Neste domingo (02) vai ao ar o episódio final de “The Big Bang Theory”, série criada por Chuck Lorre. Após 12 anos na grade de programação da Warner , a turma de Sheldon Cooper se despede do público, porém deixa uma questão importante no ar: afinal, série marcou época?

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The Big Bang Theory
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The Big Bang Theory

Após a reportagem do  iG Gente analisar " The Big Bang Theory ", a resposta para essa pergunta mostrou-se agridoce, ou seja, pode agradar alguns, mas nem todos. Apesar de ser um marco no movimento nerd e ter auxiliado em sua decolagem para o mainstream, a série deixa a televisão sem marcar uma era ou se quer chegar próximo ao legado de produções como "Friends", "Breanking Bad" e entre outras sitcoms consagradas.  

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Com uma boa taxa de relevância em sites como IMDB (8.2) e Metacritic (61), que tem índices de zero a 10, a série não possui números extraordinários comparada a clássicos como “Seinfeld” e “Sopranos”, mas mantém uma boa posição em relação às séries da atualidade.

Além disso, apesar de não ser um trunfo de audiência, ela consegue produzir picos em ocasiões especiais, a exemplo da exibição do último episódio da série nos EUA, que em pouco tempo tornou-se o mais visto da história da obra - totalizando  23,44 milhões de espectadores, tudo isso, durante uma temporada de transmissões esportivas.

Todavia, as boas notas de "Big Bang" perdem relevância pois séries épicas bateram números de audiência bem maiores em seus respectivos últimos episódios. "Friends" e "Seinfeld", por exemplo, atraíram 52.5 milhões e 76.3 milhões de espectadores. "Mad About You" (19.8 milhões) e "Will & Grace" (18 milhões), outras lendas da televisão, apenas nivelam o resultado alcançado pela produção de humor protagonizada por Sheldon Cooper.

O consumidor de séries Sergio Tavares dá musculatura a imagem de "Big Bang" como dona audiência frágil ao declarar que assiste a obra, mas geralmente quando está passando na televisão. Enquanto isso, a super fã Natália Pioli contribui para elevar o número da série sempre que pode, porém, confessa que a maior parte das vezes que assiste é pela internet. 

"Comecei vendo alguns episódios avulsos na Warner , quando reprisavam as temporadas anteriores, mas quando percebi que gostava muito decidi assistir tudo direitinho na Internet, desde o 'Piloto'", comenta Natália, que já assistiu o episódio final da produção recentemente.

Todavia, antes de ser um sucesso de crítica (81%) e público (81%), como mostra o site Rotten Tomatoes em um índice que vai de zero a 100, “Big Bang” iniciou sua trajetória na TV sorrateira e sutil, mas com potência para mudar a maneira como a cultura nerd era vista.

“‘TBBT’ veio mostrar que tudo bem ser nerd e estranho. E isso é um dos pontos mais positivos da série”, inicia a crítica, especializada em jornalismo cultural, Helga Wirthmann Takeno.

“Começou em 2007 e nesta época a cultura nerd estava caminhando no Brasil, não tinha cultura de cosplay aqui … esse tipo de coisa estava começando. Conforme a série foi passando, fomos nos identificando com a rotina deles, suas personalidades, problemas e gostos”, acrescenta o também crítico cultural e jornalista Henrique Almeida.

O tsunami geek

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Especialista em conteúdo de entretenimento fala sobre "The Big Bang Theory" ao iG

Considerada por muitos uma ferramenta essencial para decolar a cultura nerd rumo ao mainstream, a série de Chuck Lorre não apenas estimulou o mercado nacional, mas também o internacional com sua onda ácida e intelectual.

Para Helga, a série auxiliou muito na popularização do nerd pelo mundo, mesmo não sendo a primeira sitcom do gênero: "Existiu uma série nerd entre 1999 e 2000 que foi ‘Freaks and Geeks’, pouco conhecida. Antes disso, nerds eram vistos mais como antissociais e esquisitos. Tanto é que como na primeira temporada de ‘TBBT’ os personagens eram mais caricatos. Então [a série] serviu para popularizar sim a cultura nerd”, comenta ela, que é corroborada por Henrique: “Eu mesmo vendo o hábito que eles tinham de ir numa comic shop passei a frequentar uma. ‘Big Bang’, sem dúvida, foi bem importante para a consolidação do nerd na América Latina, tanto que hoje temos no Brasil uma das maiores Comic Con do mundo”.

Em seguida, ele confidencia: "Às vezes as pessoas queriam sair de casa usando uma camiseta de personagem ou herói e isso não era tão bem aceito pelo público leigo, e agora o pessoal sabe que é uma arte, que é legal... a série, com certeza, ajudou a galera a aceitar mais".

"The Big Bang Theory" valeu cada ano de duração?

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Crítica cultural fala sobre "The Big Bang Theory"

Apesar de crítica e público entrarem em acordo sobre a contribuição que a série de Chuck Lorre fez para o universo geek e cultural, a maneira como a produção foi conduzida é um ponto crucial a se abordar, afinal, após 12 anos na grade de programação da Warner Channel a série chegou ao seu fim com leveza e maestria ou saturada e carregada?

Para o crítico cultural Henrique Almeida, “TBBT” não têm um desempenho exímio em sua jornada na televisão, mas suas quedas não podem caracterizar um péssimo desempenho: “Como toda série, ela teve baixas, né? Teve temporadas mais fracas, porém, ela termina com a sensação de dever cumprido e acredito que no momento certo. Afinal, vimos que o arco dos personagens está completo, se continuasse, seria um erro”.

Enquanto isso, a crítica Helga vê o panorama com outros olhos. Para ela, ‘TBBT’ foi uma série amada e odiada, mas afirmar que a produção foi mal conduzida é algo fora de questão. Além disso, ela ressalta o quanto a série poderia ter se esquivado de piadas estereotipadas.

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Sheldon Cooper em "The Big Bang Theory"

"Muitos nerds (até eu mesma) não gostaram muito do começo, por trazer personagens muito caricatos. Em certos momentos as brincadeiras se tornaram preconceituosas com geeks, gordos, mulheres e com estrangeiros, mas não tem como dizer que o programa foi mal conduzido, afinal, todos os personagens se desenvolveram”, diz ela, que segue o raciocínio.

Natália, a super fã da série, vê a situação por um lado mais pessoal e descarta a existência de episódios entediantes: "Os personagens foram crescendo e evoluindo e isso fazia com que a gente continuasse assistindo, porque os nossos problemas e relacionamentos na vida real também estavam mudando. Pelo menos enxergo assim porque o começo da minha 'fase adulta' foi sempre acompanhando 'TBBT'". 

Enquato isso, o consumidor de séries em geral, que já assistiu todas as temporadas de "Big Bang", discorda da jovem e corrobora o argumento dos críticos de que a série teve baixas durante sua jornada na televisão: "Os personagens deram um salto enorme em suas vidas, até o Sheldon Cooper, que tinha um jeito peculiar de ser, não era mais o mesmo. Acabou ficando maçante, os problemas deles não eram tão divertidos quanto antes".

“TBBT” não marcou época (é fato)

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The Big Bang Theory

Longe de alcançar o feito de muitas obras como “Friends” (8.9), “Sopranos” (9.2), “Seinfeld” (8.9), "Will & Grace" (7.3) e “Breaking Bad” (9.5), que pelo  IMDB  são avaliadas em um índice de zero a 10, “TBBT” (8.2) não goza do mesmo prestígio e audiência, mas sua unicidade promete ser o ingrediente que dará ao programa uma vaga na memória afetiva do público.

"'Will and Grace' era mais sobre romance. 'Seinfeld' era mais sobre amizade. E 'Friends' acabava que era a mistura dos dois. A grande diferença de 'TBBT' são os assuntos além dessa amizade. Os hobbies, conversas, e temas, afinal, fora os nerds, quase ninguém sabia o que RPG, os poucos que conheciam achavam que era somente de vídeo game ou computador", explica Helga, sinalizando que "TBBT" mais popularizou o nerd style do que marcou época.

"À época [que estreou] nós tínhamos séries como 'How I Met Your Mother' e 'Friends', mas o universo geek não era algo que podíamos ver dentro daquilo. Com a chegada de 'Big Bang' nós pudemos ver a união dos dois mundos, dando margem para todo mundo se identificar", acentuou Henrique referindo-se ao fato que, apesar de ser uma sitcom, "The Big Bang Theory" deu mais força ao movimento nerd do que ditamente marcar época.

Com data marcada para dar adeus às telas, na visão de Helga, "Big Bang" é uma produção insubstituível: "Alguém encontrou substituto para 'Friends'? Para 'Seinfeld'? Não. Quem cresceu ou acompanhou todas as temporadas, nunca vai achar um substituto" comenta.

Natália, admiradora da produção de Chuck Lorre, dá musculatura ao pensamento de Helga. "Por mim, eu assistiria 'TBBT' pelo resto da vida", comenta ela em tom bem-humorado. Já o consumidor de séries, Sergio Tavares, se une a ela e admite que a obra deixará saudade: "assisto 'Scorpion' e 'Silicon Valley', mas nada é semelhante a 'TBBT'".  

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Apesar dos altos e baixos, " The Big Bang Theory " termina seu ciclo na televisão como uma série essencial para deslanchar o movimento nerd. Todavia, ela não goza do prestígio crítico e do sucesso de público de outras grandes produções. Basta comparar o engajamento nas redes sociais com o final de outro fenômeno pop contemporâneo, "Game of Thrones", para ter dimensão do espaço que a sitcom vai ocupar na história. 

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