Beija-Flor: apresentação luxuosa, empolgada e com enredo muito bem construído, na melhor apresentação da primeira noite dos desfiles de 2022
Marco Antonio Teixeira / Divulgação Riotur
Beija-Flor: apresentação luxuosa, empolgada e com enredo muito bem construído, na melhor apresentação da primeira noite dos desfiles de 2022

O mais engajado enredo de todos que passarão pela Sapucaí na folia fora de época pavimentou a volta da Beija-Flor ao panteão das favoritas ao título. A escola de Nilópolis lembrou seus melhores anos, com apresentação luxuosa, empolgada e — novidade —  um enredo muito bem construído, na melhor apresentação da primeira noite dos desfiles de 2022.

A campeã Viradouro, favorita ao bi, pode até chegar lá na luta renhida dos décimos das notas, mas não foi o passeio que a rádio corredor da folia anunciava. A riqueza de alegorias gigantes e fantasias sofisticadas se desmanchou em desempenho morno, desprovido de emoção. Não foi, nem de longe, o atropelo esperado.

Salgueiro, Imperatriz e Mangueira terminaram como coadjuvantes, enquanto São Clemente amargou a pior apresentação da noite.  Entre sucessos e revezes, valeu pelo renascimento da maior festa brasileira, no outono de alívio do sufoco da pandemia.

Mangueira pintou a Sapucaí com muitos tons de rosa
Reprodução/Twitter/Riotur
Mangueira pintou a Sapucaí com muitos tons de rosa

O abre-alas monumental, com o Beija-Flor preto emulando o sankofa (o pássaro com os pés para o futuro e a cabeça voltada ao passado), marcou o início de virtudes da apresentação nilopolitanas, que passou com todos os setores eletrizados. Neguinho da Beija-Flor, em seu 46° desfile, teve desempenho impecável, assim como a bateria dos mestres Rodney e Plinio.

A porta-bandeira Selminha Sorriso perdeu o salto do sapato direito, dando pitada extra de emoção à sempre torturante divulgação das notas. Marcelo Misailidis repetiu, na comissão de frente, o formato usado por ele mesmo na Vila Isabel campeã de 2013, em que os componentes não descem ao chão. Na apresentação, o assassinato do americano George Floyd surgiu num telão, além de vítimas do genocídio dos negros brasileiros.

Os melhores carros alegóricos da noite foram da Beija-Flor, que derrubou estátuas de racistas, exaltou Neguinho, Cabana e Joãosinho Trinta, lembrou Carolina Maria de Jesus numa biblioteca na favela. No fim, apoteótica, a escola exaltou Pinah e fez a devida reverência a Laíla, numa linda e imensa escultura do diretor de carnaval que a Covid-19 levou.

A deusa nilopolitana superou a aparentemente imbatível Viradouro, que escolheu o luxo para materializar o sonho do bicampeonato. Muito rica, a escola de Niterói passou bem, está autorizada a sonhar, mas será com (algum) sofrimento. No primeiro módulo de julgamento — uma cabine dupla — o ótimo mestre-sala Julinho perdeu o sapato do pé esquerdo, que certamente será observado pelos jurados. As alegorias e fantasias foram muito bem feitas, para contar a história do carnaval de 1919, o primeiro pós-pandemia da gripe espanhola. O carro de Obaluayê foi o mais bonito. Havia ainda diversidade nas alas, com coreografias interessantes  — a formação da cruz vermelha e da bandeira da escola são dois exemplos.

Mas e a carta? O inovador samba em formato epistolar foi cantado com força pelos componentes, mas não explodiu como se esperava. A Sapucaí assistiu imóvel e a vermelho e branco passou morna. Disputará o bi, mas muito longe de ser a barbada que muitos bambas esperavam.


Outro enredo explicitamente antirracista da noite, o Salgueiro patinou em apresentação irregular. Encenou momentos brilhantes celebrando os negros e suas contribuições formadoras da sociedade brasileira, mas pecou num enredo amplo demais, que acabou sem foco. Engajada e poética, contundente e alegre, a escola fez desfile excelente, cantando com força especialmente o refrão oxítono "Salgueirô, Salgueirô".

A bateria ajoelhada, com o punho erguido, emblema antirracista; Mercedes Batista protagonista na comissão de frente do premiado Patrick Carvalho; a apresentação segura de Marcella e Sidclei, casal de mestre-sala e porta-bandeira; e o trabalho do carnavalesco Alex de Souza em alegorias e fantasias impecáveis deixaram a escola próxima de uma vaga no Sábado das Campeãs.

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Mas foi no desfecho da apresentação que a vermelho e branco brilhou mais intensamente. A alegoria que derrubava o obelisco do racismo e a ala à sua frente, com referências a Laíla, Marielle Franco, Moise Kalagambe, Haroldo Costa, Mary Marinho, e frases da luta contra a violência racial fecharam lindamente o desfile.

Reverência a mestre do carnaval na Imperatriz
Coube à multicampeã Imperatriz iniciar a festa da volta, celebração dos sobreviventes da pandemia, missão cumprida com correção. Em sua volta ao Grupo Especial, reverenciou Arlindo Rodrigues, grande carnavalesco formulador do visual contemporâneo da festa (ao lado de Fernando Pamplona), relembrando desfiles históricos de várias escolas.

Pupila de Arlindo e Pamplona, a carnavalesca Rosa Magalhães permitiu-se desfilar no último carro, assinando trabalho de qualidade, que garantirá os bambas de Ramos na elite do samba. Um pequeno acidente com a saia de uma das dançarinas da comissão de frente — que foi apenas regular — deverá custar décimos no julgamento. O samba, no andamento preciso, foi bem cantado pelos componentes, mas não empolgou o público.

O ponto alto da verde, branco e dourado de Ramos foi o trabalho das alegorias, bonitas e de leitura clara. As fantasias bem concebidas, em materiais utilizados por Arlindo (acetato, por exemplo), compuseram o conjunto - mas algumas alas deixaram pedaços pelo caminho.

No último carro, a homenagem ao bicheiro Luizinho Drummond, patrono morto ano passado, se deu num telão, com imagens dele e de Arlindo. Nos fundos da alegoria, menção a um herdeiro genial do carnavalesco-enredo: Joãosinho Trinta. O Cristo Mendigo da Beija-Flor fechou a apresentação — e a volta definitiva — da Imperatriz.

Mangueira: destaque da comissão de frente
Totens carnavalescos protagonizaram o desfile da Mangueira, que homenageou Cartola, Jamelão e Delegado. A escultura do maior mestre-sala de todos, como um boneco da caixa de música chamada escola de samba, foi o ponto alto, ao lado da comissão de frente com trocas de roupa e uma homenagem a outro gigante, Nelson Sargento. Priscila Mota e Rodrigo Neri, o multipremiado casal de coreógrafos, acertou de novo.

Pena que a verde e rosa permitiu uma absurda quantidade de pessoas sem fantasia, apenas de camisa, caminhando nas franjas de seu desfile e atrapalhando os componentes. Muita gente alienígena, sem função, uma completa desnecessidade. Além disso, as terríveis dificuldades financeiras influenciaram decisivamente a construção de fantasias e alegorias.

São Clemente: dificuldade em permanecer no Grupo Especial
Nada se compara à dificuldade que terá a São Clemente para permanecer no andar de cima da folia em 2023. Quando trocou seu tema para homenagear Paulo Gustavo, a escola embrenhou-se numa aventura difícil — o resultado levará a representante da Zona Sul à temida luta contra o rebaixamento.

A figura icônica do grande comediante morto pela Covid-19 deu numa apresentação que se concentrou na Dona Hermínia, sua personagem mais famosa. A escola passou desanimada, com várias alas — inclusive a bateria — sem cantar.

O Sambódromo de iluminação nova — e lamentável — viveu noite emocionante no renascimento. Poderia ter havido mais homenagens às vítimas da pandemia, mas foi uma jornada de saudação à sobrevivência, à vida. Enredo melhor não há.

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