Milton Gonçalves faleceu nesta segunda-feira (30)
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Milton Gonçalves faleceu nesta segunda-feira (30)

Enredo da Santa Cruz no último carnaval, Milton Gonçalves ia voltar à Sapucaí em 2020, no desfile do Salgueiro que homenageava Benjamim de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. Mas não conseguiu. Ele teve um AVC isquêmico no dia 9 de fevereiro daquele ano, durante uma feijoada na quadra da escola de samba, na Tijuca, Zona Norte do Rio.

No desfile do Salgueiro, Milton viria na última alegoria, sem fantasia, junto com o ator Antônio Pitanga, representando uma geração que abriu portas para atores negros.

De lá ele seguiu para o Hospital Samaritano da Barra, onde ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No dia 2 de março, quase um mês depois, graças a uma boa evolução ao tratamento, seguiu para a semi-intensiva. Em maio ele recebeu alta para continuar os cuidados em casa.

"Veio muito sem aviso. Meu pai não pegava nem gripe. Foi bem grave. Ele é forte. Se fosse outro, teria embarcado. No segundo ou terceiro dia de CTI, botamos música e ele já estava acompanhando com a mão, mesmo intubado. Sempre gostou de dançar", disse a filha Catarina Gonçalves, em janeiro deste ano, para a coluna de Patrícia Kogut.



Morreu nesta segunda-feira, dia 30, o ator Milton Gonçalves no Rio de Janeiro. Ele tinha 88 anos e, segundo a família, morreu por consequências de problemas de saúde que vinha enfrentando desde o AVC.

Durante o processo de recuperação, o artista ficou com a voz mais baixa que o normal e passou a andar apenas de cadeira de rodas, pois sentia dificuldades na perna esquerda. Devido a recuperação mais lenta, por conta da idade, o ator acabou ficando de fora da segunda temporada do especial de Natal "Juntos a magia acontece", da Globo.

Mineiro, de Monte Santo, o ator estreou na profissão em 1958, primeiro no teatro. A estreia na TV Globo se deu sete anos depois. O último trabalho na emissora foi a série "Filhas de Eva", do Globoplay, lançada em 2021. A produção será exibida na TV Globo ainda este ano.

Um dos pioneiros atores negros da TV brasileira, Milton Gonçalves começou a carreira em São Paulo. Ele trabalhava como gráfico quando, após de assistir à peça "A mão do macaco", decidiu entrar para um clube de teatro amador. Logo, seus caminhos cruzaram com os do diretor carioca Augusto Boal, que procurava um ator para fazer um preto velho na peça “Ratos e homens”, no Teatro de Arena de São Paulo. Lá, Milton encontrou atores como Gianfrancesco Guarnieri e Flavio Migliaccio, além do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho, que foram decisivos para a sua formação como ator.

Militante do movimento negro, Milton Gonçalves participou do Teatro Experimental do Negro, candidatou-se a governador do estado do Rio de Janeiro em 1994 pelo PMDB (experiência que o ajudou a compor o personagem Romildo Rossi, um político corrupto, na novela “A favorita”, de 2008) e foi o primeiro brasileiro a apresentar uma categoria na cerimônia de premiação do Emmy Internacional em 2006, ao lado da atriz americana Susan Sarandon para anunciar o vencedor de melhor programa infanto-juvenil.

Em entrevista ao “Extra” em novembro de 2019, o ator disse que faltava representatividade na política brasileira: “O que me deixaria alegre é que nós tivéssemos um presidente negro, porque nós somos um percentual grande neste país. No dia em que nós tivermos um presidente negro, aí eu vou dizer: nós batalhamos.”

Milton estreou na TV na Tupi, fazendo participação em “O vigilante rodoviário” e participou da fundação da TV Globo, em 1965. Lá, junto com Célia Biar e Milton Carneiro, formou o primeiro elenco de atores da emissora, a convite do ator e diretor Otávio Graça Mello, de quem fora companheiro de set no filme “Grande Sertão”, dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira. “Não tinha inaugurado nada ainda. Os três estúdios e o auditório pareciam para mim os estúdios da Universal. O primeiro salário foi 500 cruzeiros. E eu fiquei feliz”, recordou-se ele ao Memória Globo.

Na Globo, Milton Gonçalves fez mais de 40 novelas, atuou em programas humorísticos e minisséries. Entre os primeiros papéis marcantes, estiveram o Professor Leão do infantil “Vila Sésamo” (1972) e o Zelão das Asas de “O bem-amado” (1973, de Dias Gomes), personagem que representava uma metáfora da busca por liberdade política e de expressão em plena ditadura. “O Zelão das Asas mexeu com uma coisa muito cara à população: a fé. O Zelão sou eu, aquele que acredita e cumpre com o que combinou. Eu estou na vida para servir de exemplo”, disse o ator em depoimento ao Memória Globo.

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Em “Pecado capital” (1975), novela de Janete Clair, Milton Gonçalves fez história em uma TV acostumada a destinar aos atores negros papéis de subalternos: o do psiquiatra Percival, médico renomado, com vários cursos internacionais. A autora até ensaiou um romance do psiquiatra com a branca Vitória (Theresa Amayo), a filha mais velha de Salviano (Lima Duarte), mas o público reagiu mal, e os planos foram abortados. “Eu fui à Janete e disse: ‘Gostaria de fazer um personagem que fosse bacana, culto, inteligente, um exemplo para aquele menininho que está no morro, na favela e que só vê negro sendo bandido na televisão, ou que não aparece’”, contou o ator ao Memória Globo.

No cinema, o ator estreou em 1958, no filme “O grande momento”, de Roberto Santos, e seguiu por obras como “Cidade ameaçada”, “Cinco vezes favela”, “Grande sertão Paraíba” e “O homem que comprou o mundo”. Em 1975, como o protagonista de “Rainha diaba” (um traficante homossexual, papel desafiador em plena ditadura), filme de Antonio Carlos da Fontoura, Milton Gonçalves foi eleito melhor ator pelo Festival de Brasília. Depois de mais longas consagrados, como “Eles não usam black-tie”, “Um trem para as estrelas”, “O homem nu” e “Orfeu”, ele foi homenageado em 2003, na 31.ª edição do Festival de Gramado por ter participando em mais de 100 filmes nacionais. E, na década seguinte, participou de obras como “Segurança nacional”, “Giovanni Improtta”, “O duelo”, entre outras.

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