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Diretor da polêmica série da Netflix sobre a Lava Jato falou sobre política nacional, embates com Marcelo Freixo e Wagner Moura e novo filme

O diretor José Padilha foi o convidado da noite de segunda-feira (09) no “Conversa com Bial”. Em conversa gravada em março, antes dos acontecimentos recentes, o criador de “ O Mecanismo ” comentou sobre a inspiração para a série, política e embates ideológicos.

José Padilha participou do
Reprodução - Globo
José Padilha participou do "Conversa com Bial" e discutiu sobre política, legalização de drogas e amizades

Sobre o ‘mecanismo’ que domina a política brasileira, ele explica: “os grandes partidos têm seus candidatos que são financiados por empresas que têm interesse em receber verbas públicas. (...) Essas empresas financiam todos os partidos e algum desses políticos é eleito e tem que compor seu governo”, comenta José Padilha .

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 “Quando eleitos”, continua ele, “(os políticos) apontam pessoas chaves para cargos importantes, esses cargos são utilizados para recontratar as empresas que financiaram a campanha – pagando muito mais do que o serviço que elas prestam, sobra dinheiro no caixa dessas empresas – esse dinheiro então é lavado, vira caixa 2 e é redistribuído para os políticos”, conclui.

Bial então pergunta que se ele acha que a operação Lava-Jato é um começo de desvelar esse mecanismo e Padilha afirma que sim. “Ela já revelou, ela já expôs o mecanismo. A gente já sabia que existia o mecanismo. Não é novidade para a gente que a corrupção faz parte da vida do Brasileiro”, completou o cineasta. “O mecanismo não tem ideologia”, conclui.

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Amizades

Wagner Moura e José Padilha são amigos de longa data e, além de
Divulgação
Wagner Moura e José Padilha são amigos de longa data e, além de "Tropa de Elite" trabalharam juntos em "Narcos"

Próximo de Marcelo Freixo, que inspirou um personagem em “Tropa de Elite 2”, como de Wagner Moura, protagonista do longa, Padilha comenta sobre essas amizades, e se elas foram afetadas por suas posições políticas distintas. ““Falo com o Freixo e o Wagner sobre tudo. Não gosto muito de falar com eles sobre política por isso (não causar conflito)”, comenta.

“Eu não consigo ter ideologia. Se existe alguma discordância com o Wagner ou com o Freixo é porque eles têm ideologia”, confessa.

José Padilha e a polícia

Bial também o questiona sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro e Padilha crava: “é quase ridículo. Seria ridículo se não fosse trágico”. O diretor comenta ainda que é a favor da legalização da maconha (ele vive em Los Angeles, onde a droga é legalizada) e acredita que a polícia deve ser melhor remunerada, para evitar corrupção.

Futuro

Em entrevista a Pedro Bial, Padilha comentou que planeja uma produção sobre a tragédia de Belo Monte
Reprodução
Em entrevista a Pedro Bial, Padilha comentou que planeja uma produção sobre a tragédia de Belo Monte

Padilha está prestes a estrear nos cinemas americanos com “7 Dias em Entebbe”, que fez sua estreia no festival de Berlim. O filme, que conta com Rosamund Pike e Daniel Brühl no elenco, conta a história real de um avião que foi sequestrado por terroristas em 1976. Sobre o filme, ele comenta que quis mostrar que um bandido não nasce bandido: “eu não acredito nisso. O que produz o comportamento de um bandido em uma determinada sociedade? O que é que produz um terrorista?”, esclarece.

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Sobre seus trabalhos futuros, ele diz ter interesse em falar sobre a tragédia de Belo Monte. “Eu me interesso porque é uma mistura de corrupção com um profundo descaso ambiental e antropológico. É um crime que tem muitas dimensões. Eu me interesso e estou estudando para fazer talvez um filme”, conclui José Padilha .