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Em meio a álbuns tão diferentes, Siso e Geo, dois dos nomes mais promissores do gênero no Brasil, falam como é fazer um disco pop em 2017

Três álbuns pop marcaram os sete primeiros meses de 2017: o grandioso "Witness", de Katy Perry ; o ótimo "Melodrama", de Lorde ; e o aguardado "Hopeless Fountain Kingdom", de Halsey . As diferenças estéticas e, principalmente, de resultados levantam uma questão: afinal, como é fazer um álbum pop em 2017?

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Katy Perry lançou o álbum
Divulgação
Katy Perry lançou o álbum "Witness", que deveria ter sido o grande disco pop do ano, mas não deu muito certo

Dois dos nomes mais promissores do pop brasileiro estão passando por esse desafio na pele. A paulista Geo e o mineiro Siso estão prestes a lançar seus novos trabalhos e pensando em como fazer um bom produto do gênero nos dias de hoje. "Acho que o principal desafio artístico ao produzir um álbum pop é fazer algo que reflita e sintetize o seu tempo de uma forma consistente e acessível. Essa combinação não é nada fácil", explicou Siso ao iG .

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Para Geo, seu maior desafio é bem particular aos artistas brasileiros. "Eu acho que o maior desafio ainda é a letra em português. As pessoa associam muito esse tipo de som a letras em inglês e às vezes deixam de ouvir ou não gostam simplesmente porque não estão acostumados", disse a cantora, que deve lançar seu próximo EP em outubro.

Mesmo sendo considerado universal por muita gente, o pop brasileiro é de fato bem diferente do americano. "O americano, apesar de ser melhor produzido, ainda é muito engessado. O brasileiro é muito mais criativo na hora de criar. A nossa matéria-prima musical é muito rica e nos possibilita muitas misturas de som", explicou a artista. Ela acredita que as misturas entre ritmos regionais ajuda os brasileiros.

"O nosso pop sempre esteve aberto a ritmos mais complexos e sincopados por conta da influência africana. Fora isso, também tem toda a influência melódica que vem da nossa colonização ibérica. Até hoje dá pra notar traços do fado e das culturas flamenca e árabe em vários gêneros musicais daqui, ainda que transmutados em coisas muito diferentes", dissecou Siso. "O padrão rítmico do pop americano tende a fixar numa coisa mais reta, sem síncope, por conta da influência das danças de salão europeias que os colonizadores levaram pra lá e devido às leis que proibiam o uso de tambores em cerimônias na época da escravidão. Daí você vê a cultura africana se manifestando por lá de maneiras diferentes: pelo gospel, pelo blues e pelo rock, e ainda assim sofrendo vários apagamentos no caminho", continuou.

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Siso, projeto do mineiro David Dines, é um dos nomes mais excitantes do pop brasileiro
Divulgação/João Viegas
Siso, projeto do mineiro David Dines, é um dos nomes mais excitantes do pop brasileiro

O músico, que vai lançar seu álbum "Saturno Casa 4" ainda neste ano, vê o sucesso de Anitta como uma forma de mudar o pop no Brasil. "Acho que [muda] de várias formas. Uma delas é mostrando pra uma parcela do público que o pop não é só aquilo que descende diretamente de uma estética estrangeira. O funk carioca pode ser considerado pop, assim como o sertanejo e vários outros tipos de música popular daqui", explicou. "O sucesso de Anitta e outras artistas tirou uma camada de pose que havia no título 'pop' no Brasil e o transformou em algo mais acessível, cotidiano, vibrante. E também mostrou que o funk carioca, que é tão estigmatizado historicamente por aqui, também pode ecoar pelo mundo todo e ser respeitado no mainstream internacional."

Diversidade

Mas não é só a regionalização que torna o pop diverso. Lorde, Katy Perry e Halsey apresentaram três trabalhos bem diferentes neste ano, cada um caminhando para um lado. Tanto para Siso quanto para Geo, essa diversidade é algo inerente ao gênero.

"Acho que o pop sempre foi diverso como agora, mas de maneiras diferentes, porque as gerações vão mudando e sendo influenciadas por coisas distintas. O pop dos anos 1990 também era muito diverso: tinha o punk pop, o R&B e as boy/girl bands convivendo em um mesmo momento, por exemplo. São capítulos diferentes de um mesmo livro", disse o mineiro. "Às vezes uma coisa se torna mais hegemônica do que as demais em certo período, mas isso não significa que não haja diversidade o tempo todo", explicou.

Se nos anos 1990 as rádios eram dominadas por nomes como Britney Spears, Madonna, Spice Girls e Backstreet Boys, hoje são artistas mais próximos ao hip-hop que dominam as paradas. Para Geo, isso não signifca que o pop esteja em crise. "A música se reinventa sempre. Eu acho muito enriquecedor esse processo de conseguir evoluir seu som, mas ao mesmo tempo tornar ele acessível sem perder sua essência. Eu acho que a Madonna faz isso muito bem", disse.

"O estabelecimento de megastars monolíticos e inevitáveis como Madonna e Britney representavam um momento de hegemonia da cultura americana em todo o mundo, e também de grande prosperidade do mercado fonográfico. Hoje a gente vive um momento completamente fragmentado, com uma crise identitária que permeia o mundo todo e perpassa questões sociais, políticas, culturais e econômicas", corroborou Siso. "A indústria fonográfica vem se restabelecendo com o streaming, mas o modelo de negócio mudou bastante desde então."

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A cantora Geo vai lançar seu próximo EP em outubro
Divulgação
A cantora Geo vai lançar seu próximo EP em outubro

Fazer um álbum pop em 2017 talvez não seja muito diferente de fazer um disco do gênero nas décadas passadas. O importante é entender o que o pop representa para essa nova geração. Isso deve ser algo que também vai moldar o futuro do gênero. "Espero que o pop continue refletindo sua época sem perder a relevância diante das transformações do mundo", disse Siso. E, no Brasil, essa evolução passa pela língua. "No Brasil, eu espero mais música pop em português. A diferença é gritante, sabe? O diálogo que você tem com as pessoas que ouvem o seu som é infinitamente mais sincero", garantiu Geo.

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