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O que a nova safra de novelistas pode oferecer para renovar as histórias tradicionais da dramaturgia da Globo que vê seu público debandar

O que “Novo Mundo”, “Totalmente Demais”, “Alto Astral” e “Haja Coração” têm em comum? Além de alavancarem a audiência no horário em que foram exibidas, todas contam com autores que lideram uma trama pela primeira vez. Oferecer oportunidades para novos autores tem sido uma constante da  Globo , o que gera o oposto disso: roteiros imprevisíveis e inovadores, leves e que saem dos moldes, mesmo que  não sejam de fantasia, oferecendo um alívio bem-vindo para os telespectadores. Se os folhetins do horário nobre têm dificuldade em criar novas e envolventes história, utilizando fórmulas repetidas e cansadas, os outros horários seguem o caminho oposto. E muito disso tem a ver com o sangue novo. Autores que, não necessariamente são novos de casa mas, estão a frente de um roteiro pela primeira vez.

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Reprodução/Globo
"Rock Story" sabe dosar drama e comédia e se tornou sucesso de público e crítica

O exemplo mais simples desse bom momento é Maria Helena Nascimento. Colaboradora de longa data de autores como Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, ela já ajudou a escrever mais de 10 tramas na emissora. Mas foi com “Rock Story” que ela ficou a frente de seu primeiro roteiro. E o resultado não poderia ser melhor. A novela das 19h, que fica no ar até junho, é sucesso de público e crítica. Mesmo inserindo um elemento “batido” de autores , como as gêmeas boa e má, ela soube dar a profundidade ideal para cada uma, além de inserir outros temas, como a música, parte tão integrante do folhetim.  E o resultado veio nos números: a novela chegou a dar 32 pontos de audiência, e mantém uma média de 25 pontos.

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Mas Maria não é a única nova aposta da emissora. Nos últimos anos, a Globo vem investindo em novos autores para os horários das 18h e 19h. Das últimas cinco novelas das 19h, quatro foram escritas por autores pouco conhecidos, ou que, assim, como Maria, tiveram sua primeira chance como autores principais como, por exemplo, Daniel Ortiz. Ele foi responsável por duas novelas no horário nos últimos três anos: “Alto Astral” e “Haja Coração”. Antes disso, ele colaborou em novelas de Sílvio de Abreu, como “Passione”.

Outro “achado” do horário foram Izabel de Oliveira e Filipe Miguez, que em 2012 escreveram um doa maiores sucessos do horário, “ Cheias de Charme ”. O trabalho foi seguido de “Geração Brasil”, que não teve o mesmo impacto e recepção, mas é inegável que os novos autores foram escolhas acertadas. Outros estreantes que agradaram foram Roseane Svartman e Paulo Halm, dupla que ficou a frente de “Totalmente Demais”, uma releitura de “ My Fair Lady ” com Marina Ruy Barbosa no papel principal.

A estratégia tem dado resultado. Desde “Além do Horizonte”, de 2013, todas as novelas da 19h têm crescido na média de audiência geral. “Geração Brasil” fez 19 pontos, “Alto Astral” 20, e “ Haja Coração ” chegou aos 27 pontos.

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 “Vejo como um processo natural, os autores de antigamente estão se aposentando e/ou não estão tendo condições de segurar uma demanda de tantos capítulos”, comenta o estudante de Rádio e TV Kássio Freitas e responsável por grupos de discussão de novelas no Facebook. Ele cita ainda o trabalho que Silvio de Abreu tem feito, ao investir em talentos já lapidados há anos. O autor, por exemplo, supervisionou textos de tramas mencionadas, como as de Daniel Ortiz, além de novelas de Elizabeth Jhin e Walther Negrão.

Sangue novo

Maria Helena Nascimento escreve sua primeira novela como autora principal e tem boas críticas pro
Divulgação/TV Globo
Maria Helena Nascimento escreve sua primeira novela como autora principal e tem boas críticas pro "Rock Story"

Se o horário das 19h se mostra um sucesso, o das 18h não está muito atrás. Apesar do ponto fora da curva que foi “Sol Nascente”, as produções do horário também seguem com audiência em ascendência e um porém: desde o começo da década, dez produções foram assinadas, em parte ou integralmente, por mulheres. Elizabeth Jhin, que já colaborou com diversos autores, inclusive Glória Perez em “ Caminho das Índias ”, escreveu três produções desde 2010: “Escrito nas Estrelas”, “Amor Eterno Amor”, e “Além do Tempo”. Thelma Guedes também virou figura carimbada no horário, com quatro produções desde 2006.

Apesar de manter autores já consagrados no horário, como Walcyr Carrasco e Walther Negrão, a emissora também procurou dosar os antigos com novas apostas.  Mesmo em “Sol Nascente”, que não foi muito bem de público e crítica, a emissora apostou na atriz Suzana Pires, que tem um vasto currículo atuando, mas assinou seu primeiro folhetim ao lado de Negrão.

Fantasia

O horário das 18h também costuma ser o mais propício para fantasias. E a produção atual prova que o combo mulheres na autoria + autores novos + fantasia funciona. “ Novo Mundo ” mistura a história real do Brasil com ficção, e tem Thereza Falcão a frente do roteiro, junto com  Alessandro Marson. Falcão já colaborou em diversas outras tramas, inclusive das 18h, e agora está pela primeira vez a frente de um roteiro.

Mauricio Fidalgo/TV Globo
"Novo Mundo" mistura a história do Brasil com ficção em trama ousada e com visual diferente

A novela tem investido bastante no visual, com uma fotografia diferente, e a direção de Vinícius Coimbra está levando os atores para o lugar certo. Junto com o texto de Thereza e Alessandro, “Novo Mundo” tem um bom ritmo, boa dosagem de drama e comédia e segue subindo os índices.

Renovação

Essa leva de novos autores vem em boa hora. As audiências de outros tempos dificilmente voltarão a ser alcançadas, mas o folhetim demorou a se renovar e renovar também seu público. Com o aumento de opções de conteúdo disponíveis hoje, seria normal que as novelas procurassem se adequar aos novos tempos, diversificando seu conteúdo.

E esses horários parecem ter feito isso melhor que os folhetins das 21h horas. Acredita-se que parte disso tem relação com os espectadores de cada horário. Mas nos últimos dez anos as novelas das 21h focaram primordialmente em tramas urbanas e mais realísticas, enquanto os outros horários não tiveram medo de ousar, criando histórias diferentes, e bem homogêneas em temas e personagens.  

Espaço para todos

O sucesso de novos talentos não significa que os autores mais tradicionais serão esquecidos. Como lembra Kassio, “Castelo de Areia”, minissérie de Manoel Carlos , já teve um “ok” da emissora. Gilberto Braga voltará em 2019 no horário das 23h, com a oportunidade de se redimir por “Babilônia”. Esses novos formatos também podem servir para que os autores se renovem, busquem novos parceiros e diretores, para sair de sua zona de conforto. “O maior acerto dos novos autores é tentar inovar sempre num produto tão consagrado e antigo como a dramaturgia brasileira”, comenta Kassio.

Divulgação/TV Globo
"Haja Coração" foi um grande sucesso do horário das 19h e aumentou a audiência da faixa

Sempre haverá espaço para os “novos” e “velhos” autores mas, o grande divisor de águas entre a safra mais recente será construir algo novo e interessante, olhando para trás nos acertos e erros de seus antecessores, para fazer diferente a frente.    

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