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A 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty deixa de ser um encontro de autores para intensificar o debate político, abordando o massacre de Canudos, narrado por Euclides da Cunha

IstoÉ

A 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) exibe as marcas das perturbações que o Brasil sofreu na última década. Já não se trata do conclave de literatos fundado em 2003 pela editora inglesa Liz Calder, então moradora da cidade histórica.

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Flip acontece de 10 a 14 de julho
Reprodução/Facebook
Flip acontece de 10 a 14 de julho

Com o passar das crises, Liz foi embora, os grandes escritores sumiram, as verbas minguaram e a programação alternativa se incorporou à festa. “Hoje a Flip é a fusão da programação principal com a de casas parceiras”, diz a editora Fernanda Diamant, curadora da festa. “O público mudou a relação com a atenção. Por isso, optamos por mesas de 45 minutos, com formatos variados: palestras, performances e entrevistas.”

Outra mudança se deu na densidade literária  , que se diluiu para dar lugar à politização e à invasão de autores militantes dos movimentos negro, indígena, LGBTQ+ e feminista. “A Flip é um evento educativo e politico”, afirma Fernanda. “Ao fazer cultura, você faz política.”

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Nada mais politizado que o autor homenageado deste ano, Euclides da Cunha (1866-1909), e seu “livro vingador”, “Os sertões” (1902), mistura de tratado antropológico-topográfico e relato da destruição do arraial de Canudos, em outubro de 1897, pelo exército brasileiro. É um tema que convém ao novo modelo da festa.

A atualidade de “Os sertões” será discutida por 33 escritores de dez nacionalidades em várias áreas, da sociologia à fotografia, roçando até a literatura. Fernanda escolheu nomes de locais do interior da Bahia para ilustrar as 21 mesas, nem sempre ligadas ao tema.

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Genocídio

Flip
Reprodução/Facebook
Flip

Também são vários os Euclides abordados. Na mesa “Jeremoabo”, em 12/7, o carioca Miguel del Castillo vai falar de seu romance, “Cancun”, que nada tem a ver com Canudos. Mas diz que lembrará do Euclides moderado. “Ao ver a crueldade dos militares, fez uma autocrítica”, diz. No polo oposto, a crítica Walnice Nogueira Galvão mostrará o Euclides agitador:

“Assim como vemos hoje massacres de pobres, Euclides se revoltou contra o genocídio sertanejo e reconheceu que a mídia fazia lavagem cerebral do público para legitimar a violência institucional.” Ela participa do evento “Euclides socialista”, com o jornalista Glenn Greenwald. O lado poético foi captado pela fotógrafa Maureen Bisilliat em viagens que fez ao Ceará nos anos 1970 e 1980. “O Brasil sem ‘Os sertões’ seria um país menor”, afirma a curadora.

Euclides é reivindicado pela esquerda e pela direita — e corre o risco de se carnavalizar, como tudo no Brasil. Mas é inegável seu papel fundador. “Ele denunciou um crime que continua sendo o modo do Estado se relacionar com as populações vulneráveis”, diz. “No momento que a gente atravessa, sua mensagem se revela ainda mais forte."