Tamanho do texto

Mais polarizante do cinema em anos, "mãe!" é também o filme mais importante de 2017 e o que indica um futuro para os estúdios de cinema

Está em cartaz nos cinemas brasileiros um dos filmes mais polarizantes da década e, precisamente pelas mesmas razões, um dos mais importantes da mesma janela temporal. “mãe!” tem provocado reações extremas e intensamente opostas. Gente saindo do cinema e críticos o taxando como o pior filme já feito são algumas das reações postas. Outras dão conta de exclamar a produção de Darren Aronofsky como o sopro de criatividade e autoralidade que o cinemão precisa.

Leia também: Orgia testamental de Aronofsky, "mãe!" é cinema em quem busca sentido em quem o assiste

Jennifer Lawrence em cena do polêmico e polarizante mãe!, já em cartaz nos cinemas brasileiros
Divulgação
Jennifer Lawrence em cena do polêmico e polarizante mãe!, já em cartaz nos cinemas brasileiros

A palavra “cinemão” é ponto-chave da questão porque “mãe!” é um filme de estúdio. Por mais incrível que possa parecer, a produção filmada em um único set, com um punhado de atores e dotada de alegorias que alienam o público médio é um filme bancado por um estúdio de cinema, no caso a Paramount Pictures .

Leia também: “Gaga - Five Foot Two” expõe uma mulher frágil por trás da máscara de Lady Gaga

A Paramount, que vem de sucessivas temporadas no vermelho e que viu “Transformers: O Último Cavaleiro” , sua grande aposta de bilheteria para 2017, render bem menos do que o esperado, investiu pesado na divulgação do filme que custou cerca de US$ 33 milhões para ser feito.  A premiere no festival de Veneza e a vinda de Darren Aronofsky ao Brasil foram parte dessa campanha promocional que vendeu “mãe!” como um filme de terror psicológico.

Cartaz americano de mãe! que expõe toda a polarização em torno do filme
Divulgação
Cartaz americano de mãe! que expõe toda a polarização em torno do filme

O debate superficial acerca do filme é “que merda está acontecendo na tela”? Isso ocorre porque o filme parece objetivar existir apenas em suas alegorias. Subtraindo-as, há pouco para ser apreciado. O delírio estético proposto por Darren Aronofsky é incômodo e está alinhado a uma percepção de que cinema não existe apenas para entreter, mas para estimular a reflexão também.

Ótimo ensejo, por sinal, do grande debate provocado pelo filme. Não é de hoje que a crítica especializada se queixa da falta de investimento no risco, no original, em ideias pouco convencionais. Em uma Hollywood pautada por franquias, adaptações de outras mídias e aversões ao risco, “mãe!” é realmente um corpo estranho. Mas por que público e indústria reagem da maneira como reagem ao filme?

É preciso entender que Hollywood atravessa um momento de transição. O público dá sinais de estafa do mesmo cardápio de blockbusters nos multiplexes. Além do mais, a Netflix virou um importante player e está convencendo as pessoas a ficarem em casa quando não há opções atraentes no cinema. Não à toa, quando a Paramount emitiu uma nota defendendo o filme em face de todo o criticismo do qual foi alvo citou o fato de que se tivesse sido feito pela Netflix, “mãe!” estaria sendo louvado pela ousadia e desprendimento.

Não há ponto sem nó nessa indústria. Darren Aronofsky abandonou as filmagens de “Wolverine Imortal” (2013) há alguns anos por não ter liberdade para fazer o filme que queria. A mesma liberdade que James Mangold, que assumiu no lugar de Aronofsky, teve para rodar “Logan”, lançado no início do ano e tido como o melhor filme da franquia mutante até a data. Aronofsky agora contou não só com liberdade absoluta para fazer “mãe!” como com uma das estrelas da atualidade, Jennifer Lawrence , que durante as gravações se tornou, também, sua namorada.

Javier Bardem, uma espécie de alegoria divina no delírio estético de Aronofsky
Divulgação
Javier Bardem, uma espécie de alegoria divina no delírio estético de Aronofsky

A Paramount está experimentando o terreno e pode estar à frente da curva. É claro que, como em qualquer negócio, a ideia é ganhar dinheiro. Os estúdios precisam desenvolver alternativas ao marasmo dos blockbusters e reagir ao avanço do streaming e a aposta em produções como “mãe!”, atendendo um velho anseio da crítica, pode ser um caminho.

Todo o debate provocado pelo filme – e a remota possibilidade de emplacar na temporada de premiações – já pagam o investimento. Ainda que a bilheteria acuse certo prejuízo.  O grande feito do filme, no entanto, foi resgatar o cinema como palco de discussões filosóficas para além do escopo de festivais e rodinhas cinéfilas.