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Inspiração em Roberto Carlos, Carmen Miranda, vaias e tomates e muitos outros acontecimentos marcaram o período conhecido como Tropicalismo

Em uma noite em 1967, reunidos em um festival , um grupo de artistas brasileiros podia não saber, mas estava prestes a revolucionar a música e a cultura brasileira. Foi naquele outubro de 67, no Festival da Música Brasileira que começou o movimento conhecido como “Tropicália”. Durou pouco tempo, mas foi o suficiente para marcar uma geração e um período importantíssimo no Brasil, onde a ditadura acirrava cada vez mais as produções artísticas, mantendo um olho em tudo o que era criado.

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A Tropicália foi um movimento que revolucionou a cultura brasileira. Na música, foi representada por Jorge Ben Jor, Os Mutantes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Nara Leão
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A Tropicália foi um movimento que revolucionou a cultura brasileira. Na música, foi representada por Jorge Ben Jor, Os Mutantes, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Nara Leão

Por isso é de se espantar que em cerca de dois anos (entre 1967 e 1969) a produção cultural desse movimento tenha sido tão prolífica. Música, cinema, teatro, obras de arte. Por todos os lados, artistas se uniram nesse movimento que confrontava os costumes tradicionais e a Bossa Nova, até então maior movimento musical no Brasil. A Tropicália começou meio sem querer, meio de propósito, com a reunião de artistas Caetano Veloso , Gilberto Gil, Gal Costa , Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista , Nara Leão , Glauber Rocha e Hélio Oiticica . Por um período de cerca de dois anos, o movimento transformou as manifestações artísticas brasileiras, até a prisão e consequente exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil , que marca o início do fim do movimento. Mas, mesmo que curto, o período foi muito efervescente e cheio de acontecimentos. Por isso, reunimos 10 curiosidades sobre a Tropicália que você acompanha a seguir:

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1- Maria Bethânia, a excluída

A irmã de Caetano Veloso eternizou em sua voz diversas músicas do período, como “Janelas Abertas e “Tua Presença Morena”. Porém, Bethânia nunca chegou a ser porta-voz do movimento, mesmo citada pelo irmão como uma das criadoras do Tropicalismo. A cantora preferia não seguir nenhum estilo específico, ficando livre para cantar o que bem entendesse. “Não gosto de nada que me amarre”, chegou a dizer em entrevistas. Ficou de fora do Tropicalismo, mesmo participando dele.

2- A inspiração em Robertos Carlos  

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"Tropicália ou Panis Et Circenses" reuniu os maiores nomes do movimento Tropicalista

Mesmo não sendo uma representante da Tropicália , Bethânia foi ativa na música no período, além de ajudar o irmão a dar o pontapé inicial para o movimento. De acordo com Caetano Veloso e a própria Bethânia, ela incentivou o cantor a ouvir, entre outras coisas, Roberto Carlos . Sua sugestão era que Caetano expandisse seus horizontes e não ficasse tão focado na Bossa Nova ou no cancioneiro tradicional. Conhecer o trabalho de Roberto foi essencial para que Caetano repensasse sua maneira de fazer música. Com essa desconstrução, Caetano se viu criando algo novo, cheio de influências. Assim surgiu, por exemplo, “Alegria, Alegria” , que abriu as portas para a Tropicália.

3- Uma noite em 67

A palavra “Tropicália” foi cunhada por Hélio Oiticica em uma obra apresentada em 1967 no MAM no Rio de Janeiro. Mais tarde no mesmo ano ocorreria a terceira edição do festival de Música Brasileira na Rede Record. Foi lá que tomou forma a Tropicália, por meio, justamente, de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, que ficou na quarta posição na premiação final. O evento, chamado de “festival da virada”, teve outra música significativa para o movimento: “Domingo no Parque”, cantada por Gil e Os Mutantes . As faixas eram uma mistura de referência, incluindo as guitarras elétricas dos Mutantes e os arranjos do maestro Rogério Duprat. Essa noite ficaria marcada como o início da Tropicália.  

O festival, porém, foi tão rico e tão representativo que teve outros grandes nomes e outras grandes músicas que nada tinham a ver com o movimento capitaneado por Gil e Caetano. Chico Buarque , por exemplo, apresentou “Roda Viva” na ocasião, enquanto o grande vencedor da noite foi Edu Lobo com “Ponteio”. Essa grande noite da música nacional foi eternizada no documentário “Uma Noite em 67”, de Renato Terra e Ricardo Calil.

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4- Tico-tico no Fubá

Apesar de ser um símbolo nacional, principalmente fora do Brasil, Carmen Miranda dividiu opiniões. Para uns, ela criava um estereótipo falso e simplório do brasileiro para as audiências estrangerias. Para outros, foi representante da cultura nacional no exterior. Caetano Veloso, inicialmente, considerava que outros artistas eram mais merecedores do reconhecimento internacional de Miranda. Porém, com a Tropicália, ela passou a ser uma representação do movimento, menos por seu significado cultural ou artístico, e mais pela estética mesmo. A imagem “tropical” de Carmen Miranda veio a calhar com a mistura brasileira que nascia e ela foi evocada, inclusive, na faixa “Tropicália”, de Caetano Veloso.

5- Novos conhecimentos

Pôster de
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Pôster de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", feito por Rogério Duarte

Essa pequena curiosidade foi descrita no documentário “Tropicália”, de Marcelo Machado. Em seu filme, ele entrevista os principais representantes do movimento que, além dos nomes já citados, incluiu ainda Rogério Duarte , designer e ilustrador que fez capas de discos e até o famoso pôster de “Deus e o Diabo na terra do Sol”, de Glauber Rocha . Outro personagem do documentário é Torquato Neto, poeta e letrista, autor de diversas músicas do período. Em uma passagem do longa, ao falar sobre Torquato, Duarte “entrega” que foi Torquato quem apresentou maconha pela primeira vez a ele e Gilberto Gil. Realmente, o período foi cheio de novas experiências.

6- Loucura, Loucura

Parte do que fez o período tão intenso foi o anseio do público por uma classe artística que os representasse. Isso não significava unanimidade. Não é de hoje que os conflitos políticos interferem na criação artística. A Tropicália não surgiu com a intensão de ser um movimento político, mas também não pode se afastar disso, dado o contexto do país. Em meio a isso, Caetano e Gil foram convidados para um debate sobre o tropicalismo na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP. Mas, ao chegarem lá, se depararam com uma plateia hostil, que os recebeu com vaias. Gil reconta, no “Tropicália”, sobre como foi difícil falar na ocasião, por conta da gritaria do público. Eles chegaram a atirar bananas e bombinhas nos artistas.

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7 – Tomates

Cerca de um ano depois do terceiro Festival de Música Brasileira, os tropicalistas causariam impacto mais uma vez em um festival. Dessa vez, tratava-se do FIC, Festival Internacional da Canção. Caetano apresentou “ É Proibido Proibir ” e foi recebido por vaias da plateia. Acompanhado d’Os Mutantes, ele subiu ao palco com suas vestimentas nada convencionais e juntos fizeram uma apresentação elétrica. O público não os poupou e jogou tomates, ovos e pedaços de pau no palco. Caetano então, fez um discurso acalorado: “Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. (...) Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker!” declarou Caetano.

8 – Mutantes

O grupo formado por Rita Lee , Arnaldo Baptista e Sérgio Dias era um caso a parte. Influenciados por Beatles, Jimmy Hendrix e outros nomes do rock internacional, eles foram os grandes percursores do estilo no país, sem deixar de lado as raízes brasileiras, o que os fez tão essenciais para a Tropicália. Além de participarem de “ Panis et Circenses ” disco que reuniu artistas e músicos do período, eles participaram de grandes momentos do movimento citados acima. Estavam, inclusive, no show na boate carioca Sucata em 1969, onde a censura determinou que a bandeira e o hino brasileiros estavam sendo violados, e prendeu Gilberto Gil e Caetano Veloso, fato que acabaria com a Tropicália .

9- Divino, Maravilhoso

Roberto Carlos, junto com  Erasmo Carlos  e Wanderléia, teve vários programas de TV nos anos 1960, onde apresentava os maiores sucessos da Jovem-Guarda. Não demorou muito, então, para que Caetano e Gil fossem contemplados com um espaço na TV. “ Divino, Maravilhoso ”, ficou no ar por apenas três meses na TV Tupi, mas foi o suficiente para causar impacto. No cenário, um quadro informava: “Aqui jaz o  Tropicalismo ”. Talvez eles ainda não soubessem, mas esse era o começo do fim do movimento. Sem roteiro e sem filtro, eles faziam o que bem entendiam na TV, o que gerava uma série de reclamações na emissora. O programa finalmente deixou de ser transmitido depois que Caetano cantou uma música com um revólver apontado para sua cabeça.

10 – Êxito no exílio

Caetano Veloso durante o exílio no Festival Isle of Wight
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Caetano Veloso durante o exílio no Festival Isle of Wight

Depois de ficarem presos por dois meses, Gil e Caetano voltaram para a Bahia, onde serviram prisão domiciliar. Ao fazer um acordo com o governo, os dois foram expulsos do Brasil e viveram como exilados em Londres. “Eu quis voltar para o Brasil no momento que eu sai”, comentou Caetano anos depois. Isso não significa que seu tempo na Inglaterra não tenha sido frutífero. Em 1970 eles visitaram o Festival da Ilha de Weight, junto com Gal Costa e outros tropicalistas. Eles acabaram subindo ao palco e fazendo uma inusitada apresentação, que incluiu pandeiros, versões de músicas em inglês., aprenestando a Tropicália para os gringos.

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