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José Eduardo Agualusa faz homenagem à revolucionários angolanos e crítica governo ditatorial do país em "A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários"; com estilo dinâmico e moderno, livro adapta-se bem a realidade moderna

Escorado na tensa realidade angolana com um suspiro de fantasia, “A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários” narra o encontro de quatro personagens distintos que de princípio não tem ligação entre si, mas conectam-se através dos sonhos. O que era um fenômeno isolado se transforma no ideal de libertação de uma nação que termina em um desfecho que estilhaça o universo onírico e retoma a realidade concreta como se nada passasse de um delírio coletivo.

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Livro ''A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários'' defende ideal de libertação democrático e crítica corrupção
iG São Paulo
Livro ''A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários'' defende ideal de libertação democrático e crítica corrupção


Sonhadores involuntários

Ligados através de seus sonhos enigmáticos, Daniel Benchimol, Hossi Kaley e Moira Fernandes tendo suas realidades cruzadas. O jornalista Daniel revela à Hossi que o viu em um de seus sonhos e o hoteleiro lhe diz que, pelo menos no passado, tinha a habilidade de caminhar por dentro do inconsciente das pessoas. Moira, artista plástica, é outra figura que frequenta a cabeça de Daniel enquanto este está a dormir. Partindo dessa premissa, “A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários” é uma obra que tem um leve sabor do realismo fantástico, em que o absurdo é tão natural quando a poeira da terra que recobre o chão, mas ao mesmo tempo – e paradoxalmente – é uma fábula política que se agarra ao contexto conflituoso de Angola que extrapolar as margens do livro .

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A política é o pano de fundo da história de basicamente todos os personagens. Hossi lutou pela independência do país no passado, Daniel foi vítima de repressão por seus artigos e sua filha faz parte dos “revus”, grupo que crítico ao governo despótico que entra em greve de fome como forma de protesto pacífico. Assim, a narrativa rapidamente se enrosca no complexo cenário político de um país que vive sob forte repressão e passa por uma crise de direitos humanos. Essa referência em mãos é fundamental para compreensão do estilo do livro – que salta de uma obra fictícia e passa a representar um ideal de resistência.

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José Eduardo Agualusa constrói uma ode à revolução. Seus personagens são heróis, no sentido mais clássico que a palavra pode ter, são aqueles que opõem-se ao governo corrupto de Angola e o combatem. O delírio coletivo de uma nação inteira induzido através dos sonhos é o estopim da revolta contra o presidente do País e reforça o ideal defendido pelo autor da salvação vinda de baixo para cima, colocando as pessoas nas ruas em um surto de renovação ansiando a retomada da democracia.

Em cima do muro

José Eduardo Agualusa defende revolução no livro ''A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários''
Wikimedia Commons
José Eduardo Agualusa defende revolução no livro ''A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários''

“A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários” fica em cima do muro e não se decide sobre sua natureza: afinal, é uma obra de ficção utópica ou um ato de resistência política? A crise a qual faz referência aconteceu em 2015, então o espaço entre os fatos diminui a força que possa ter como uma crítica nesse aspecto. Com pontas soltas nesse aspecto falta aprofundamento no quesito na realidade que se estende para além do livro. Falta uma consolidação mais densa tanto no sentido ligar ficção e realidade quanto no de fazer com que a obra seja completa por si mesma.

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Por outro lado, o estilo de Agualusa é dinâmico e, mesmo para os leitores desavisados das referências, consegue causar uma sensação nítida de realidade. Em questão de ritmo o autor acertou em cheio: a narrativa segue naturalmente o seu curso sem que nada fique fora de seu lugar. A mistura espontânea de e-mails, memórias, sonhos, diálogos, e cartas traduz com certa sutileza o foco disperso da comunicação contemporânea. “ A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários ” é um livro atual e capta a fluidez com que as coisas acontecem, sendo uma boa atualização do gênero literário adequada à velocidade da modernidade.