Tamanho do texto

Com altos e baixos, 15ª edição da Flip conseguiu assegurar espaço para o debate social com destaque para questões de raça e gênero na programação

Com um orçamento bem mais baixo que edições anteriores – durante coletiva a curadora Josélia Aguiar citou que tiveram R$ 1 milhão a menos que ano passado – a 15ª edição da Flip certamente se destacou por privilegiar a diversidade em sua programação composta majoritariamente por mulheres e com um terço de negros, mas algumas mesas e debates deixaram a desejar, extrapolando o assunto que de fato levou milhares de pessoas à Paraty, ou seja, a literatura . Listamos cinco momentos da Flip que foram os destaques desse ano.

Leia também: Mais tradicional e menos pop, Flip 2017 foca na diversidade e investe no debate

Revivendo Lima Barreto


O autor homenageado desse ano na Flip foi Lima Barreto e boa parte da programação foi pensada de forma a contemplar boa parte de sua obra e vida. Concebida a partir da biografia recém-lançada da pesquisadora Lilia Schwarcz, “Lima Barreto – Um Triste Visionário”, a abertura concedeu ao ator Lázaro Ramos a incumbência de “reviver” trechos dos escritos do autor entrelaçados com fragmentos de sua história pessoal que foram recuperados pela historiadora.

Barbárie da guerra

Mesa da autora Scholastique Mukasonga sobre o genocídio de Ruanda foi um dos grandes destaques da Flip
Divulgação
Mesa da autora Scholastique Mukasonga sobre o genocídio de Ruanda foi um dos grandes destaques da Flip

Na mesa “Em Nome da Mãe”, composta pela brasileira Noemi Jaffe e pela ruandesa Scholastique Mukasonga – que foi a segunda mais vendida dessa edição, atrás apenas de Lázaro Ramos – abordou a memória e os horrores que a guerra pode representar para uma pessoa. Sobrevivente do genocídio que tirou a vida de suas irmãs e sua mãe, Scholastique relata em seus livros sua visão sobre a barbárie pela qual passou em seu país natal. Já Noemi explora a vivência de sua mãe como judia durante a Segunda Guerra Mundial: “eu como escritora preciso lembrar o que ela quer esquecer”, comentou.

Leia também: Como a Flip se tornou polo de atração de autores internacionais?

Multifacetada

Viúva de José Saramago e atual presidente do instituto que leva o nome do falecido, Pilar del Rio foi uma das atrações mais celebradas desse ano na Flip. Sua mesa “Na Contracorrente” originalmente contava com a participação da arqueóloga Niéde Guidon, que não pôde participar por questões de saúde. Apesar do desfalque, a espanhola que é jornalista, ativista e tradutora fez valer sua participação. O machismo que resulta em uma “ditadura dos homens” e os diretos humanos foram os pontos centrais de sua fala na Igreja da Matriz. “As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra”, disse a escritora.

Roubando a cena


Foi do meio do público que um dos momentos mais marcantes da Flip brotou: durante debate da Flipinha, Diva Guimarães, professora aposentada de 77 anos tomou a palavra para si e fez um emocionante desabafo sobre racismo. Arrancando lágrimas e aplausos do público, Diva falou sentir na pele o fardo de sua raça em uma sociedade que a discrimina. O vídeo com o depoimento da professora que apresenta a educação como cura para a ignorância do racismo já foi assistido mais de 10 milhões de vezes na página oficial do evento no Facebook. “Obrigada pela coragem de compartilhar sua história com a gente”, disse Lázaro Ramos, convidado da mesa, no final da fala de Diva.

Leia também: Grande obra de Lima Barreto é fio condutor da Flip 2017

Racismo na literatura

Na edição de 2016 da feira literária Conceição Evaristo fazia parte da programação paralela e levantou a questão da ausência de negros nas mesas centrais da Flip. Esse ano a autora foi uma das convidadas de maior destaque e sua participação foi amplamente aplaudida. “Esse momento significa a comprovação da força coletiva. Não estou aqui sozinha. E não podemos deixar de afirmar que não foi concessão. Esse lugar é nosso por direito”, disse a escritora. Falando sobretudo de racismo, Conceição Evaristo ressaltou episódios em que o preconceito é latente e comparou Clarice Lispector com Carolina Maria de Jesus.