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Diretor de “Traffic” (2000) e “Onze Homens e um Segredo” (2011) retorna com um filme de assalto modesto, mas que tira seu vigor dos personagens muitíssimo bem desenhados. Channing Tatum e Daniel Craig estrelam

Steven Soderbergh volta de sua aposentadoria fajuta (ele na verdade nunca se afastou do ofício) com um filme divertido e despretensioso, mas que de alguma maneira se conecta com seu espaço-tempo, com uma América que tem Donald Trump na Casa Branca e que parece padecer no desencanto e desalento. “Logan Lucky – Roubo em Família” é tanto um filme de assalto como uma comédia de erros.  O cineasta já havia feito ambos, “Onze Homens e um Segredo” (2001) e “O Desinformante” (2009) são exemplos óbvios em ambas as esferas.

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Adam Driver e Channing Tatum em cena de Logan Lucky
Divulgação
Adam Driver e Channing Tatum em cena de Logan Lucky

O roteiro de “Logan Lucky” busca referências tanto no cinema dos irmãos Coen, repare no desenho dos personagens, típicos caipiras da Carolina do Norte cheios de crendices e certezas vazias, e no cinema independente americano – há todo um subplot extraído de “Pequena Miss Sunshine” que dá mais força dramática ao protagonista.

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Jimmy Logan ( Channing Tatum ) tinha tudo para ser um astro do futebol americano, mas uma lesão no joelho fez de seu futuro imperfeito. Pobre e endividado, viu sua namoradinha do colégio (Katie Holmes) casar-se com um ricaço local e mesmo alvo do amor incondicional de sua filha (a fofinha Farrah Mackenzie), Jimmy leva uma vida triste e modorrenta. Seu irmão, Clyde (Adam Driver), perdeu a mão na guerra do Iraque e é bartender em um bar local. Clyde credita o infortúnio dos Logan a uma maldição que ronda a família. Há, ainda, Mellie (Riley Keough), a irmã que aparentemente evitou a maldição, mas trabalha em um salão de beleza local e parece insuspeitamente resignada.

Os irmãos Logan resolvem fazer um assalto, mas eles não são assaltantes. O plano, revelado em doses homeopáticas para o público – e com direito a alguns ludíbrios – é surpreendentemente profissional. Mas o filme se mantém dentro de uma espiral de verossimilhança.

Katie Holmes em cena de Logan Lucky, já em cartaz nos cinemas brasileiros
Divulgação
Katie Holmes em cena de Logan Lucky, já em cartaz nos cinemas brasileiros

O humor é lacônico e Soderbergh sabe trabalhar os ressentimentos dos personagens, de uns com os outros e com eles mesmos, de maneira sutil e fazendo com que o filme ganhe inesperada força dramática. É um recurso de um cineasta que mesmo a serviço da despretensão, se preocupa com seus personagens – não à toa amealha para um filme barato um elenco que ainda dispõe de Daniel Craig (um pouco deslocado), como Joe Bang, um arrombador de cofres inesperadamente articulado, e Hillary Swank, como uma detetive do FBI. Há, ainda, pontas de gente como Seth McFarlane, Katherine Waterson, Sebastian Stan e uma espirituosa piada com “Game of Thrones”.

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Daniel Craig tem carisma, mas sua caracterização de Joe Bang soa deslocada
Divulgação
Daniel Craig tem carisma, mas sua caracterização de Joe Bang soa deslocada

O filme poderia seguir um caminho mais alternativo, doloroso para os personagens e totalmente anti-hollywoodiano. Soderbergh evita esse caminho, mas sem deixar de optar por um otimismo doído. Em meio a personagens rebuscados em sua caricatura, “Logan Lucky” parece se divertir com sua esquisitice, mas ao abraçar certos clichês renuncia ao filme que poderia ser. Talvez fosse essa liberdade de ir e vir na própria narrativa que Soderbergh estivesse procurando. Seu filme, para o bem ou para o mal, se alinha ao estigma de seu protagonista. É tanto uma sutileza quanto um ato de abnegação da realização e a reiteração do carinho do diretor para com seus personagens.

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