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O mérido de "Eu sou dinamite!", de Sue Prideaux, é não ser para entendidos

Queridão das faculdades de ciências humanas, Friedrich Nietzsche parece ser o filósofo mais popular entre os brasileiros. É justo. A verdade, no entanto, é que seu público pouco sabe sobre sua vida — pelo menos enquanto não ler “Eu sou dinamite!”, biografia assinada pela anglo-norueguesa Sue Prideaux. Para quem só o conhece via Facebook, será uma prazerosa descoberta.

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Capa da biografia do filósofo Nietzsche
Divulgação/Editora Crítica
Biografia do filósofo Nietzsche


Não se trata de um livro para entendidos em Nietzsche , e aí está seu mérito. É abrangente, veloz, nada complexo. Historiadora da arte, Sue Prideaux abre mão de intrincadas divagações, sim, mas sem desrespeitar a inteligência alheia. Por isso, não se furta a comentar conceitos fundamentais do pensador: o amor fati, a morte de Deus, Übermensch... São questões que, afinal, nortearam a trajetória pessoal dele, e não apenas sua filosofia.

Assim, a biografia se torna excelente introdução à obra de Nietzsche. O próprio título de Sue Prideaux é referência a um de seus aforismos. Ciente do seu poder de fogo, Nietzsche definiu a si mesmo como dinamite. Suas ideias perturbadoras explodiriam os ídolos, a religião, a guerra, o diabo a quatro, tornando o mundo menos canalha. Fez sua parte.

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Humano, demasiado humano

Eu sou dinamite !” é também o retrato inusitado de um gênio que costuma ser visto como um maluco excêntrico. Mas não é esse o sujeito que se revela na biografia. Sua autora usou cores leves para exibir um sujeito demasiado humano, gentil e até bem-humorado, que vai se desligando da vida real à medida que se aprofunda na pindaíba financeira e existencial.

Como de praxe, Sue Prideaux também reconta histórias de almanaque. Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na Prússia (que hoje faz parte da Alemanha), e tinha 4 anos quando seu pai e seu irmão morreram. Restaram-lhe a mãe, Franziska, e a irmã, Elisabeth.

Nos estudos, era brilhante. Abandonou o curso de Teologia, aplicou-se na filologia e começou a namorar a filosofia mais seriamente. Participou da guerra da Prússia com a Alemanha, de onde saiu com difteria (na enfermaria, seu único amigo era um paciente surdo e mudo). A saúde sempre seria seu ponto fraco, colecionando ziquiziras como icterícia, insônia, gonorreia...

Travado com as mulheres

Eleita a biografia de 2018 pelo jornal britânico “The Times” e um dos livros do ano pelo “New York Times”, “Eu sou dinamite!” capricha ao se estender sobre o relacionamento de Nietzsche com Richard Wagner, o compositor alemão que foi seu “pai-substituto”. Essa relação simbiótica, que envolveu também a mulher do maestro e descambou para uma inimizade ruidosa, foi fundamental para a obra nietzschiana.

O livro é generoso também com os amigos Peter Gast e Lou Andreas-Salomé (uma “femme fattale intelectual”). Nietzsche viveu com eles uma experiência sui generis: um casamento a três e sem sexo. Mas esse é um detalhe anedótico. Foi uma amizade rica... enquanto durou.

Mal-ajambrado, o autor de “Assim falou Zaratustra” parecia estar sempre vestindo roupas emprestadas. Bordéis não eram seu programa predileto. Era meio travado com as mulheres, mas fez suas farras — suspeita-se que a loucura que o dominou no fim da vida teria sido consequência de uma sífilis mal curada na juventude. Há quem o acuse de misoginia, e tem a ver. Ele escreveu muita besteira sobre o sexo oposto, talvez repercutindo a difícil relação com mãe e irmã.

Laços de família

E foi mesmo uma longa e difícil relação, devidamente explicada por Sue Prideaux. Basta dizer que, quando Nietzsche sucumbiu à loucura, em 1889, a mãe e a irmã cuidaram do filósofo até a morte dele, em 1900. É um período contado com detalhes incômodos — mas esse é o lado bom da história.

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O lado podre chama-se Elisabeth e suas armações sórdidas. Antissemita de carteirinha, editou a seu bel-prazer a obra do irmão, tornando-o um entusiasta do nacionalismo mais podre. Nietzsche nunca foi nada disso. Elisabeth, por sua vez, trabalhou diretamente para Hitler — que se mostrou abatido no funeral dela, em 1935. Foi por causa da irmã que Nietzsche levou décadas para ser readmitido como um pensador de primeira grandeza, além do bem e do mal.