciona esse mundo”, explica. Ela contou com a ajuda da amiga Ligia Stocche Barbosa para mostrar, de forma didática o que está acontecendo no Brasil agora e tentar ajudar a conscientizar a população. “Não dá pra não se envolver mais, não dá pra achar que não é com a gente”, completa.

Em outro canal na mesma rede, Felipe Castanhari foi por um caminho similar. Dono do “Canal Nostalgia” e um dos nomes entre os 10 maiores influenciadores de 2017, Castanhari foi buscar dos próprios candidatos as respostas para questões que seus seguidores consideravam essenciais para o Brasil como segurança, educação, economia e saúde. Com 15 segundos para cada um, os 13 candidatos foram contatados e a maioria enviou respostas para os temas. O vídeo, publicado no último dia 28 de setembro, acumula mais de três milhões de visualizações.

Para Jout Jout , não há como fugir do assunto: “o debate político está muito desgastado. A gente precisa renovar a cara da política, precisamos formar novas redes de articulação”, acredita.  

Youtubers ampliando o debate

Jout Jout decidiu criar uma série para entender política. Ela faz parte dos youtubers que buscam ampliar o debate sobre temas relevantes em seus canais
Reprodução/Instagram
Jout Jout decidiu criar uma série para entender política. Ela faz parte dos youtubers que buscam ampliar o debate sobre temas relevantes em seus canais

A política, devido ao período atual, acaba ganhando mais destaque. Mas existem muitos outros temas que têm ganhado vida on-line na busca de quebrar tabus – mesmo que essa não seja a intenção inicial. A drag queen Lorelay Fox, dona do canal “Para Tudo”,  conta que gostava de acompanhar canais do YouTube cujo conteúdo a faziam refletir, mas acreditava que, por ser drag queen, não conseguiria seguir o mesmo caminho.

“Eu achava que pessoas não iam ouvir. Meu plano era criar um canal para falar da vida de drag, maquiagem e aos poucos falar de temas de reflexão”, confessa. O primeiro vídeo que a colocou em destaque foi sobre as diferenças entre ser drag queen e ser transexual. “Aí percebi que a ideia de que pessoas não iam querer ouvir sobre temas reflexivos era um preconceito meu”, conta.

O canal, além de ser uma ferramenta para Lorelay falar sobre seu dia a dia e mostrar mais do universo drag, também serviu para aproximá-la dos seus amigos. “Sou drag há mais de 13 anos e sempre fui muito sozinho. Meus amigos nunca me entendiam e sempre achei que era uma vida solitária, mas depois do canal muita gente começou a me entender”, explica.

Hoje, ela se sente mais à vontade para falar sobre o que for, mas diz que tenta dosar os temas que publica. Se ela trata de assuntos mais pesados em uma semana, nas próximas aborda temas mais leves. “É importante a gente, como qualquer minoria, mostrar outro lado. Nossa vida não é só militância”.

A cineasta e youtuber Helen Ramos, conhecida como Hel Mother, seguiu o caminho oposto de Lorelay. Ela fez um vídeo para falar sobre maternidade e focou seu canal justamente em acabar com a romantização em torno do fato de ser mãe. Em seus vídeos, ela destacou a exaustão, as privações, as mudanças no corpo e hormonais, as dificuldades em educar um filho, entre outras coisas.

Depois de superar os 100 mil inscritos no canal, Hel decidiu diminuir o ritmo e já chegou a falar sobre as pressões que fazer vídeos on-line trazem. Hoje, ela segue falando sobre maternidade, mas mescla com outros temas, como indicação de filmes, músicas, vídeos sobre amor e, claro, desconstruir padrões e abrir espaço para diálogo.

Regras: não há regras

Lorelay Fox estourou entre os youtubers ao falar sobre as diferenças entre trans e drag queens
Tricia Vieira/ Divulgação
Lorelay Fox estourou entre os youtubers ao falar sobre as diferenças entre trans e drag queens

A regra para usar a internet é basicamente: não há regras. O ambiente é democrático e, em meio a tantas fake news e comportamentos ofensivos, há também muito conteúdo bom, para quem quer se informar, se aprofundar sobre temas desconhecidos e entender o que é diferente. “há espaço para tudo e todos” acredita Jout Jout. “Claro que é importante a gente falar de coisas mais sérias. Mas acho que a internet proporciona essa diversidade, tem espaço pra tudo, felizmente ou infelizmente”, completa.

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Lorelay corrobora esse pensamento: “a gente não pode cobrar das pessoas um posicionamento que não se sentem confortáveis em ter e não tem propriedade. Em um mundo ideal todo mundo se posicionaria a respeito de pautas relevantes”, acredita ela. Ela, no entanto, pondera: “A única coisa que podemos cobrar é não ser mau exemplo”.

Os maus exemplos estão lá, e vão continuar enquanto tiver público para eles. Mas alguns youtubers também estão dedicados a dar bons exemplos e ajudar no diálogo sobre temas relevantes que, quer queira quer não, fazem parte da nossa sociedade.

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