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Protagonistas, que brilham intensamente no filme tão original quanto livre de Marília Rocha, falaram com o iG sobre o projeto, inspirado em uma delas

Filme que inaugura a Sessão Vitrine Petrobras , “A cidade Onde Envelheço” é uma coprodução entre Brasil e Portugal que objetiva mais do que estreitar a produção cultural dos dois países. O filme de Marília Rocha fala das diferenças culturais e de costumes entre as duas nações ao observar a rotina de duas amigas portuguesas no Brasil.

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As atrizes Francisca Manuel e Elizabete Francisca em cena de A Cidade Onde Envelheço, que estreia nesta quinta (9) nos cinemas
Divulgação
As atrizes Francisca Manuel e Elizabete Francisca em cena de A Cidade Onde Envelheço, que estreia nesta quinta (9) nos cinemas

Francisca (Francisca Manuel) já vive em Belo Horizonte e apresenta certa estafa da cultura e costumes locais. Uma cena em que ela reclama com um ficante habitual do jeito dos brasileiros pedirem cigarro a estranhos é reveladora desse conflito interno da personagem. É nessa circunstância que ela recebe Tereza, a estreante e encantadora Elizabete Francisca. Tereza tem o entusiasmo de um estrangeiro conhecendo um país novo. “A Marília queria justamente esse sentimento”, revela a atriz em entrevista exclusiva ao iG . Elizabete, que aqui tem sua estreia como atriz, veio ao Brasil pela primeira vez para filmar “A Cidade onde Envelheço” .

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A ideia para o filme surgiu em 2011. Marília se inspirou justamente na vida de Francisca Manuel. Francisca conta à reportagem que vivenciou essa experiência por conta de um intercâmbio realizado pro cinco meses no brasil e que quando estava para retornar a Portugal, Marília lhe apresentou a ideia do projeto pela primeira vez.

O filme marca a estreia da cineasta na ficção e, até pela base, carrega certo ranço documental. Documentarista de verve, Marília Rocha é habituê do festival “É Tudo Verdade”, mas optou pelo híbrido de ficção e documentário aqui. Franscisca vive outra Francisca, mas que empresta da Francisca de carne e osso as angústias.

“Tem alguns exageros no filme em nome de uma melhor dramaticidade”, observa Francisca Manuel ao enaltecer esse cuidado da cineasta de aproximar, inclusive na linguagem e na concepção visual, a ficção do documentário. Passa por aí uma cena muito bonita, no primeiro ato do filme, em que Teresa dança no primeiro momento em que se flagra sozinha no apartamento de Francisca. “Tenho formação de bailarina”, admite a atriz. Esse cuidado de permear a ficção de realidade e a realidade de ficção move o filme e revela uma ambição muito saudável da cineasta do ponto de vista da construção artística.

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Teresa curte os sabores e dissabores de viver como estrangeira no Brasil
Divulgação
Teresa curte os sabores e dissabores de viver como estrangeira no Brasil

O improviso foi estimulado, conta Francisca, e o espectador pode intuir essa liberdade criativa ao assistir ao filme. Sem amarras, no entanto, “A Cidade Onde Envelheço” perde justamente na delimitação do conflito que deveria mobilizar o interesse do público. Apesar do constante jogo de opostos entre Teresa e Francisca, o público não consegue se cativar pelo dilema da segunda, tampouco se conectar com o entusiasmo da primeira. É uma contingência da proposta de Marília Rocha. O final, inesperado em sua irresolução, precisa do público para fazer sentido. Para Francisca, que viveu essa história pela segunda vez, ele é triste na medida certa. “Até para que as pessoas percebam que a vida não é uma novela”.