
Aos 20 anos, BELLI diz ter chegado a "Efeito Borboleta: Caos" com uma percepção que ainda não tinha nos primeiros trabalhos: a de saber com mais clareza quem queria ser como artista. O novo álbum, segundo ela, é o resultado de anos de testes, mudanças de direção, colaborações e de uma participação cada vez maior nas decisões sobre repertório, imagem e performance.
Em entrevista ao repórter Pedro Emerenciano, a cantora, compositora e dançarina conta que "VERSOS", seu primeiro álbum autoral, abriu esse processo, mas que o novo projeto marca uma etapa diferente.
Eu acho que esse álbum realmente foi onde eu me encontrei. Eu tive uma identidade nova da BELLI muito bem formada nele. BELLI
A diferença, diz, está também na maturidade com que passou a encarar a própria carreira. BELLI começou profissionalmente ainda criança, gravando músicas para trilhas de novelas do SBT, e lembra que durante muito tempo viveu o trabalho com a naturalidade de quem ainda enxergava boa parte da experiência como diversão.
"Antes eu era muito nova, então eu não tinha muita noção das coisas. Eu fazia parte, mas ao mesmo tempo achava que era mais uma brincadeira."
Hoje, ela vê "Efeito Borboleta" como o projeto mais ambicioso de sua trajetória justamente porque passou a entender melhor o que queria dizer e de que maneira pretendia apresentar essas histórias.
Foi o álbum em que eu consegui dar tudo de mim. Antes eu estava fazendo aqueles testes ainda, tentando me encontrar como artista. BELLI
Duas partes para contar uma história maior
O projeto foi dividido em dois atos. "Caos", a primeira parte, acompanha uma fase de desorganização emocional, enquanto a sequência avança para uma personagem mais consciente do que viveu.

BELLI
A estrutura nasceu depois que BELLI e a equipe perceberam que havia material demais para um único lançamento. Algumas músicas foram compostas já com o conceito definido. Outras estavam guardadas e encontraram espaço quando a ideia do efeito borboleta passou a organizar a narrativa.
"Eu tenho muito a dizer e queria que realmente fosse uma mensagem bonita, uma mensagem com que as pessoas se identificassem."
O conceito parte da noção de que uma decisão aparentemente pequena pode alterar todo o curso de uma vida. BELLI levou essa reflexão para episódios da própria carreira.
Ela cita o trabalho nas trilhas das novelas infantis como uma dessas escolhas que desencadearam outras oportunidades. Na leitura da cantora, sem aquela primeira experiência talvez não tivesse chegado, anos mais tarde, a uma parceria com Ne-Yo.
Tem muita coisa na minha vida que eu olho e penso: se eu não tivesse feito isso, eu não estaria aqui hoje. BELLI
Essa lógica aparece também nas relações retratadas nas músicas. Em "Caos", as escolhas têm consequências, os vínculos se desfazem e a personagem ainda tenta entender o que aconteceu.
BELLI evita revelar muitos detalhes da segunda parte, mas adianta que haverá uma mudança de perspectiva.
"Nessa segunda, ela já vai estar mais decidida, entendendo realmente todo o caos que aconteceu nessa primeira parte."
Medo de fazer "mais do mesmo"
Transformar relacionamentos em música trouxe outro problema: como falar de términos, traições e frustrações sem repetir fórmulas já muito usadas no pop.
BELLI diz que essa preocupação atravessou boa parte da produção.
"Eu tive muito medo de ficar uma coisa meio genérica, sabe? Mais do mesmo, mais do que as pessoas já costumam falar."
A teoria do caos acabou funcionando como uma saída. Em vez de organizar o álbum apenas em torno de uma separação, a cantora e os compositores passaram a olhar para pequenas atitudes, inseguranças e consequências.

Esse processo envolveu também dúvidas frequentes sobre o próprio material. BELLI conta que buscava opiniões de pessoas próximas porque, depois de ouvir uma música muitas vezes, já não conseguia avaliá-la com a mesma distância.
Eu sou aquela pessoa que pergunta mesmo: 'Me dá sua opinião, por favor'. Às vezes a gente ouve tanto uma música que fica meio enjoada. BELLI
O apoio dos compositores, produtores, amigos e familiares ajudou a atravessar essas inseguranças.
"Homem Não Pensa" nasceu de uma provocação
Uma das faixas que mais despertaram receio foi "Homem Não Pensa". A música surgiu de uma frase que BELLI repetia em momentos descontraídos no estúdio.
A brincadeira acabou virando tema de composição.
"Eu repetia tanto que a gente transformou em música."
BELLI sabia que o título e o tom da faixa poderiam provocar reações. Por isso, hesitou antes de seguir com a ideia.
Eu tive muito medo de fazer essa música, de dar essa provocada. Fiquei pensando: 'Meu Deus, o que a galera vai pensar?' BELLI
A equipe, porém, insistiu que havia ali uma canção capaz de traduzir o espírito do projeto sem cair em uma provocação gratuita. Quando ouviu a versão pronta, BELLI mudou de opinião.
"Eu virei e falei: 'Ah, ok. É uma ótima música. A gente tem um projeto legal aqui'."
A faixa também permitiu colocar a dança no centro da produção. BELLI dança desde os três anos e diz que nunca conseguiu estabelecer uma divisão real entre essa formação e o canto.
"Se você me perguntar do que eu gosto mais, se é cantar ou dançar, eu não vou conseguir responder. Eu acho que, ao invés de engatinhar, eu dancei primeiro."
Em "Homem Não Pensa", a produção já foi criada pensando em um trecho instrumental dedicado à coreografia. O clipe também reforça essa escolha e retoma uma linguagem que BELLI pretende continuar explorando nos próximos projetos.
Sempre que eu tiver oportunidade, vou inserir dança em mais projetos futuros. BELLI
Ne-Yo virou parte de uma história maior
"Eu e Tu", parceria com Ne-Yo e MC Daniel, também foi incorporada ao álbum. Para BELLI, a música nunca deveria permanecer como um single isolado.
Ela conta que, desde o início, imaginava a faixa como parte de algo maior.
"Eu tinha certeza de que ela precisava estar em um projeto maior. Não queria que fosse lançada só como um single."
O encontro com Ne-Yo ocupa um lugar especial na trajetória da cantora. BELLI lembra que já ouvia muito o artista com o pai durante a pandemia e brinca que a colaboração acabou sendo "profetizada" naquele período.
Hoje, ao falar de possíveis parcerias futuras, ela mira ainda mais longe. Ariana Grande e BTS aparecem no topo da lista, mas o R&B segue como referência central.
Ariana Grande, com toda certeza. BTS também. SZA... eu sou muito filha do R&B. BELLI
No Brasil, cita Anitta, Pabllo Vittar e Gloria Groove entre artistas com quem gostaria de dividir uma música.
Da infância à busca por propósito
Ao revisitar a própria história, BELLI identifica três momentos que considera decisivos. O primeiro foi a entrada nas trilhas do SBT. O segundo, o lançamento de "Será Que É Amor?", quando começou a deixar para trás a imagem infantil. O terceiro foi "Eu e Tu".

"Esses três pontos foram extremamente importantes para me colocar como artista, para me fazer amadurecer profissionalmente e artisticamente."
O amadurecimento, porém, trouxe um cuidado: não deixar que a profissionalização apague a diversão que existia no começo.
Quando imagina o que diria hoje à menina que subia ao palco ainda criança, a resposta não envolve estratégia de carreira ou técnica vocal.
Eu diria para ela continuar se divertindo em cima do palco acima de tudo. BELLI
Para BELLI, é possível levar o trabalho a sério sem perder a espontaneidade.
"Quando a gente cresce, vira adulto, acaba esquecendo do que realmente gosta de fazer. É importante ser profissional, mas fica muito mais leve quando a gente faz se divertindo também."
Em "Efeito Borboleta: Caos", essa tensão entre controle e impulso aparece tanto no conceito quanto no modo como a cantora fala da própria carreira. O disco nasce de uma artista que diz saber mais sobre si, mas que não quer perder a curiosidade que a levou ao palco ainda criança.