Quando perguntam sua idade, Jorge Aragão, que completou 70 anos em março, responde sem titubear: "tenho 15 anos". Por um lado, porque é assim que o compositor — que se prepara para uma turnê que passará por 70 cidades em celebração às suas sete décadas.

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Jorge Aragão
Reprodução/Instagram
Jorge Aragão se prepara para nova turnê


Com estreia no próximo dia 28, no Vivo Rio — ao olhar Jorge Aragão , ainda se vê como aquele garoto de Padre Miguel movido pela melodia, violão na mão indo atrás das notas de The Pop's, da orquestra Românticos de Cuba e de Luiz Gonzaga. Por outro, porque faz um cálculo sobre o futuro — com a tranquilidade de quem viveu e cantou o suficente pra saber da grandeza e dos limites do coração.

"Acho que tenho mais 15 anos, até os 85 trabalho. Mas são 70, né? A audição tá indo, tô convivendo com isso. E sou um cardiopata sério. Tenho 20 stents no coração. Quando Alcione veio me falar que botou um, preocupada, eu falei: "Unzinho só, comadre?", lembra Aragão.

"Abri o peito em 2002, pus três safenas e uma mamária. Sempre que viajo pra cantar, procuro saber onde fica a (unidade de) hemodinâmica mais perto. Sei que se tiver um infarto posso chegar em até 1h30 e sobreviver, mas sei que quanto mais tempo é maior a chance de ficar com sequelas. Vivo sabendo como posso morrer."

Não há uma gota de resignação ou amargura nas palavras do artista. Pelo contrário, na longa conversa (de mais de duas horas, na qual ele, com inegável prazer, lembra histórias e canta músicas suas inteiras, como Brilha pra mim  e Teor invendável ), o que ele faz é afirmar seu gosto pela vida. Um gosto que se mostra nas suas canções, na observação que fazem da aventura do samba, da existência cotidiana, das paixões, de seus fins e recomeços: Já é , Coisa de pele , Enredo do meu samba , Papel de pão , Eu e você sempre.

"Viver é uma coisa linda. E nem falo no sentido de: 'ah, o sol, os pássaros...'. É olhar pra qualquer pessoa e ver o que ela tem, o que ela carrega", diz Aragão.

A fala dá uma chave para que se entenda sua música. Uma obra que o levou a ser gravado por cantores como Elza Soares, Dona Ivone Lara e Beth Carvalho; que o conduziu à Marte (parceria sua com Coisinha do pai  (parceria sua com Almir Guineto e Luiz Carlos, ela tocou na sonda espacial Pathfinder); que fez com que ele vendesse milhões com sua série de "Ao vivo", lançados a partir de 1999.

Quem ouve Aragão falar, ou simplesmente escuta suas canções, entende que tudo vem do mesmo lugar: o desejo de filtrar em harmonia e melodia a beleza da vida que ele captura olhando para as pessoas.

"Sempre fiz música só pra mim. Não pensava se iam gostar ou não. Nunca fiz música que eu não gostasse para fazer sucesso", diz o compositor, antes de fazer uma pausa e surpreender lembrando um de seus maiores sucessos. "Quer dizer, Eu e você sempre  até hoje me incomoda naquela parte do 'Aí foi que o barraco desabou', que destoa do resto da música, não é o tipo de expressão que uso. Mas é a parte que o povo abre a boca pra cantar."

Caminho musical

O caminho musical essencialmente guiado pelo coração começou cedo, quando aos 11 ele começou a aprender a tocar violão sozinho, olhando para a mão dos músicos e tentando imitar as posições quando descolava um instrumento emprestado — Pobre menina , de Leno e Lilian, foi a primeira canção que aprendeu. 

Mais tarde, sabia solar três músicas quando a campainha tocou durante o almoço da Sexta-Feira Santa ("Meu pai fez uma cara, porque lá em casa não se dava um pio na Sexta-Feira Santa, e o almoço era sagrado, não podia passar uma mosca", recorda o artista que depois gravaria Ave Maria  como uma homenagem a essa religiosidade familiar). Na porta, estava um rapaz que soube de seu talento (bastante) nascente e queria convidá-lo para ser o solista da banda de baile do bairro.

"Aceitei porque vi a chance de poder treinar com um instrumento, que até então eu não tinha", conta Aragão. "Minha formação inicial não teve nada de samba, vem de uma história de baile. Cheguei a gravar músicas como Smile  e Can't take my eyes off you  em referência a esse período. Vim me aproximar do samba só bem mais tarde, quando conheci o Cacique de Ramos", conta. 

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"Nunca fui de escola de samba, não sou de bar, não bebo... Acho engraçado quando falam que sou sambista de raiz. Sou filho de amazonense com acreano.  Quando Elza Soares lançou Malandro  (sua primeira música a ser gravada, em 1976), Sargentelli falou que era uma composição de 'dois neguinhos que desceram o morro'. Virei pro Jotabê (seu parceiro) e perguntei: 'Você veio do morro?'. Ele: 'Nem conheço'", acrescenta.

Aragão destaca Jotabê como fundamental para que ele definisse sua música. Com a bagagem de soul, pop, baião, bolero (som de baile, enfim), ele conheceu o parceiro quando serviu À Aeronáutica, e tocou com ele numa banda:

"Ele juntava harmonias diferentes com a batida do samba na mão direita, eu gostava daquilo", recorda o compositor, que nota porém que a melodia é o grande fio condutor da canção. "Quando Djavan canta, por exemplo, 'Tô sofrendo tanto' (em Meu bem querer ), a melodia dói por si."

Além de Jotabê, houve outra figura central nesse início de caminhada de Aragão no samba. O compositor era vizinho de Alcir Portela, que certa vez o viu com seu violão e pediu pra ele mostrar umas músicas. Depois de ouvi-las, o levou para (o compositor, mais tarde colega de Aragão no Fundo de Quintal) Neoci, que rapidamente o levou ao estúdio para registrá-las.

Ali já combinaram uma ida ao Cacique de Ramos, para a resenha que rolava depois da pelada às quartas-feiras — reunião que originaria as rodas de samba que mudaram a história do gênero a partir do fim dos anos 1970.

Turnê com participações especiais

O que a plateia das 70 cidades da turnê de Aragão verá no palco será basicamente a história que veio a partir daí — um repertório de 70 hits do artista, espalhados ao longo dos shows, que deve virar DVD. A cada noite, um convidado: Alcione (convidada do Vivo Rio), Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo, Erasmo Carlos...

"Tô com medo de saber desse povo", diz Aragão. "São todos meus ídolos. O top pra um cara do meu bairro era ser bancário, até hoje me estranho vivendo de música. Não saberia onde botar as mãos se chegasse perto do Rei Roberto. E quando Lulu Santos falou comigo num prêmio foi um terror, fiquei completamente tímido."

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A fala mostra que, a despeito dos sustos e do cansaço da máquina, Jorge Aragão segue sendo puro coração. Aos 70, ou aos 15.

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