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Filme que entra em cartaz neste fim de semana nos cinemas brasileiros é um dos últimos trabalhos do ator, que morreu em setembro deste ano

Harry Dean Stanton , morto em setembro deste ano, tem 200 créditos como ator e em 2017, além de uma aparição no revival de “Twin Peaks” apresentou seu carisma, sutileza e talento neste delicado “Lucky”. Há ainda outro filme com ele para ser lançado em 2018, mas de alguma maneira é esta pequena joia do cinema independente americano o seu testamento cinematográfico.

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Harry Dean Stanton em cena de Lucky, já em cartaz nos cinemas brasileiros
Divulgação
Harry Dean Stanton em cena de Lucky, já em cartaz nos cinemas brasileiros

Stanton vive com a habitual discrição e ambivalência o Lucky do título, que ganhou este apelido por ter servido na 2ª guerra mundial como cozinheiro em um navio da marinha americana. O personagem tem uma rotina regrada e vive só em uma dessas regiões desérticas da imensidão do meio oeste americano.

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Certo dia Lucky desmaia e o incidente lhe enseja uma série de reflexões sobre a moralidade, que devido à alta idade (ele já é nonagenário), se avizinha. Do médico que desistiu de recomendar a ele para parar de fumar (“É capaz de se parar de fumar isso te fazer mal”) às conversas com um advogado que vende seguros de vida, passando pelas conversas existenciais com um amigo – vivido por David Lynch – sobre o cágado fujão dele, todas as circunstâncias são oportunas para tergiversações por parte de Lucky.

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Há muitas belezas no filme que é carinhoso com seu protagonista, dono de um humor seco. Uma delas é a maneira como aborda a ideia da finitude. Por trás da simplicidade dos diálogos, há muita fibra e emoção. Como no momento em que Lucky compartilha memórias da segunda guerra com outro veterano, ou ainda quando o personagem de Lynch amadurece um ponto de vista a respeito da razão da fuga de seu cágado.

O hábito de fazer palavras cruzadas oferta outro alento dramático ao filme. A relação semântica de Lucky, e dos personagens que o gravitam, com suas circunstâncias e possibilidades. A ordem filosófica estabelecida pelo filme transcende serenidade e compaixão. Um filme que se embevece da face cansada e do corpo gasto de Stanton, que dá uma dimensão humana tenra e singular à produção. Tal sinergia garante ao filme de John Caroll Lynch – ator estreando na direção – um predicado irreproduzível.

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