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Ex-BBBs e especialistas analisam apelo perene do programa da Globo

Em 29 de janeiro de 2002, dezessete anos atrás, foi ao ar, na Globo , o reality show que conquistaria o Brasil inteiro. Trata-se do “BBB”, cuja premissa é confinar um grupo de pessoas num ambiente fechado, onde concorrem a um grande prêmio em dinheiro. Após quase duas décadas de exibição, o reality continua gerando fascínio no público brasileiro.

Participantes do
Reprodução/Globo
Participantes do "BBB 19"

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Desde que foi lançado, o “ BBB ” trouxe à tona um debate em torno de diversas questões distintas, pertencentes a uma gama de áreas do conhecimento, como a Filosofia, a Psicologia ou a Sociologia. A ideia de confinar um grupo de pessoas, vigiadas integralmente, desencadeou várias elaborações.

Visando uma análise diante do que o programa representou e ainda representa para a população e o porquê de sua longevidade, profissionais das áreas citadas retomaram as questões levantadas desde o princípio da atração, lá em 2002.

Debate acerca do "BBB"

Festa no
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Festa no "BBB 19"

Para o filósofo Emerson Malheiro, por exemplo, a relação entre os espectadores e o reality em si pode ser ligada à Alegoria da Caverna, de Platão, que descreve indivíduos que veem sombras na parede da caverna, e acham que aquela é a realidade, e não os objetos fora da caverna que geram essas sombras.

“Eles acreditam que na verdade estão vendo uma realidade que não é uma reprodução do que acontece. Elas vêem o que elas desejam ver. E é isso o que os realities em geral reproduzem. O que as pessoas querem ver, e não necessariamente o que acontece. Não necessariamente uma realidade”, Malheiro declarou.

Gleici venceu
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Gleici venceu "BBB 18"

Já o psicólogo e professor universitário Luís Francisco Jr, da FADISP, trouxe por meio da psicologia uma outra visão acerca do reality: “Vivemos numa sociedade de muita repressão, de pouca assertividade, de pouca transparência, com muito segredo, sigilo, com muita coisa escondida. A partir do momento que se tem um programa que divulga o acesso a situações, é uma das razões pelas quais se mantém”.

Lídia Medeiros, doutora em Ciências Sociais e professora na UNISUAM, apontou o “Big Brother Brasil” como “um modelo imagético apresentado na forma de um simulacro (ou realidade simulada) que oferece uma nova roupagem ao poder de influência e sedução da indústria do entretenimento sobre o espectador”.

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"BBB" tem muitas emoções

Além de remeter às visões que o reality trouxe à tona logo em seu primeiro sopro de vida, os profissionais das diferentes áreas também fizeram uma análise de como o  reality show se relaciona diretamente com a sociedade, na prática.

“Podemos pensar nas formalidades envolvidas no show – seleção, testes, provas, tarefas, trabalhos etc. – como representação da nossa inserção no mundo do trabalho. Alguns conflitos apresentados nas várias edições do 'Big Brother Brasil' são muito significativos nesse sentido, como as divisões por classes sociais ou por faixa etária, por exemplo”, Lídia Medeiros dissertou.

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Um olhar pelo lado de dentro

Gustavo participou do
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Gustavo participou do "BBB 19"

Apenas quem sentiu na pele a experiência de participar do “Big Brother Brasil”, no entanto, é capaz de apresentar um olhar de dentro do reality show, uma visão pessoal sobre o assunto.

Gustavo de Léo teve uma experiência recente com o programa. Ele participou da 19ª edição, que ainda se encontra no ar. Sobre a sua participação, o oftalmologista declarou: “Eu sempre vi o 'Big Brother' como um desafio psicológico, jogo de autocontrole, autoconhecimento e superação. Eu me sentia muito preparado, mesmo sabendo que no meio de um confinamento com pessoas tão diferentes umas das outras, a gente ia ter dificuldade no dia a dia”.

Michelly participou do
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Michelly participou do "BBB 11"


A coach nutricional Michelly Crisfepe participou do “BBB 11”, e defende que a experiência revolucionou sua vida em diversos aspectos. “Identifiquei meus defeitos, minhas fraquezas e inseguranças. Consegui me enxergar de outra forma. Existe uma Michelly antes uma Michelly depois do ‘BBB’”, declarou.

Viegas participou do
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Viegas participou do "BBB 18"

Outro participantes que passou recentemente pelo programa foi Viegas, no “BBB 18”. Sobre a participação, declarou: “Eu não tenho dúvida de que muita coisa mudou, principalmente na minha percepção sobre o mundo e sobre mim. Foi uma vivência muito intensa, durante todo o processo de confinamento eu tive que me conhecer”.

Segundo Viegas, o programa é um reflexo do que há na realidade: “Lá dentro, as pessoas são só um reflexo do que elas são aqui fora. Na casa só tem preconceito porque aqui fora tem preconceito. Só tem falta de educação porque aqui fora tem falta de educação. Só tem companheirismo porque aqui fora existe companheirismo, e assim por diante”, declarou.

Fascínio

Emily venceu o
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Emily venceu o "BBB 17"

Diante do fascínio pelo reality da Globo , mesmo após tantos anos de exibição, a socióloga Rita Gati, do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, apontou: “Do ponto de vista da Sociologia, as pessoas ficam obcecadas pela vida alheia televisionada, porque, ao olharem para a realidade que nos cerca, ficam atônitos, sem condições de transformar aquilo que se vê. Somos, infelizmente, viventes de uma crise moral, uma crise social e uma crise ética e os realities são o sintoma dessa crise”.

A socióloga ainda apontou: “A sociedade não tem condições de mudar o status quo, mas os realities nos dão o poder de com um simples toque do dedo decidir a vida de uma pessoa”.

O psicólogo Luís Francisco atribuiu o fascínio uma lógica da psicologia chamada estruturação de tempo, que é quando alguém deixa de se preocupar com as próprias coisas, redirecionando a sua concentração.

Estreia do
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Estreia do "BBB 19"

Já Emerson, o filósofo, relacionou o fascínio do público com uma teoria de Niëtzsche: “Ele concebia a realidade como um mundo de pura aparência, e a verdade como um simples acréscimo ficcional. Então essa ficção é tomada, mas como algo que possa superar como a verdade”.

Por outro lado, os ex-participantes possuem seus próprios pontos de vista acerca da longevidade do programa da Globo .

Para Michelly, o segredo da longevidade do "Big Brother Brasil" pode ser aplicado à gama de reações que ele é capaz de desencadear, tanto por parte do público quanto dos participantes: “É um reality show feito verdadeiramente. Ele é um laboratório humano no qual temos reações diante de algumas ações que acontecem dentro da casa", declarou.

"Cada pessoa reage de uma maneira dentro de um confinamento e diante das experiências que o participante viveu na sua vida”, a ex-sister ainda complementou.

Hana e Alan, no
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Hana e Alan, no "BBB 19"

Gustavo, por outro lado, afirmou: "A longevidade se deve pelo fato de ser um programa que várias pessoas que assistem acabam se identificando. Como tem pessoas muito diferentes é normal cada um se identificar com um participante lá dentro".

Sob o ponto de vista de Viegas, o segredo da longevidade do programa da Globo é sua busca incessante por inovação: “É um programa que está todo esse tempo tentando inovar, atento à diversidade de assuntos, bandeiras, do ser humano mesmo. E nessas buscas, a cada dia que passa, vai se aperfeiçoando”, declarou.

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Participantes do
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Participantes do "BBB 19"

Viegas ainda levantou a questão da interatividade entre o público e o “ BBB ”, que em sua opinião tem sido um acréscimo: “Percebo que hoje em dia, com a interação da internet, eles tentam fazer com que o público faça parte dessa direção. Antes, o jogo era mais jogado por parte da produção. O público, como vai participando mais, acaba gostando mais também”.

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