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Gravado no Alemão, no Rio de Janeiro, clipe chegou às plataformas digitais nesta terça (25). Vídeo conta com a participação de Pabllo Vittar e Majur

Ao longo de 2m50s, sobre imagens de fragmentos urbanos do Rio, uma voz despeja em gotas um desespero represado: "Parece que depois daquela merda, tio, parece que eu tenho que demonstrar que tô bem todo dia, mano. E nenhum ser humano consegue estar bem todo dia, tá ligado? (...) Parece que essas p*rra de remédio não adianta merda nenhuma (...) Sei lá, mano, eu só precisava falar alguma coisa pra alguém mesmo", começa o clipe de Emicida.

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Emicida, Pabllo Vittar e Majur
Reprodução/Instagram
Emicida, Pabllo Vittar e Majur


Em seguida, Belchior avisa: "Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro". Só então Emicida aparece, anunciando que "Eu sonho mais alto que drones" — para cinco minutos depois concluir com a certeza da vitória ("Te vejo no pódio").

Gravado no Complexo do Alemão, com participações de Majur e Pabllo Vittar , o clipe de AmarElo , lançado nesta terça-feira (25), traça essa jornada da beira do abismo à glória. Para isso, usa imagens de artistas e atletas da favela que venceram apesar das condições desfavoráveis — enquanto a letra fala sobre o destino de quem luta contra a opressão, seja ela racista, classista ou de gênero ("Perder não é opção", ele afirma a certa altura). O single será a faixa-título do próximo disco do rapper, previsto para o segundo semestre.

“Tô namorando esse sample do Belchior há uns três anos. Belchior é muito grandioso, esse trecho da é algo transcendental. Quando você pega algo assim você tem que fazer algo grandioso também. Essa letra teve oito versões, uma mais pra depressão, outra mais política. Mas chegou o momento que eu entendi que a energia da música era sobre força, ela precisava vibrar de maneira positiva. Estamos por baixo, mas vamos vencer”, declara.

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Na visão do cantor, trazer os versos de Belchior de 1976 para um contexto contemporâneo é mais do que dar a eles um novo sentido. É encontrar a essência de seu sentido original.

“Quando você escuta o disco ‘Alucinação’, você vê que ele fala algumas coisas que são muito profundas. Ele cantava: ‘Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher’. Hoje a gente tem um nome pra essas lutas, que são LGBT, antirracistas, feministas. Mas elas já estavam ali. Ou quando ele fala de ‘um rapaz delicado e alegre/ que canta e requebra’. ‘Alucinação’ já era pra gente, como Velha Roupa Colorida , Como Nossos Pais . Porque, assim como a moda e as séries de TV, as mazelas também insistem em fazer revivais”, diz.


A vontade do rapper de trabalhar com Pabllo Vittar vem desde que ele viu a artista pela primeira vez, há alguns tempo. Majur — artista baiana não-binária — é mais recente, mas teve impacto semelhante.

“Desde que Pabllo chegou, a vi como símbolo de força, uma gigante. Vencer sorrindo é algo muito inspirador. Majur eu conheci num show na Casa de Francisca, dela com Hiran. Quando vi, a música foi me levando, estava na beira do palco e eles me convidaram para subir. Acabei cantando um pouco com eles. Ali mesmo, já chamei Majur pra estar com a gente no AmarElo ”, lembra ele, que aproxima a causa negra e a causa LGBTQ+.

“Não dá pra lutar pela liberdade pela metade, ainda mais hoje. Em momento nenhum a letra faz referência à politica, mas não tem como não pensar no Brasil de 2019. Trazendo novamente Belchior, amar e mudar as coisas me interessa mais. Me conectar através do amor para mudar a realidade”, afirma.

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E Vittar reforça: “O clipe fala de força, luta, resistência e reforça nossa busca por igualdade, através da superação, de acreditar em si mesmo e no que o amanhã nos guarda”, diz.

O nome vem exatamente da ideia da conexão pelo amor. O músico fala sobre o nome fazendo referência a Paulo Leminski ("Amar é um elo entre o azul e o amarelo") e a Manoel Bandeira ("Os girassóis amarelos! resistem"). “Tudo já estava aí. Emicida é só o sortudo que está organizando as coisas”, brinca o rapper.

A ideia realista de que vive no mercado — e dialoga com seu mainstream, mesmo quando defende valores opostos aos seus — é fundamental para se entender a forma como o cantor atua.

“O rap percebeu que a gente vendeu tênis pra caramba e essa grana nunca voltou. Uma vez, Mano Brown me perguntou se eu preferia Jay-Z ou Tupac. Eu respondi que preferia Jay-Z, porque ele tava vivo. E ficar vivo é difícil pra car*lho pra gente”, declara.

A música fala exatamente sobre ficar vivo e vencer. Ele conta que o áudio da abertura do vídeo é real, de um amigo que estava mal e que já tinha tentado se suicidar.

“Me vi em vários momentos do áudio. E todos nós somos capazes de nos reconhecer em algum fragmento daquilo, se não em toda a fala. A primeira parte do vídeo é pra horizontalizar tudo. A dor tem a força de juntar todos nós. A gente está numa fase da humanidade com altíssimos índices de depressão, mas nas redes sociais todo mundo tá numa festa. A intenção de começar com uma história tão densa é assumir que na dor somos todos irmãos. Depois disso entra Belchior cantando o que canta”, encerra Emicida.

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