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Produção que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas brasileiros mostra intensificação de desejo deslocado entre pai e filha em vila remota do Sul

O primeiro longa-metragem de Cristiane Oliveira é daqueles filmes que se assentam sobre a sutileza para tratar de temas frequentemente espinhosos. Aqui a matéria-prima é a solidão, mas gravitada por temas delicados que revolvem, por exemplo, o complexo de Electra, o choque entre o moderno e o arcaico e por aí vai. Pode parecer muito para se discutir em um longa-metragem de hora e meia, mas o que agrega valor a “Mulher do Pai” é justamente seu desembaraço para sugerir. É um filme de tato.

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Cena do filme Mulher do Pai, que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (22)
Divulgação
Cena do filme Mulher do Pai, que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (22)

Estamos em uma vila rural no Rio Grande do Sul, onde impera a cultura do gado. Ruben (Marat Descartes) é cego e além da parca aposentadoria, vive da tecelagem. Ele mora com a mãe (Amélia Bittencourt) e a filha Nalu (Maria Galant), de 16 anos. Após a morte da mãe, Ruben fica desemparado e ensaia uma aproximação da filha. É a partir desse conflito que “Mulher do Pai” vai tateando os receios, angústias e desejos de seus personagens.

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O filme se passa na fronteira entre o Brasil e o Uruguai e Cristiane Oliveira valoriza essa condição. As fronteiras aqui alternam valores subjetivos e objetivos e é justamente a professora Rosário, vivida pela ótima atriz uruguaia Verónica Perrotta, a catalisadora dessas bifurcações. Professora de Nalu, ela é trazida para a intimidade do lar pela garota que teme os efeitos do viés depressivo do pai, mas essa convivência vai precipitar profundas transformações nos personagens. Transformações necessárias, mas que talvez sem a presença de Rosário, levassem mais tempo para serem elaboradas.

Rosário e Nalu conversam em cena de Mulher do Pai
Divulgação
Rosário e Nalu conversam em cena de Mulher do Pai

O grande mérito do filme de Oliveira está na delicadeza da interposição das demandas desses três personagens extremamente solitários e que enxergam uns nos outros uma tábua de salvação. Nesse escopo, Oliveira introduz um olhar algo longilíneo sobre sexualidade a partir de uma tensão silenciosa entre pai e filha, que vivem momentos opostos, mas igualmente desestabilizadores, em suas relações com o sexo.

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“Mulher do Pai” fala, ainda, de um Brasil que parece parado no tempo, mas já recebe os choques da modernidade – como demonstram as cenas de Nalu com sua amiga cujo pai mora em Porto Alegre. Trata-se de um filme muito peculiar na densidade que dá a muitos temas, todos tateados a partir da intrincada relação de um pai amargurado com sua filha ávida por partir.

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