Drama, que venceu o Globo de Ouro e tem oito indicações ao Oscar, estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas brasileiros; leia a crítica

É muito comum vermos filmes que se asseveram como instrumentos contra o preconceito racial serem construídos dramática e narrativamente de maneira convencional e permeada de clichês. Em 2016 tivemos “Estrelas Além do Tempo” e “O Nascimento de uma Nação”, bons filmes, é bom que se diga, encaixando-se nessa descrição. O grande mérito de “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, um dos filmes mais elogiados e premiados da temporada, é justamente extrapolar essa força gravitacional do cinema que se pretende politicamente correto.

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Cena do filme Moonlight, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (23)
Divulgação
Cena do filme Moonlight, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (23)

A fita de Barry Jenkins não é um feel good movie. Tampouco se empenha em trabalhar a culpa do público. Parte da eloquência de “Moonlight” está em atacar a chaga social que é o preconceito, mas também a alienação social, com sutileza e minimalismo.

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Acompanhamos a história de Chiron, vivido por três atores diferentes ao longo do filme. Alex Hillbert vive o personagem quando criança. Chamado de Little, ele acaba se aproximando de Juan (Mahershala Ali), um traficante local, que se afeiçoa ao menino que exala fragilidade. Little sofre nas mãos da mãe, vivida com força incrível por Naomie Harris , uma viciada em crack que não dá a mínima para o filho. Sua relação com Juan, e com a namorada dele, Teresa (Janelle Monáe), são uma âncora para a sanidade emocional do garoto. No segundo ato o flagramos adolescente e é Ashton Sanders quem dá vida a Chiron. Sua homossexualidade, apenas pressentida antes, parece já definida e Chiron precisa lidar com o bullying permanente entre a mãe drogada e os valentões da escola.

O terceiro ato apresenta um Chiron, agora vivido por Trevante Rhodes, totalmente diferente do que poderíamos imaginar e se comunica plenamente com um dos momentos mais ricos do filme, quando Juan conta um causo de sua infância para o jovem Chiron e diz que uma mulher lhe falara que sob a luz do luar todo menino negro parece azul e que, portanto, lhe chamaria de azul.

O filme, convém observar, é adaptado da peça “In Moonlight Black Boys Look Blue” e essa afirmação, adornada pela fotografia em tons vívidos de azul e preto, aferem um ar estranhamente poético a uma crua verdade que o filme de Jenkins expõe: a de que o mundo te obriga a vestir uma carapuça que certas vezes anula quem você é. É sobre essa dura verdade, que acomete Chiron da forma mais cruel e desumana possível, que este filme tão íntimo, tão suave, e ao mesmo tempo tão febril, trata.

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Jenkins demonstra tanta eficácia técnica, repare no rodopio da câmera em torno de Mahershala Ali logo na cena de abertura, quanto na narrativa. A última cena é de uma beleza triste tão intensa que legitima a comparação com “O Segredo de Brokeback Mountain”.

Cena de Moonlight, que concorre a oito Oscars
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Cena de Moonlight, que concorre a oito Oscars

“Moonlight” é um pária na temporada de premiações. No ano seguinte ao #oscarsowhite, fala do crescimento de um jovem negro, homossexual sem chances na vida e circundado pela  marginalidade. E o faz da maneira mais anticlimática e inusitada possível ecoando um cinema de tato e de sensações. As imagens são belíssimas, como na tenra cena da primeira experiência sexual de Chiron. Nada é óbvio no cinema de Jenkins. A obviedade talvez resida no estado emocional de Chiron quando o encontramos no terceiro ato e quando as palavras de Juan lá naquela maravilhosa cena na praia uma vez mais adquirem o peso de chumbo: “Não deixe que o mundo decida quem você é”.

 “Moonlight: Sob a Luz do Luar” é triste de uma maneira tão bonita, tão verdadeira, tão ressonante, mas sem emular nenhum espetáculo – diferenciando-se, portanto, da média de filmes que tratam de temas correlatos. A tragédia de Chiron, afinal, é tão surda quanto rotineira.

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