A chegada da minissérie inspirada no acidente com o Césio-137 , ocorrido em Goiânia em 1987 chegou ao catálogo da Netflix e tem gerado repercussão que vai além da ficção.
Emergência Radioativa, estreou nesta quarta-feira (18) cercada de críticas por parte das vítimas da tragédia e de representantes culturais da capital goiana.
A minissérie, protagonizada por Jhonny Massaro e Paulo Gorgulho, revisita um dos episódios mais marcantes da história recente do Brasil, acompanhando a corrida contra o tempo dos médicos e cientistas para conter a contaminação radioativa após a abertura de um aparelho de radioterapia em um ferro-velho, espalhando o material pela cidade.
A obra aposta em diferentes pontos de vista para contar como foi o cenário de medo e desconhecimento vivido à época, quando ainda não se compreendia plenamente a gravidade da exposição à radiação.
Apesar da proposta e apelo histórico, o lançamento reacendeu feridas que não cicatrizaram para quem viveu a tragédia.
Vítimas não ouvidas
O presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Marcelo Santos Neves, os sobreviventes não foram procurados para contribuir com o desenvolvimento da série.
Em entrevista para o portal MaisGoiás, a falta de informação de quem vivenciou diretamente o acidente compromete a fidelidade da narrativa:
“Não fomos ouvidos para a gravação da série, que é baseada na nossa históiria. Como contar isso sem chamar quem realmente viveu?”, questiona.
Ele também aponta que a produção realizou apenas uma visita pontual a Goiânia e não aprofundou o contato com as vítimas, sendo a única pessoa ouvida pela equipe teria sido o ex-presidente da associação, que acompanhou brevemente o grupo em locais ligados ao episódio.
Já os sobreviventes alegam que a falta de escura pode resultar em versões incompletas ou até distorcidas dos acontecimentos e ainda há o impacto emocional de revisitar o trauma sem o devido cuidado com quem foi afetado diretamente.
A minissérie retrata algumas vítimas fatais da tragédia como:
- Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que ingeriu o material radioativo e se tornou um dos rostos mais lembrados do caso.
- Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, mãe de Leide.
- Israel Batista dos Santos, de 22 anos.
- Admilson Alves de Souza, de 18 anos.
Respeito à memória de Goiânia
O Conselho Municipal de Cultura de Goiânia divulgou em suas redes sociais uma carta aberta direcionada à Netflix e à equipe da série, onde manifesta “profunda insatisfação” com a produção:
“Esse episódio não é apenas um fato histórico: ele é parte da memória viva do povo goianiense. Foi aqui, em nossas ruas e casas, que famílias inteiras sofreram, choraram e resistiram. A tragédia deixou marcas que ainda hoje fazem parte do cotidiano e da identidade de nossa cidade. Contar essa história sem olhar para o lugar onde ela realmente aconteceu é retirar dela a verdade mais profunda: a memória do povo que a viveu.”
A carta também destaca que a realização das filmagens na cidade poderia ter gerado i mpacto positivo, tanto cultural quanto econômico, além de garantir maior representatividade à narrativa.
O iG entrou em contato com a Netflix a respeito das críticas recebidas. Em resposta, o diretor da minissérie, Fernando Coimbra diz:
“O acidente com o Césio em Goiânia, em 1987, é até hoje considerado o maior acidente radiológico ocorrido fora de uma usina nuclear. Os físicos e as autoridades estavam preparados para lidar, eventualmente, com um acidente na usina nuclear de Angra. Mas no caso do Césio não havia protocolo algum para enfrentar aquela situação. Tanto os médicos quanto os físicos tiveram que criar novos protocolos. Autoridades, médicos e físicos vieram de fora do Brasil para auxiliar na situação. Ao final, os brasileiros conseguiram desenvolver um protocolo que passou a ser adotado no mundo inteiro, tanto para acidentes como esse do Césio, quanto para ataques com arma química nos Estados Unidos. Tanto na forma de descontaminar, quanto na forma de tratar os pacientes. Tudo foi considerado muito bem-sucedido.”
Reconstituição ficcional
A minissérie, por mais que conte uma história real, está sendo divulgada como uma reconstituição ficcional que busca contar os bastidores do maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares .
O episódio ocorreu em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado do antigo Instituto Goiano de Radioterapia e levado para um ferro-velho.
Ao desmontar o equipamento, trabalhadores tiveram contato com a cápsula que continha o material radioativo, que acabou sendo espalhado por diferentes pontos da cidade.
A tragédia resultou em quatro mortes e mais de mil pessoas afetadas pela radiação, o que deixou marcas profundas na história do país.
Elenco e Produção
O elenco também conta com nomes como Tuca Andrada, Bukassa Kabengele, Ana Costa, Alan Rocha, Marina Merlino, Antonio Saboia e Clarissa Kiste . A produção, que foi realizada pela Gullane, ainda traz participações especiais de Leandra Leal e Emílio de Mello .
Entre memórias e ficção
Enquanto a produção leva ao público uma história de impacto nacional, vítimas e representantes culturais reforçam que memória, representatividade e escuta são elementos essenciais quando se trata de narrar episódios tão sensíveis.