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Projeto criado dentro da Conspiração Filmes busca criar rede de mulheres atrás das câmeras e mudar a realidade masculina dos sets de filmagem

Novos tempos exigem novas atitudes. Foi com isso em mente que Renata Brandão desenvolveu a Hysteria. O projeto, liderado pela cineasta Carol Albuquerque foi desenvolvido dentro da Conspiração Filmes, uma das maiores produtoras de audiovisual do Brasil.

Equipe do Hysteria: projeto busca equilibrar os sets e trazer mais representatividade feminina para o audiovisual
Divulgação
Equipe do Hysteria: projeto busca equilibrar os sets e trazer mais representatividade feminina para o audiovisual

E foi lá que essas mulheres perceberam a falta de representatividade feminina nos sets de filmagem. Seja nos cargos mais técnicos como nas histórias contadas, era comum ver mais homens ocupando cargos, não por que não há mulheres disponíveis, mas por força do hábito. “A Hysteria surgiu desse incômodo de faltar mulheres”, explica Carol.

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De acordo com Carol, elas passaram a dar mais atenção em como as mulheres eram representadas, por exemplo, na publicidade. “Isso nos fez olhar para quem é que estava na direção desses projetos e majoritariamente eram homens”, completa.

As histórias delas, contadas por eles

Não é que homens não consigam escrever boas histórias para mulheres. Pelo contrário, vemos muitos papeis de mulheres complexas no cinema e na TV que foram desenvolvidos por homens.

Mas, a verdade é que, por mais que um homem consiga capturar as nuances dos sentimentos femininos, a perspectiva feminina não só é essencial, como torna essas personagens mais reais, e não só uma idealização masculina.

E é isso que essas mulheres buscam dentro do Hysteria: “a gente está evoluindo para ter personagens mais fortes, mais reais, uma representação menos idealizada da mulher. É o que estamos provocando aqui dentro - criação de personagens que são mais múltiplas”, explica Carol.

Carol Albuquerque:
Mariana Marão
Carol Albuquerque: "Eu acho que é uma transformação que veio para ficar"

Ela conta ainda que isso já deu resultado na prática. O projeto, que passou dois anos em desenvolvimento, está no ar desde o final de 2017 e, de lá para cá, elas já trabalharam com pelo menos 10 novas diretoras.

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Carol explica que houve um entendimento na produtora como um todo desse “gap”. “Tinha um problema na representatividade e um desejo pessoal da Renata Brandão”. Brandão é a primeira CEO mulher da produtora.

Mulheres no audiovisual

Segundo dados do Free the Bid, apenas 13% dos diretores do mercado nacional são do sexo feminino. A iniciativa, criada pela cineasta israelense Alma Har’el e pelo brasileiro PJ Pereira, busca incentivar produtoras a buscar talentos femininos.

No Brasil o Free The Bid chegou no começo de 2017, representado pela Apro (Associação Brasileira de Produção de Obras Audiovisuais). Parte da atuação do projeto no Brasil consiste em incentivar as produtoras a selecionar pelo menos uma mulher quando forem apresentar concorrências para marcas.

Além disso, a iniciativa se propõe a criar um banco de dados de artistas mulheres, para ser consultado publicamente. Nesse sentido, o Hysteria planeja algo semelhante. Hoje eles já contam com mais de 500 colaboradoras em rotação, além da equipe fixa da produtora. Carol explica que ainda não há um banco consolidado, mas que no futuro elas pretendem fazer isso e dividir com todos.

Falando especificamente da publicidade, o Free The Bid analisou que apenas 7% das campanhas publicitárias dos últimos anos foram dirigidas por mulheres, mesmo que, nos lares brasileiros, o sexo feminino represente entre 60% e 70% da decisão de compra.

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 “Desnude” e o futuro

Divulgação
"Desnude" foi exibida no GNT em março e conquistou um público masculino mais alto do que o canal costuma ter

Como Carol explica, mesmo que os projetos sejam feitos por mulheres, não significa que eles são direcionados somente a elas. O primeiro exemplo de como a Hysteria dá certo é “Desnude”, série que foi ao ar em março no GNT. O canal, que tem audiência média formada por 25% de homens, viu esse número subir para 48% com a exibição da série.

Além disso, o novo programa, que já tem segunda temporada garantida, foi feito inteiramente por mulheres. No set, os únicos homens presentes eram os atores. “O ‘Desnude’ surgiu para propor o olhar da mulher para o erotismo – escrito, dirigido e fotografado por mulheres e com a mulher como protagonista”, explica Carol, que escreveu o argumento da série.

“Houve um processo de desconstrução constante. Às vezes é internalizado (nas mulheres) colocar o cara tomando decisões e elas se pegaram pensando nisso”, explica. Por elas, Carol se refere à Carolina Jabor e Anne Guimarães, que desenvolveram os roteiros.

Além disso, a Hysteria tem outras frentes, voltadas a leitura, música e produções para internet. Maria Ribeiro apresenta o “Tudo”, com temas que vão de casamento à Coreia do Norte. O “Alerta de tubarão”, conta com a cofundadora e curadora do YouPix Bia Granja entrevistando influenciadoras especializadas nos mais diversos temas, de finanças a games.

Além disso, o projeto produz "Estrangeiras", que traz um dia na vida de mulheres que moram fora de seus países de origem, e "1/4 Dela" que, a partir do universo particular que é o quarto de adolescentes, apresenta os anseios e sonhos da geração Z, ambas dirigidas por Julia Anquier.

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Martha Mendonça, criadora do “Sensacionalistas” comanda, ao lado de Luciana Fregolente e Luisa Yabrudi o podcast “Grampos Vazados”, com temas variados relacionados ao universo feminino.

Ainda para este ano sairá um documentário sobre games que quer fugir da temática “mulher gamer”. Para completar, Carol comenta que o projeto tem um “flerte eterno” com Clarice Falcão, que participou de um episódio do “Desnude”, e com quem elas desejam fazer outros projetos no futuro.

O futuro é feminino?

“Eu acho que é uma transformação que veio para ficar”, comenta Carol. A frase serve tanto para a proposta da Hysteria quanto para o movimento que vem tomando forma que busca aumentar a visibilidade das mulheres no cinema não só no Brasil, mas em toda a indústria audiovisual. “Eu não acredito que é passageiro por que uma vez q você tem essa tomada de consciência, a tolerância fica muito melhor. Estamos em uma primavera feminista onde as mulheres estão muito alertas”, conclui.

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